Marcha em Curitiba Luta Contra o Corte nos Investimentos em Pesquisas Científicas no Brasil

Convocado pela Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência, ato buscou aproximar as discussões sobre pesquisas nas universidades do resto da população

Por : Daniel Tozzi

No último sábado, 11, a Praça Santos Andrade foi palco da segunda Marcha pela Ciência de Curitiba. O evento organizado pela Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência (SBPC) teve como objetivo protestar contra os seguidos cortes do Governo Federal no orçamento para pesquisa nas universidades brasileiras e conscientizar a população a respeito da importância da produção de ciência e tecnologia no país.

De acordo com a última proposta enviada ao Congresso Nacional, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) deve sofrer, em 2018, um corte bruto de 19,5% em relação ao montante destinado para o ano de 2017. Em termos práticos, a decisão significará uma redução de um quarto nos recursos para custeio e investimento de bolsas de fomento à pesquisa nas universidades brasileiras, passando dos atuais R$ 5,9 bilhões, para R$ 4,4 bilhões.

Os organizadores da Marcha acreditam que a pesquisa científica nas universidades corre o risco de ser ainda mais precarizada caso a redução orçamentária seja aprovada. Em 2017, o orçamento do MCTIC já havia sofrido um corte de 40% em relação ao ano anterior. Falta de equipamentos, diminuição do número de bolsas para projetos já existentes e a não abertura de novos projetos devem ser as principais consequências.

“Estamos numa situação de penúria total. Os laboratórios estão fechando, não há recursos para expansão e as agências de fomento à pesquisa estão trabalhando no seu limite”, explica Aldo José Zarbin, professor do Departamento de Química da UFPR, presidente da Sociedade Brasileira de Química e um dos organizadores da Marcha em Curitiba. Segundo ele, a Lei Orçamentária de 2018 deve ser revista para que a ciência e tecnologia “sejam contempladas com os recursos que merecem”.

Marchas semelhantes foram convocadas pela SBPC no último fim de semana por todo o país. Em Curitiba, o ato contou com representantes de diversos cursos de graduação e pós-graduação da UFPR, como professores, membros do movimento estudantil e até mesmo o Reitor da Universidade, professor Ricardo Marcelo. “Todas as formas de divulgação dessa causa [investimento em ciência] são muito bem vindas. Temos que nos mobilizar e vir pra praça, como estamos fazendo agora, e alertar a população sobre essa situação”, declarou o reitor.  

Para Ticiana Farias, aluna de doutorado do Departamento de Genética da UFPR, o Brasil tem se consolidado como pólo de pesquisa nos últimos anos, mas o contingenciamento das verbas são incompatíveis com a manutenção deste status. “Estão faltando produtos básicos em nossos laboratórios e isso faz com que a gente diminua nossos projetos de teses e dissertações”, lamenta.

 

Ticiana durante a Marcha na praça Santos Andrade. Cartazes com dizeres semelhantes a este e panfletos foram distribuídos para os participantes do ato (Foto: Daniel Tozzi)

“O investimento em Ciência e Tecnologia é o único caminho para o desenvolvimento de um país e, por isso, deve ser contínuo. Você não faz ciência de hoje pra amanhã. É algo a longo prazo” explica Zarbin. Graças a investimentos recentes feitos no país, o Brasil ocupa hoje a 13ª colocação no ranking mundial de produção científica. “A partir de pesquisas realizadas aqui, descobriu-se, por exemplo, a relação entre o zika-vírus e a microcefalia; a exploração do pré-sal e a tecnologia dos carros flex”, complementa o professor.

Distanciamento da sociedade

Apesar dos avanços nas pesquisas universitárias gerarem benefícios para toda a sociedade, muitos pesquisadores veem com preocupação o desinteresse, ou mesmo o desconhecimento, de boa parte da população pela causa dos produtores de ciência no país. Para Ticiana, muitas vezes, os pesquisadores não conseguem aproximar sua linguagem do resto da população, o que contribui para a falta de entendimento sobre a real efetividade do que é produzido em laboratórios. “A população vai sentir o impacto quando faltar, por exemplo, medicações e tudo aquilo que é próximo dela”, pondera.

O estudante de doutorado de Química da UFPR, João Paulo Damasceno, acredita que boa parte dos brasileiros reconhece a importância do trabalho dos cientistas, mas as pautas deste grupo, como a luta contra os cortes nos investimentos federais, ainda são pouco divulgadas. “As pessoas até dão crédito ao nosso trabalho, mas ainda falta mostrar que o cotidiano delas é cercado e pautado por ciência e por isso esses cortes vão afetá-las diretamente”, conclui.

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