Mãe! é o filme mais controverso de 2017

O conto fantástico de Júlio Cortázar, Casa Tomada, de 1946, conta a história de um casal que vive pacatamente em uma casa espaçosa e antiga, onde “poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem”. Na ficção, pouco a pouco a casa começa a ser tomada por visitantes estranhos e eles têm de se acomodar cada vez mais para que não sejam incomodados até um certo ponto em que eles mesmos são expulsos de sua própria moradia. É mais ou menos sob esta mesma perspectiva que se passa a narrativa de Mãe! (2017), um longa-metragem que se passa completamente dentro de uma casa.

Para quem não gosta de alegorias e simbolismos junguianos, é fortemente recomendável que não se assista o filme para não se aborrecer. Darren Aronofsky não trabalha com narrativas simples. Suas fábulas geralmente são sempre um tanto controversas, como o famoso Requiém para um Sonho (2000), que retrata todos os tipos de vícios de maneira bastante intensa e Fonte da Vida (2006), sobre um homem obcecado pela juventude. Um dos seus maiores sucessos dessa década, Cisne Negro (2010), tratava sobre uma bailarina que, ao longo de um relacionamento conturbado com seu instrutor, acaba desenvolvendo um perfeccionismo doentio. Em todos estes filmes, no entanto, nenhum chega a ser tão confuso e problemático quanto Mãe!, longa-metragem que foi considerado como o filme mais controverso de 2017 pelo New York Times.

No filme, um casal, interpretados por Jennifer Lawrence, de Jogos Vorazes (2012) e Javier Bardem, de Biutiful (2010), vive tranquilamente numa casa de estilo vitoriano. Durante o filme, a personagem de Jennifer, que não tem nenhuma identificação ao longo da trama, parece muito atenta a deixar a casa onde vive perfeita. Nesse ínterim é que ela é tomada por momentos de extrema sensibilidade e sente uma conexão completamente orgânica com o espaço, chegando a tocar nas paredes e visualizar um coração batendo. Já o seu marido, que também não tem nenhuma identificação até o final do filme, é um poeta renomado que sofre de um bloqueio criativo desde o lançamento de sua primeira grande obra.

É neste cenário que começam todos os questionamentos. A personagem de Jennifer Lawrence é extremamente dependente de seu marido. Não há nenhuma outra matiz nas suas emoções, a não ser devoção e ansiedade de deixar a casa como um verdadeiro paraíso. Esse é o ponto mais desesperador e problemático do filme. Logo em seguida, um homem aparece na casa (interpretado por Ed Harris) e é convidado pelo poeta a passar um tempo na casa. No outro dia, ele recebe a visita de sua esposa (Michelle Pfeiffer), uma mulher espontânea e ácida que provoca a recatada personagem de Jennifer Aniston a ter um filho para manter seu casamento. A partir daí, a trama cresce num nível exponencialmente absurdo de mistério e simbolismos que, é certo, um espectador pouco ligado a qualquer um desses temas é capaz de deixar a sala de cinema sem nenhuma piedade.

Ao longo do filme, várias pessoas estranhas começam a tomar conta da casa com a conivência do poeta e desespero de sua esposa (Imagem: Divulgação)

“Pessoas que assistirem o filme sem nenhum senso de alegoria irão entender errado”, desculpou-se Darren antes mesmo da estreia do filme em entrevista para a revista Times. Na verdade, a cereja do bolo do filme de Aronofsky é, de fato, as metáforas e as simbologias. Durante todo o filme, a narrativa é contada sob perspectiva da protagonista, a Mãe. Sendo assim, a sensação de angústia e sofrimento do thriller psicológico chega a ser exaustiva para um espectador desatento, até o ponto em que tudo faz sentido – ou não. Como em Melancholia (2011), de Lars Von Trier, a sequência proposta pelo diretor é completamente carregada de mitos e sinais que ultrapassam o cenário intimista de uma casa e podem ser contemplados em um nível universal.

Ainda assim, a construção dessas simbologias não é algo instantâneo, mas quando se dá, é irreversível. Num primeiro momento, pode chocar. Porém num outro instante, quando se põe o filme em perspectiva global, se torna até razoável, apesar de extremamente sombrio. Um fato é que o diretor quis tocar em não apenas uma ferida, mas em várias. Em press book divulgado à imprensa, Jennifer Lawrence admitiu ter jogado o roteiro no chão do quarto na primeira vez que o leu. “Existe certamente um momento do filme no qual alguns vão dizer: ‘Darren, você está levando isso longe demais’; e se retirar do cinema”, admitiu a atriz. Por outro lado, ela lamenta: “Enquanto o universo estiver se expandindo homens sempre vão usar as mulheres” – o que, muito infelizmente, seja a melhor frase que defina toda a controvérsia.

Em tempos que se bate tanto na tecla da igualdade de gênero, Darren tropeça nas próprias fendas da sua casinha de faz-de-conta

O filme de Darren Aronofsky é bastante ambicioso – e, onde há bastante ambição, há também muita pedância. Porém, ao mesmo tempo, é pretensioso querer questionar as motivações de um diretor cinematográfico, que, afinal, cumpre seu papel enquanto promotor de reflexão através da arte. Neste âmbito, o filme é impecável por um singelo motivo – ele se compromete a fazer aquilo para o qual o próprio diretor se propôs: gerar debate, goste dele ou não. No aspecto mais técnico, não há nada que se vê em Mãe!, que já não se tenha visto em outros filmes. Os cortes e a montagem são muito bem produzidos, de fato, e deixam ali a intenção da narrativa mas sem parecer tão explícito como em um filme do Lars Von Trier. Já no que diz respeito a uma recepção mais segmentada, especialmente em tempos que se bate tanto na tecla da igualdade de gênero, Darren acaba se tornando, metalinguisticamente, o próprio poeta – e tropeça nas próprias fendas da sua casinha de faz-de-conta.

NOTA: 10,0

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *