“Leia Mulheres”: enriquecimento pessoal por meio da literatura escrita por elas

Em três anos de existência, são mais de 30 grupos de leitura espalhados pelo Brasil

Por Ian Batista

O movimento Leia Mulheres tem como objetivo o incentivo à leitura de obras literárias publicadas por escritoras, devido à falta de visibilidade percebida pelo gênero feminino no ramo. A dinâmica do clube é organizada pelo grupo do Leia Mulheres Curitiba no Facebook, onde é proposta a leitura de um determinado livro com um mês de antecedência. Marcado o local do evento – que varia de clubes próprios de leitura a bibliotecas – as pessoas interessadas, homens e mulheres, se reúnem em uma roda de discussão, feita de maneira aberta.

No aconchegante e confortável ambiente do encontro realizado em junho, na Casa de Leitura Miguel de Cervantes, não faltaram comidas e bebidas para as participantes discutirem as obras de Elena Ferrante, escritora italiana. Juliana Silveira (40), integrante do clube que iniciou o hábito de serem levados alimentos, conta que a maneira acolhedora e maternal com que as participantes são recebidas neste universo mostra uma das facetas do lado feminino. “A maternidade não é compulsória, mas isso é um dos elementos do nosso mundo, então pensei: por que não? Você expande esses laços do calor e da nutrição”, explica Juliana.

Emanuela Siqueira (31), mediadora do grupo, ressalta a boa adesão ao evento ao revelar que o retorno recebido das integrantes sempre é positivo. “Tem muita gente que afirma que o clube mudou a sua vida, porque o ato do diálogo, de estar conversando e de ouvir o outro é fundamental, independentemente do que está sendo lido”, constata Siqueira.

Além do conhecimento da perspectiva feminista na literatura, os clubes presenciais – iniciados no Brasil na capital paulista – oportunizam um desenvolvimento particular útil às outras áreas da sociedade, na visão de Juliana,, integrante do grupo de Curitiba. “O que eu percebo é um enriquecimento pessoal. Algumas pessoas não tinham a percepção da desigualdade entre homens e mulheres na literatura”, afirma Juliana.

Servidora pública, Silveira era integrante do Leia Mulheres em Brasília, sua cidade natal, e mudou-se para a capital paranaense a trabalho. Quando chegou à cidade, em 2015, o grupo já existia há cerca de seis meses, após iniciativa de Emanuela Siqueira (31), hoje mediadora do clube. “Eu conheci as meninas que criaram o Leia Mulheres em São Paulo, comentei em um post delas e me encontrei com uma amiga que também mostrou interesse”, revela Emanuela, mestranda em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Após o encontro, começou  a organização do clube, que atualmente conta com uma base sólida de participantes nos eventos prestigiados por até mais de 30 pessoas.

Autoras na universidade

Nascida em Chapecó, Emanuela afirma que, além da percepção do impacto das obras nas colegas, a iniciativa lhe proporcionou uma nova visão sobre a literatura no âmbito acadêmico. Sua tese é reafirmada por Vanessa Pessoa, estudante de Letras na UFPR, que conheceu o movimento quando morava em Sorocaba, antes de vir fazer faculdade em Curitiba. Segundo a paulistana, apesar dos avanços obtidos pelas mulheres nas universidades, ainda existe muita assimetria nas posições de destaque entre os dois gêneros.

“Nos meus trabalhos, eu tento usar autoras como referência, porque na faculdade a gente não escuta tanto falar de mulheres”, conta Vanessa. A estudante ainda revela ter percebido uma diferença notável no número de obras escritas por mulheres que passou a ler após iniciar sua participação no Leia Mulheres.

“Não se trata de ler apenas mulheres ou apenas homens, mas sim de tentar ter um equilíbrio, um espelho para enxergar os dois lados”

 

Nicho literário

De acordo com Emanuela, há uma crítica nos estudos da literatura de que a percepção feminista busca uma alteração do cânone literário – seleção valorizada de livros considerados como clássicos, que consequentemente impõe a exclusão de outras obras. A mestranda explica, entretanto, que a crítica feminista apenas busca novas perspectivas acerca da literatura, e não a subversão do cânone. “Existe o Machado de Assis, mas também existe a Maria Firmina dos Reis, também negra, desconhecida pela maioria e que escreveu no mesmo período que ele”, afirma. “Não se trata de ler apenas mulheres ou apenas homens, mas sim de tentar ter um equilíbrio, um espelho para enxergar os dois lados”, completa a mediadora.

Juliana acrescenta que a peculiaridade de no clube serem analisadas apenas obras de mulheres não é um fator limitante à leitura como um todo, uma vez que nada impede as participantes de conhecerem outras obras. Trata-se, portanto, de uma maneira de conhecer a história da literatura sob uma nova perspectiva, tomando conhecimento do corte de gênero existe na área. “É muito bom você ter esse nicho, justamente para que ele, um dia, deixe de ser nicho”, esclarece a servidora pública.

 

Serviço

O grupo no Facebook é aberto para que qualquer pessoa registrada possa entrar e participar.

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