Música que emerge como um basta à cultura do estupro

A “cultura do estupro” diz respeito a um ambiente onde a violência sexual contra as mulheres é normalizada na mídia e na cultura popular. Contra o uso de mecanismos, valores e práticas sociais que objetificam o corpo da mulher e acabam por normalizar, banalizar e até alimentar a violência, seja ela verbal, física ou institucional, é que lutam as integrantes da Banda Mulamba, recém formado grupo curitibano que em 2016 viralizou nas redes sociais com seu single “P.U.T.A”.

A temática feminista surgiu naturalmente, talvez motivada pela composição da banda. seis mulheres – Amanda Pacífico (Voz), Cacau de Sá (Voz), Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Baixo), Nat Fragoso (Guitarra) – fazem ecoar as vozes de milhares de mulheres e seus conflitos cotidianos. No início, a intenção era juntarem-se para homenagear Cássia Eller. A  junção deu tão certo que novas propostas de trabalho foram surgindo e a vontade de compor sobre temáticas que envolviam a mulher se concretizou. A vocalista, Amanda Pacífico, afirma, “a nossa música tem sim a função de levantar a bandeira e ajudar as mulheres a falarem o que sentem”.

 

O primeiro single

Em uma sociedade em que a cultura do estupro está introjetada, a negação é mais fácil que a discussão, o que torna difícil a percepção e a sensibilidade em prol de uma mudança social. A música é uma forma de discutir sem impor. Por isso é mais facilmente aceita, do que uma discussão na mesa do jantar, com o pessoal do trabalho, ou entre o grupo de amigos, acerca de um assunto polêmico. P.U.T.A., título da última música da Mulamba, lançada há pouco mais de um mês, conseguiu atingir um público maior do que a banda esperava, justamente por se tratar de um assunto frágil a ser discutido: A violência contra a mulher, e o efeito que ela tem contra a liberdade de expressão feminina. O vídeo já beira a 400 mil visualizações e mais de 9 mil compartilhamentos no facebook, além milhares de comentários. O que chama a atenção é que a maioria dos comentários envolvem marcação de outras pessoas, quase sempre outras mulheres, deixando claro a identificação com a letra.

P.U.TA. traz a urgência do grito compreensível aos ouvidos de que pelo menos 86% das mulheres brasileiras já sofreram assédio, segundo pesquisa da ActionAid (Organização internacional de combate à pobreza). Neste contexto, a música conseguiu trazer argumentos que levam a uma reflexão crítica da vida social, onde a violência contra a mulher é sentida por uma maioria, mas pouco reconhecida publicamente.

O Jornal Comunicação conversou com as meninas do Mulamba para entender melhor sobre o processo de construção da banda e das músicas que tem inspirado diversas mulheres nos últimos meses. Confira!

 

Estatística alarmante

Segundo o anuário de Segurança Pública no Brasil (2015), acontece um estupro a cada onze minutos no Brasil. O órgão reconhece que apenas 10% dos casos são denunciados, desta forma, estima-se que mais meio milhão de pessoas são estupradas por ano no país. Outra pesquisa apresentada pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Aplicadas), como base nos dados do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) indica que: 70% das vítimas de estupros no Brasil são crianças e adolescentes. E ainda: 70% dos estupros são cometidos por parentes ou pessoas conhecidas da vítima.

Na mesma pesquisa do SIPS, sobre a percepção da opinião pública acerca dos casos que envolvam a violência contra a mulher, 58% dos entrevistados, acreditam que, se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. A pesquisa ainda apontou que 78% dos brasileiros acham que o que acontece entre um casal em casa não interessa aos outros. E 63% pensam que casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família. Além disso, segundo a pesquisa, 59% dos brasileiros concordam que existe “mulher para casar” e “mulher para a cama”.

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