Na categoria de Álbum do Ano do Grammy 2018, apenas um nome decepcionou

Competir com Jay-Z, Kendrick Lamar e Lorde não é fácil, mas a verdade é que Bruno Mars já fez álbuns melhores que 24K Magic

Por Mariana Toy

Nesta terça-feira (28), foram anunciados os indicados para o Grammy 2018, a premiação musical mais prestigiada dos Estados Unidos e, possivelmente, do mundo. A 60ª edição do evento acontece em Nova York no dia 28 de janeiro de 2018. Entre as 84 categorias, Jay-Z sai na frente com oito indicações, seguido de Kendrick Lamar, com sete. Sem causar surpresa, Katy Perry permanece fora da concorrência.

Foto: Divulgação

As principais categorias da premiação são as de Álbum do Ano, Música do Ano e Artista Revelação. Este ano, existe uma maior representatividade de negros e mulheres. Entre os indicados para Álbum do Ano, apesar de Lorde ser a única mulher, os quatro homens com quem concorre são negros. É importante notar que, pela primeira vez em 18 anos, nenhum homem branco foi indicado à categoria.

Depois de inúmeras críticas e acusações de discriminação ao Grammy de 2016, por ter concedido o prêmio de Álbum do Ano para 1989, de Taylor Swift, em vez de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, que trazia músicas sobre temas relevantes, como racismo e alcoolismo; e ao Grammy de 2017 por ter premiado Adele em vez de Beyoncé, os membros votantes da Recording Academy do Grammy se preocuparam com a diversidade nas indicações da edição de 2018. Isto levou a algumas mudanças na forma como a premiação é preparada e realizada. Uma das alterações mais relevantes para que haja maior representatividade foi a alteração do meio utilizado para a votação dos indicados. Antes, ela era realizada apenas presencialmente na sede da Academia, no estado da Califórnia, Estados Unidos – e com cédulas de papel. Agora é possível votar online, o que permite que mais integrantes da Recording Academy possam votar, mesmo ocupados com produções e shows longe da sede.

Na categoria de Álbum do Ano, Kendrick Lamar é conhecido por criar grandes conceitos em seus álbuns, como fez em To Pimp a Butterfly, cujas faixas formam uma história com começo, meio e fim. Em seu segundo álbum indicado para o Grammy, DAMN., o cantor expõe suas opiniões e pensamentos a respeito de assuntos como preconceito, violência e a luta contra esses desafios, como fez em DNA., ao exaltar os negros: “lealdade e realeza no meu DNA”. Os álbuns “Awaken, My Love!” e 24K Magic, de Childish Gambino e Bruno Mars, respectivamente, deixam de lado as antigas influências para investir no funk e, no caso de Bruno Mars, no soul também.

Lorde, que já possuía certo reconhecimento pelo sucesso de seu primeiro álbum Pure Heroine, deixou os fãs na expectativa para saber se o novo disco Melodrama seria capaz de superar o primeiro (e conseguiu!). Neste segundo álbum, a cantora neozelandesa deixa a impressão de que todas as músicas foram muito bem pensadas. Elas não deixam a desejar nem exageram em seus arranjos musicais e na letras intensas.

Para completar as indicações de Álbum do Ano, Jay-Z desconstrói a barreira de egocêntrico e intocável construída ao longo de sua carreira. No álbum 4:44, o norte-americano foi simples e direto: em 36 minutos de duração, o que é pouco comparado aos seus demais álbuns, Jay-Z fez desabafos e confissões, entre elas sua traição à Beyoncé, a briga com sua cunhada Solange e a orientação sexual de sua mãe.

Entre os cinco indicados, Jay-Z, Kendrick Lamar e Lorde são os favoritos. Childish Gambino – nome de palco do também ator Donald Glover – deixou a desejar no quesito originalidade se comparado a outros artistas. Mesmo assim, é preciso notar que, para sua carreira, o cantor inovou e chegou ao seu ápice com o álbum indicado. Bruno Mars possui grandes sucessos em 24K Magic, como That’s What I Like, que atingiu o topo da parada da Billboard, mas a obra como um todo parece ser feita de várias versões de Uptown Funk, música lançada em 2014 pelo produtor Mark Ronson, com quem fez uma parceria. Algumas faixas com um ritmo mais lento, outras mais rápido, mas sempre lembrando o sucesso de três anos atrás. Dez minutos ouvindo o novo álbum já são suficientes para sentir falta dos hits de Unorthodox Jukebox, como as músicas When I Was Your Man e Locked Out Of Heaven. Bruno Mars fez valer suas outras indicações, mas, para Álbum do Ano, seu lugar poderia ter sido melhor aproveitado.

Como já é de praxe quando Jay-Z é indicado a premiações, o público criticou o rapper nas redes sociais. A afirmação é de que ele não merecia estar concorrendo e que só está entre os cinco indicados por questão de poder aquisitivo e de influência no meio musical. De fato, Jay-Z é extremamente poderoso na indústria musical, mas o 4:44 mereceu a indicação. O álbum marca uma mudança na imagem do rapper depois de quatro anos de seu último álbum Magna Carta Holy Grail. Ao mesmo tempo em que as faixas mantêm a qualidade esperada de Jay-Z, desta vez o foco das músicas gira em torno das letras, as quais mostram um lado mais humano do músico. Com sua popularidade já estabelecida, este diferencial garantiu a indicação para Álbum do Ano.

Seguindo essa mesma proposta intimista, Kendrick Lamar apresenta em DAMN. assuntos pessoais como a depressão e questões mais polêmicas, como a proliferação de armas nos Estados Unidos, na faixa XXX.. Lamar possui um álbum de qualidade com uma imagem positiva na crítica, o que garante suas chances. Além disso, o fato de as votações terem sido mais inclusivas com a mudança para a internet pode aumentar suas chances e compensar a perda de 2016.

Com o melhor sempre para o final, Lorde assumiu a posição de “queridinha da crítica” com o álbum Melodrama. A cantora foi capaz de lançar um álbum em que todas as músicas poderiam ser singles (comercialmente viáveis para serem lançadas individualmente), sem se tornarem repetitivas ou enjoativas. O álbum é um conjunto de músicas para balada, para ouvir em casa nos dias de chuva e para colocar no último volume em uma viagem de carro, cada uma com seu espaço. Com algumas batidas graves, arranjos sintetizados e até sussurros, Lorde foi indicada com um disco que mostra sua essência e maturidade musical.

Outros que merecem destaque nas indicações do Grammy 2018 são o cantor Khalid, na categoria Artista Revelação; Kesha, nas categorias Melhor Álbum Pop Vocal e Melhor Performance Pop Solo; e a música 1-800-273-8255, na categoria Música do Ano. Khalid lançou seu primeiro CD, American Teen, no início do ano, atingiu o Top 100 da Billboard e teve seu primeiro single platinado. As chances são grandes, mas a competição também, já que divide a categoria com a cantora canadense Alessia Cara. Os dois, junto com o rapper Logic, foram indicados na categoria Música do Ano, com 1-800-273-8255. Um detalhe importante é que o número que dá nome à música é o telefone da Central Nacional de Prevenção ao Suicídio dos Estados Unidos (no Brasil, o número do Centro de Valorização da Vida é o 141), assunto tratado também na letra do single.

Por fim, Kesha entrou para as indicações do Grammy pela primeira vez. Coincidentemente (ou não), este é o primeiro álbum que não teve qualquer participação de Dr. Luke, produtor acusado de abusar sexual, física, verbal e psicologicamente da cantora. O álbum foi produzido pela produtora de Dr. Luke e ele ainda teve que aprovar as faixas, mas não teve envolvimento na produção. Apesar de ser um álbum com média de 81 pontos pelo portal Metacritic, mais do que “Awaken, My Love!”, de Childish Gambino, e 24K Magic, de Bruno Mars, Rainbow não conseguiu a indicação para Álbum do Ano. De qualquer forma, o disco é uma verdadeira lição de como é possível dar a volta por cima e o melhor trabalho da cantora até agora.

Em uma indústria repleta de discriminação, a premiação do Grammy tem histórico de racismo. Na categoria de Álbum do Ano, em 2013, a banda Mumford and Sons venceu o cantor Frank Ocean; em 2015, Beck Hansen desbancou Beyoncé; em 2016, Taylor Swift levou o prêmio em vez de Kendrick Lamar; e em 2017 foi a vez de Adele ganhar de Beyoncé. O problema é que, em todas essas situações, os cantores que perderam tinham avaliações melhores na crítica e temas de maior relevância em suas músicas, mas eram negros. O Grammy 2018 pode ser o início das mudanças neste cenário de preconceito nas premiações musicais. O que resta é aguardar o dia 28 de janeiro para saber se isso realmente vai acontecer.

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