Mochilão: conhecer muito gastando pouco

Ser mochileiro vai muito além de carregar uma bolsa nas costas, é acumular experiências e se desprender dos padrões sociais

Por Pedro Macedo e Daniel Tozzi

“Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como acontece sempre na estrada”. A citação está presente no livro “On the Road” do norte-americano Jack Kerouac, considerado o grande guru literário dos viajantes e caroneiros que resolvem cair na estrada em busca de aventuras. O desejo de largar tudo para trás, colocar uma mochila nas costas e sair sem rumo inspira pessoas mundo afora. Fazer um “mochilão” é, certamente, uma ótima maneira de viajar, conhecer lugares, pessoas e, o melhor, sem gastar muito dinheiro.   

Para muitos aventureiros que fazem viagens do gênero, a principal motivação é sempre a sensação de liberdade que viajar proporciona. O sentimento de não estar preso a horários, prazos e obrigações é o que os inspira. “A principal experiência ao se viajar é provar a única e completa liberdade. O sabor de acordar na beira da estrada e ter noção do real livre arbítrio”, afirma o estudante de história Guilherme Capriolli, 26, gaúcho de Porto Alegre.

Ele, que já fez viagens pelo Brasil e pela América do Sul, conta que viajar de mochilão se tornou uma espécie de vício: “depois que você volta, sempre acaba pensando no próximo”, pondera. Guilherme começou a viajar com 17 anos em uma jornada pela serra gaúcha com alguns amigos. Em 2014, teve sua primeira experiência viajando sozinho e de carona, quando foi até Buenos Aires na Argentina. Em seguida, planejou um mochilão para atravessar diversos países da América do Sul. Em seis meses de jornada, ele passou por Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia, sempre viajando de carona. Guilherme ainda revela que é normal ter que trabalhar durante a viagem para cobrir seus custos: “no meu último mochilão trabalhei no Peru descarregando caminhões e em uma cervejaria na Colômbia”. 

Guilherme na “Terra do Fogo” em Ushuaia, extremo sul da Argentina. Foto: Arquivo Pessoal

Independência, autonomia e autoconhecimento

Para Fernanda Pamplona, formada em psicologia, a base principal do mochilão é a “independência e autonomia”. Seu primeiro mochilão foi pela Europa com 19 anos. Ela trabalhou por oito meses para juntar dinheiro e afirma que trabalhar para sentir o valor da conquista é importante.

Fernanda, na bicicleta, em seu primeiro mochilão pela Europa. Foto: Arquivo Pessoal

Fernanda não sabia direito como funcionava um mochilão e se preparou através da leitura de artigos na internet, conversas com sua amiga que também ia viajar, mas, principalmente, deixou o acaso trabalhar em seu favor. Como viajar de trem na Europa é caro, ela preferiu utilizar outros meios de transporte mais baratos, como ônibus e avião. Para ela, o mochilão se difere da viagem convencional pela imersão cultural. “É uma jornada de autoconhecimento. O mochilão surte efeito quando você aprende algo sobre si mesmo. Você não é a mesma pessoa na hora de voltar para casa”, diz a psicóloga.

Seu segundo mochilão foi pela América do Sul. Dessa vez, ela priorizou a viagem terrestre para explorar o continente. Passou por Porto Alegre, Uruguai, Argentina e terminou no Chile. Para ela, o mochileiro tem que ser humilde. É necessário que você se permita viver aquilo que é desconhecido. Os perrengues foram muitos, por isso, Pamplona avisa que é necessário se precaver. Ela, por exemplo, tirou cópia autenticada do passaporte, caso algo acontecesse, e no seu segundo mochilão, juntou dinheiro para um seguro de viagem, que se torna indispensável quando você fica doente.

Ter organização, dedicação, esforço, buscar e ir atrás dos seus sonhos são as dicas essenciais para um mochileiro, de acordo com Fernanda: “quando acontece alguma coisa ruim, ela pode ser bem ruim. Mas em contrapartida, quando algo bom acontece, é uma coisa realmente muito boa”.

Para Nathally Fogaça, estudante da cidade do Rio de Janeiro, além da sensação de liberdade, a grande motivação para viajar é a oportunidade de conhecer pessoas e lugares novos e, acima de tudo “ficar sozinha, ouvir os próprios pensamentos e conhecer a si mesmo”, como ela mesmo afirma. Nathaly já realizou dois mochilões: um de dois meses pela América do Sul e outro de quatro meses pelo nordeste brasileiro. Ao se preparar para viagens como estas, ela ressalta a importância de estudar bastante os mapas, as possíveis rotas e pegar dicas em grupos de caronas com quem já fez o mesmo trajeto. Na hora de pegar a estrada, “coloco comida, água e protetor solar na mochila, um sorriso no rosto e positividade”, conta Nathaly, que também reconhece a dificuldade de ser mulher e viajar sozinha de carona: “com medo de assédio, a gente tem que ficar sempre atenta a qualquer sinal ou atitude estranha”, pondera.

Ser mulher em um mochilão

Taís conta que em Amsterdã ela gostava de observar a cidade e andar pelas ruas sozinha. Foto: Arquivo Pessoal

Taís Arruda, estudante de jornalismo, conta que deixou de fazer muitas coisas interessantes em seu mochilão por conta de ser mulher, mesmo com a Europa sendo considerada segura em relação a outros lugares.

Apesar disso, ela foi. Aproveitou que estava fazendo um intercâmbio na Espanha e decidiu viajar pelo continente. Escolhia lugares que queria muito conhecer e cruzava com a quantidade de dinheiro que possuía. O transporte mais usado acabou sendo o ônibus. Ela acredita bastante na sensação libertadora que fazer um mochilão sozinho proporciona. “Se fosse viajar com alguém, teria que ser com alguém que tivesse as mesmas ‘piras’ que eu”, diz Taís. “É uma liberdade quase embriagante”, completa. Para se planejar, Arruda fala que é preciso fazer tudo funcionar. Ela se preocupou muito em relação a cuidados pessoais, mas, para ela, é algo que toda mulher precisa se adaptar.

Ela já está com outra viagem marcada para a América do Sul e está se preparando para encontrar uma realidade totalmente diferente. “Você não precisa ser rico. Estabelece uma meta. R$200,00 por mês, por exemplo, e junta na poupança” diz Taís. Para ela, é necessário existir compromisso, determinação e tentar viver gastando pouco. Um exercício de deixar de acumular bens materiais e acumular experiências, o que para ela, é muito saudável.

Casaco, botas, luvas e meias

Aléxia em Praga, República Tcheca, durante o natal. Foto: Arquivo Pessoal

Aléxia Saraiva, estudante de jornalismo, também aproveitou o intercâmbio na França para realizar um mochilão. Ela viajou durante o inverno no final do último ano com alguns amigos e afirma que o planejamento foi bem antecipado. “Começamos a pesquisar preços de passagens para o leste europeu com trajetos mais em conta. No final do intercâmbio, a gente tava meio sem dinheiro, mas o leste é mais barato do que algumas capitais”, conta. Com um mês de antecedência, ela comprou tudo que era necessário para a viagem e contou com a ajuda de uma amiga, que deu à ela vários utensílios para usar durante o inverno. “Você acaba usando um casaco térmico, uma meia, uma bota e luva e não se importa tanto com o visual”, fala Aléxia.

Ela curte viajar em grupo, mas acredita que isso depende do seu objetivo. “Ir a Amsterdã com as amigas foi legal, mas ir em um santuário era algo importante para mim, e meus amigos não teriam a mesma sensação”, diz.  A adaptação foi fácil e o frio foi o maior empecilho. “É um exercício muito grande de desprendimento, colocar tudo numa mala que caiba nos padrões das empresas aéreas mais baratas”, completa. Aléxia ainda finaliza falando que antes de viajar é importante fazer um trajeto que viabilize sua locomoção da forma mais barata, colocar na mala apenas aquilo que você precisa e estar aberto a novas experiências.

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