Muitas vidas em uma só

O sambista, policial e professor Eyrimar Bortot (Foto: Maria Miqueletto)
O sambista, policial e professor Eyrimar Bortot
(Foto: Maria Miqueletto)

Não foi carteiro, ditador ou soldado, como no poema de Drummond. De resto, Eyrimar Fabiano Bortot, 40, fez quase tudo na vida.  Já foi serígrafo, estoquista, office-boy, assessor parlamentar e hoje divide seu tempo entre a polícia civil, as salas de aula e as avenidas de Curitiba. Policial há 15 anos, Eyrimar também atua como professor de sociologia no Colégio Estadual Hildebrando de Araújo e no verão comanda o bloco Derrepent, que agita o Carnaval de Curitiba trazendo um cunho social em suas letras. Neste ano, retrata os 30 anos do fim da Ditadura, em versos como “com seus tanques baixou a repressão. Pau d’arara. Cadeira do dragão. Amigos desaparecidos pra todo lado, foi assim nosso passado”.

Letra do samba do bloco Derrepent  (Foto: Reprodução)
Letra do samba do bloco Derrepent
(Foto: Reprodução)

Com tantas vidas em uma só, pontualidade é algo difícil a ser respeitado. Eyrimar chegou à entrevista cinco horas atrasado. Dono de características distintas entre si e que comumente atribuiríamos a pessoas diferentes, Bortot optou pelo inusitado: tentar fazer tudo.

Tentou biologia, enfermagem e geografia, mas foi nas ciências sociais que se encontrou. “Queria tentar uma carreira nova, que refletisse a ansiedade das mudanças que estavam ocorrendo no país”. A experiência como militante incentivou-o a ir em frente. “Sempre estive envolvido com militância e ela me levou a buscar nas ciências sociais, mais precisamente na sociologia, um futuro acadêmico e depois profissional.”

O envolvimento com as melhorias do bairro marcou seu começo na militância. Na década de 90 fundou o grêmio estudantil do Colégio Hildebrando de Araújo, onde estudou e depois voltou como professor. “Foi com isso que tomei consciência das mudanças e da voz do trabalhador, assumi a ideologia da melhoria permanente das condições sociais”.

Filho de mãe solteira, aos sete anos Eyrimar caiu no samba e ali permanece. “Meu padrasto era do bairro Capanema, onde nasceu a primeira escola de samba de Curitiba, a Colorado. Cheguei ao bairro com sete anos, escutei a vibração do surdo e gosto até hoje”. Foi diretor da Colorado de 1994 a 2000.

Com o fim da Colorado, Eyrimar e a comunidade resolveram montar um bloco carnavalesco. Nasce então o Derrepent. Defensor do bloco que ajudou a criar, afirma que o Derrepent tem uma atitude ecológica e define os participantes como “recicladores do carnaval”. As fantasias descartadas por outras escolas de samba são reutilizadas por eles.

Bloco Derrepent desfilando no Carnaval de Curitiba  (Foto: Luiz Cequinel)
Bloco Derrpent desfilando no Carnaval de Curitiba
(Foto: Luiz Cequinel)

O bloco é aberto à participação da comunidade até na hora de escrever seu samba. “Qualquer pessoa que chegue com uma ideia e a faça tocar o coração da diretoria, a gente coloca na avenida”. O carnaval deste ano ainda nem começou, mas o do próximo ano já está sendo planejado. “De repente no ano que vem nós tenhamos a questão da mulher como tema do nosso bloco”.

Eyrimar esteve envolvido em um incidente controverso na época em que participava de um sindicato dentro da Polícia Civil. Em 2009 foi acusado pelo furto de um caminhão. Teria se identificado como oficial de Justiça e, com um falso mandato de busca e apreensão, confiscado o caminhão da vítima. Teria também se identificado como outro investigador. “Meu nome ficou jogado ao vento, mas hoje já está provado, pela 4ª Câmara Criminal, a minha inocência”. Eyrimar foi inocentado e diz que tudo não passou de uma trama para desfazer o grupo sindical do qual faz parte, que estava investigando e denunciando diversos crimes dentro da Polícia. “Nós atrapalhávamos, então eles começaram a criar situações que nunca aconteceram”, diz ele, e reforça que, mesmo com o perigo, continua lutando. “Fizemos uma luta contra um grupo que não queria mudanças, mas estamos até hoje tentando fazê-las”.

Com tanta experiência em tantas áreas, o que Eyrimar anseia para o futuro? “O que eu quero para o meu futuro é morrer feliz e chegar nessa boa morte é ter uma boa vida a cada instante”. Coisas materiais são secundárias para o professor, policial e carnavalesco, o que importa mesmo é sentir o prazer de estar vivo.