Livro sobre os subterrâneos de Curitiba traz à tona antigas lendas

Os famosos túneis da capital guardam mistérios de séculos passados

Por Larissa Nicolosi

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Esta é a capa do livro do jornalista André, que será lançado no dia 20 de maio (Arte: André Wuicik)

O jornalista André Rogal Wuicik, de 23 anos, vai lançar seu primeiro livro “Túneis de Curitiba: Verdades e mitos sobre os subterrâneos da capital paranaense” no próximo dia 20, na Livraria do Chain. O lançamento aborda os principais mitos da existência dos túneis secretos, como o caso das passagens subterrâneas que existem embaixo do Colégio Estadual do Paraná, e levanta o debate das histórias que são repassadas ano após ano.

André começou suas pesquisas sobre os túneis de Curitiba na adolescência, em 2011, a partir dos poucos materiais que encontrava, como documentos históricos na Biblioteca Pública do Paraná. Conseguiu reunir esforços junto com o pesquisador Marcos Juliano Ofenbock – conhecido como Indiana Jones de Curitiba.

Mitos após gerações

Há quem diga que os túneis da cidade são resquícios do período da Segunda Guerra Mundial. Mas os pesquisadores desmentem. Segundo eles, os subterrâneos foram criados no período entre guerras, não feitos especificamente como abrigo durante os anos escuros da Grande Guerra.

Uma das principais lendas é sobre a existência do túnel embaixo do Colégio Estadual do Paraná, que levaria até o Centro Histórico. Marcos diz que este caso não tem comprovação. “O que pode ser concreto é o fato de que o caminho embaixo do Colégio foi um abrigo antiaéreo do grupo Agulhas Negras (unidade de treinamento do Exército em Resende, no Rio de Janeiro), já que o colégio foi feito a partir de um estilo de arquitetura de guerra. Mas túnel mesmo? Ninguém sabe,” afirma ele .

Assim como o caso da Santa Casa de Curitiba, que ganha a cada ano mais indagações sobre sua construção. Túneis? Aparentemente não. Mas Marcos diz que está correndo atrás dos trâmites para pesquisar a história.

Já sobre as comprovações, há o subterrâneo do clube alemão Concórdia – uma das sedes do atual Clube Curitibano, no bairro São Francisco, que foi feito no fim do século 19. Segundo Marcos, foi uma rota de fuga alemã, de 1889. É um dos mais conservados da capital, mas hoje a grande maioria das passagens estão lacradas.

E ainda existe a cereja do bolo: um complexo de túneis que a Companhia de Jesus construiu secretamente em Curitiba antes da expulsão da ordem do Brasil em 1759. Os jesuítas construíram uma gigantesca caixa-forte no bairro das Mercês. O intuito dos túneis jesuítas era de armazenar ouro e objetos de valor que a Companhia de Jesus coletava em suas missões espalhadas pelo interior do estado do Paraná. Hoje, o local abriga o Bosque Gutierrez.

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Túnel localizado no bairro Mercês, primeira câmara de construção Jesuíta (foto: Marcos Juliano)

História de pescador ou de… pirata?

Pelos anos de 1820, um pirata inglês conhecido como Zulmiro estava se aventurando pelas terras brasileiras até descobrir um tesouro no estado do Espírito Santo. Sem pensar duas vezes, pegou sua riqueza e se isolou em terras curitibanas, num túnel onde pôde guardar tudo e ficar em segurança. O lugar escolhido é o citado ali em cima: o túnel dos jesuítas. O tempo passou, o pirata faleceu em 1880 e o tesouro sem dono presente continuou escondido. Eis que anos depois a propriedade, onde ficavam os túneis, foi adquirida pela família Gutierrez, uma das responsáveis pela introdução do espiritismo no estado do Paraná. Segundo uma das familiares, a Dona Yvone Gutierrez, o pirata se comunicou com a família numa mesa espírita. Zulmiro contou toda a sua história e a de seu abrigo também, explicando cada parte dos túneis. O mais interessante é que ele também contou sobre seu tesouro, dizendo que estava guardado na propriedade, mas somente as próximas gerações iriam encontrar. Pediram-lhe uma prova de que tudo aquilo era verdade e, depois de indicar para irem até a parte que era sua casa, Zulmiro deixou a planta da moradia no chão.

História de Hollywood? Parece. Mas é uma das histórias com comprovação, segundo André e Marcos, que fazem parte do acervo dos túneis jesuítas. Abaixo, estão manchetes dos jornais sobre a vinda do pirata e, o mais impactante, um mapa da rota de Zulmiro que também foi encontrado e serviu de fonte para fortalecer sua existência.

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Jornal de Porto Alegre falando sobre os tesouros de Zulmiro, 1912 (foto: Genealogik)

 

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Mapa da rota do Pirata Zulmiro, feito no século 19 (Foto: genealogik)

Para ler e recontar

A história de Zulmiro acabou de ser contada, mas não acabou por aí. Marcos irá lançar ainda este ano um livro infanto-juvenil chamado “As Aventuras do Pirata Zulmiro” que contará toda a história do marinheiro juntamente com desenho e ilustrações. Animado com o lançamento, ele conta: “as pessoas são fascinadas pelas lendas urbanas de Curitiba. A história dele (do pirata) é muito interessante e agora quis transformar em livro e trazer Zulmiro como o novo ‘herói de Curitiba’”, disse o pesquisador, que também apoiou o livro do amigo André.

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Ilustração presente no livro de Marcos, sobre Zulmiro (Foto: Marcos Juliano)

Já o lançamento de André conta com uma coletânea de lendas que correm por Curitiba. O jornalista desvenda e explica quais são as lendas e o que é verdade. Foi o próprio autor que desenhou a capa e, além disso, não vê a hora de colocar seu primeiro livro nas prateleiras: “os túneis são muitas vezes segredos de infância passados nas famílias. Muita gente ouviu falar, mas pouca gente realmente conhece. Estou empolgado com o lançamento de algo que antes era um hobbie e agora tomou essa proporção”. Apesar das grandes pesquisas feitas por Marcos, o livro de André é o primeiro documento histórico a contar com propriedade sobre os subterrâneos, contendo ilustrações e comprovações pelas páginas.

Serviço

A obra conta com o prefácio do atual prefeito da capital, Rafael Greca, e será lançado na próximo sábado, dia 20, na livraria do Chain, e irá custar 25 reais. A livraria fica na rua General Carneiro, 441, Centro.

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