No coração da estrada

O mochilão pelos relatos de Celso, Guilherme e Hermano

por Gabriel Herdina

Chovia muito enquanto estava acampado no Parque Nacional Torres del Paine, na fronteira do Chile com a Argentina. O vento era forte e fazia com que a barraca levantasse. Sensação de conforto não existia. Ao falar dessas condições adversas, Celso Alves contraria o senso comum e esbraveja: “É uma coisa sensacional!”

Meses depois de voltar do mochilão que o fez atravessar Argentina e Uruguai, Celso guarda com carinho os dias em que passou em meio ao desconhecido, cansado e dolorido, às vezes precisando de vinho e whisky para dormir melhor.

Não deu início à aventura sozinho. O ponta-grossense de 28 anos partiu de Curitiba, onde tinha se formado em Publicidade e Propaganda, ao lado do amigo Egon Toegel no dia 6 de novembro de 2014. Os dois pegaram um avião para Porto Alegre e, após passarem por Pelotas e Chuí, deram início ao verdadeiro mochilão em Punta del Diablo, no Uruguai.

Para se manter na estrada, Celso levou uma quantia de mais ou menos 6 mil reais. Gastou a maior parte em passagens de ônibus, principal meio de transporte usado durante a viagem. Carona era difícil de conseguir. “Chegamos a percorrer mais ou menos mil quilômetros de carona na Argentina, mas no Uruguai a coisa era mais difícil”, conta. “Os caminhoneiros não costumam aceitar quando tem mais de uma pessoa”.

Para dormir, a melhor saída era o hostel. Celso e Egon sempre dividiam, quando possível, algum quarto com várias outras pessoas, de nacionalidades e culturas diferentes. Era mais barato. Na estrada, armavam as barracas que carregavam nas costas todos os dias. Chegaram a dormir em lanchonetes e rodoviárias em momentos difíceis.

Depois de conhecer pessoas de todos os tipos e passar por lugares fantásticos, Celso afirma, porém, que os momentos mais significativos da viagem são internos. “Queria cortar minha relação com a classe média e me compreender. Precisava descobrir o que eu era de verdade.” Acabou encontrando uma parte escondida dentro de si. “Foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos”, garante o mestrando em Escrita, guiado desde cedo pela vontade de viajar.

Torres del Paine: 5 dias de caminhada e muito cansaço (Foto: Egon Toegel)

Os amigos cogitaram algumas loucuras e acabaram desistindo. Ir para Antártida no meio da viagem é um exemplo. “Na hora parece que você pode ir para qualquer lugar”, diz Celso. Ao chegarem em Ushuaia, na Terra do Fogo, os dois se separaram por questões econômicas. Celso considerou que não tinha dinheiro suficiente e voltou. Quis trabalhar e passar um tempo em Puerto Madryn, na Argentina, e desistiu. Então resolveu se perder nas montanhas de El Bolsón por 3 dias.

Depois da aventura solitária e cansativa, na qual passou mal e precisou de ajuda, Celso chegou em Bariloche para comprar sua passagem para Buenos Aires. A jornada estava chegando ao fim. A sensação foi das piores quando avistou um grupo de mochileiros se preparando para a estrada. “Naquele momento eu me odiei”, conta. “Hoje, tenho muita vontade de voltar.”

Chegou em Ponta Grossa no dia 18 de janeiro de 2015, a tempo do aniversário da mãe. Sente saudades de quando estava acostumado a comer macarrão à bolonhesa, sanduíches, castanhas e frutas secas na maior parte do tempo.

Quando decidiu sair do Brasil, movido pela vontade de mudar a rotina após a viagem da namorada para os Estados Unidos, Celso era outra pessoa. Após experiências tão grandiosas, com pessoas e situações diferentes, até achou sem graça o banheiro limpo e arrumado de casa quando voltou.

Celso criou uma página no Facebook, a “Mochilante”, junto com Egon. Compartilham relatos e fotos da viagem que fizeram. Um bom jeito de guardar as lembranças. Com o objetivo de escrever um diário de viagens para o Doutorado, Celso pretende conhecer o resto da América do Sul no futuro. “A estrada nos acomoda”, afirma.

Problemas físicos não impediram os dois amigos de conhecer lugares incríveis nos Andes (Foto: Egon Toegel)

Inspiração

A inspiração para a viagem de Celso e Egon tem nome e sobrenome: Guilherme Gomes Glir, de 27 anos, que os ajudou com incentivos e dicas. O redator publicitário foi veterano de ambos na faculdade e fez a primeira de suas quatro grandes viagens em 2010, ao lado do irmão gêmeo, Leonardo.

A vontade inicial era conhecer Ushuaia, última cidade do mundo antes da Antártida. Com 20 anos, ele e o irmão saíram de Porto Alegre e começaram o mochilão. “Mesmo com pouco dinheiro, a gente resolveu ir. Do nada. Trancamos as faculdades, nos demitimos e saímos”, conta Guilherme. A ideia era seguir viagem pedindo carona e dormindo em barraca. Se necessário, trabalhando em troca de comida e estadia. Assim foi, até o final.

Passaram pelo Uruguai e atravessaram a Argentina de cabo a rabo. Ao chegar em Ushuaia, Guilherme diz que caiu a ficha do que estavam fazendo. “Foi a primeira vez que nos demos conta de como estávamos longe de casa. São 6 mil quilômetros de Curitiba. Incrível”.

Na cidade de Rio Gallegos, sul da Argentina, foram acolhidos por um senhor de 70 anos e sua esposa. Ganharam hospedagem, cervejas e café da manhã por um dia. História que Guilherme gosta de contar. Nunca esquece as palavras que ouviu: “Há 50 anos, coloquei uma mochila nas costas e conheci a América do Sul inteira. Mochileiro ajuda mochileiro”.

Os irmãos voltaram da Terra do Fogo pelo interior do Chile. Para economizar, conseguiram hospedagem na casa da tia de um amigo, em Santiago. Dali seguiram até Arica, cidade no extremo norte chileno. Antes de retornar ao Brasil, conheceram ainda Bolívia e Paraguai. “Foi incrível!”, atesta Guilherme, contando que voltou da viagem 17 quilos mais magro e barbudo. “Voltamos com a cabeça do tamanho de um país. Respirando culturas, conhecendo pessoas e com uma vontade incrível de continuar viajando”, completa.

Calama, no Chile. Os Irmãos atravessaram todo o país por meio de ônibus e carona (Foto: Guilherme Glir)

Guilherme e Leonardo passaram por situações adversas. Às vezes deixavam alguma refeição de lado para não gastar com comida e chegaram a esperar 10 horas por carona. Para Guilherme, eles precisavam daquele aprendizado. Era a ideia da viagem. “Tem que saber que é passageiro e enfrentar tudo com coragem e cabeça erguida”, assegura. “Não dá pra deixar as necessidades e os momentos ruins minarem a viagem”.

Os motivos que levam Guilherme para a estrada são diversos. Para o redator, é preciso conhecer novas culturas e as particularidades do modo de vida de cada povo. “Temos que abrir a cabeça e ver que o mundo é imenso”. Ele acredita que cada um precisa encontrar o motivo pelo qual precisa viajar.

“No fundo, isso tem muito mais a ver com viajar para você mesmo do que para os outros”. E conclui: “Viajo porque amo, porque me inspira, porque carrega minhas baterias, porque acho que é o melhor dinheiro gasto do mundo”.

Três anos mais tarde, Guilherme resolveu encarar uma viagem sozinho. Partiu para o Peru, país que não conseguiu conhecer em 2010. O irmão ficou no Brasil, empenhado no TCC. Guilherme passou pelas mais variadas vilas e cidades durante 26 dias, parando sempre onde achava algo interessante.

“Foi uma viagem sensacional, mas teria sido legal fazer em mais pessoas. É bom ter alguém pra dividir os perrengues, as cervejas, as histórias, as risadas”, afirma. O curitibano conta que se sentiu um pouco como Christopher McCandless, viajante que teve sua jornada narrada por Jon Krakauer em Na Natureza Selvagem, e lembrou sua frase mais famosa: “A felicidade só é real quando compartilhada”.

“Por mais dinâmico, agilizado e reflexivo que seja viajar sozinho, é legal ter alguém pra dividir os perrengues, as cervejas, as histórias e as risadas.” (Reprodução: Facebook)

A viagem seguinte, portanto, foi acompanhado. A parceira foi a namorada da época e atual esposa, Renata Strapasson. O itinerário da vez foi a Rota 66, nos Estados Unidos. Planejou toda a viagem de antemão, como Renata gostava de fazer. “Embarquei na dela e planejamos durante 6 meses. Planejar é viajar antes”, aponta Guilherme.

Quando chegaram nos Estados Unidos, conheciam a rota de cor. Devido ao planejamento, conheceram lugares que ficavam longe da estrada principal, como o Yosemite National Park e o Grand Canyon. Tudo a bordo de um Sedan alugado. Hoje, não veem a hora de voltar.

Na metade do ano passado, o destino foi a Tailândia – também acompanhado. Guilherme quer fazer pelo menos uma grande viagem por ano, seja nacional ou internacional. Prefere não dar muitos detalhes antes de colocar o pé na estrada. “Deixo baixo para não subir a expectativa de ninguém”, brinca.

Viagem interior

O propósito de largar a comodidade não difere muito entre os representantes da estirpe dos mochileiros. Assim como aventureiros e escritores que, absortos na procura pelo verdadeiro espírito humano, abandonaram seus lares rumo ao desconhecido, Celso e Guilherme buscam o encontro com seu próprio eu – aquele desprovido de tudo que seja efêmero na sociedade.

Como detalhado minuciosamente por Thoreau em Walden, era preciso encontrar um caminho que eliminasse da vida tudo aquilo que não era vida. Conceitos que conversam também com as obras de Hermann Hesse, que dedicou as brilhantes linhas que escreveu à procura e à exploração da alma humana. A lição de O Lobo da Estepe, por exemplo, é simples: busque novas experiências, perceba a infinidade do espírito e contemple a maravilha da nossa existência.

Tais são os ensinamentos do mochilão. Aquilo que se pode ver acaba assumindo um aspecto secundário, eclipsado pela extrema mudança no interior de cada um. Os afetos e a consciência adquirida durante a viagem são suficientes para recompensar quaisquer andanças debaixo de sol a pino, com os pés já calejados e distantes de casa.

Ao contrário do caminho adotado por Celso e Guilherme, há ainda quem decida se aventurar de forma mais radical. É o caso de Hermano Tollendal, o inquieto de 25 anos.

“Eu queria conhecer o mundo sem fronteiras”

Hermano traz a vontade de viajar no sangue. A mãe andou por muitos países quando jovem e o incentivou bastante, sabendo das experiências que a estrada proporciona. Hermano mochilou na Europa, sempre sozinho. Mineiro de São Lourenço, passou por experiências mais radicais durante sua trajetória pelos países do velho mundo.

Comprou passagem para Dublin, na Irlanda, e partiu do Brasil em 2013. O objetivo era estudar e conhecer a cultura irlandesa. Depois de quase um ano fora, resolveu sair para viajar com uma mochila nas costas e muito pouco dinheiro.

A carona foi o principal meio de locomoção. “Eu sempre carregava um cartaz com o destino e uma frase na língua local. Isso chama a atenção dos motoristas”, conta Hermano. Ele diz que o sentimento mais prazeroso da viagem veio por meio da carona: “Viajei com todos os tipos e gêneros de pessoas. Foi muito engrandecedor”.

A simpatia era fundamental na hora de pedir carona.

O estudante de Educação Física visitou Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Áustria, Itália e Turquia. A forma mais fácil que encontrou para passar a noite foi o CouchSurfing, site utilizado por milhares de usuários que concedem hospedagem gratuita uns aos outros. Outra saída era trabalhar em troca de estadia, coisa que fez muitas vezes. “Pegava o que as pessoas de lá não querem fazer. Trabalhei em hostel e me oferecia para limpar as coisas”, afirma.

Hermano passou por mais dificuldades se comparado com Celso e Guilherme. Dormiu diversas vezes no chão, embaixo de escada, em estações de trem e aeroportos. Quando estava na Áustria, perdeu a carteira. Conseguiu pegar uma carona na estrada, foi deixado na cidade de Salzburg e ganhou 20 dólares. Conta que o rapaz que lhe deu carona sentiu que ele precisava de ajuda. Hermano é otimista ao explicar o que aconteceu: “Acredito que o universo conspira quando precisamos”.

No curto espaço de tempo em que passou mochilando, Hermano conheceu muito. Em cidades grandes, costumava passar três dias. “Queria conhecer a cultura do povo de perto”, garante. Em cidades menores, um dia e meio era suficiente. Preparou o trajeto ainda em Dublin, mas as caronas o levaram para outros lugares. Como guia, utilizava um site de hitchhikers europeu. “Além de mapas, lá tem muita troca de experiência entre os viajantes”, conta.

Hermano queria olhar para as minorias e conhecer o lado mais humano das pessoas. Esse foi o grande combustível da viagem, aliado à necessidade de descobrir novos horizontes. “O mundo não pode ser só isso que a gente vê”, destaca.

Mesmo com as adversidades, pensamento positivo nunca faltou durante a viagem.

O mineiro tem um política de vida contestatória. Não se acostumou a viver na sociedade em que nasceu. Para ele, a viagem é uma válvula de escape, uma mudança de rotina necessária. “Não é possível que temos que viver trabalhando para os outros”, atesta. Hermano decidiu que vai correr atrás de novas experiências, conhecendo outros lugares e vivendo a cultura do povo. Sempre de forma humilde: “Não dá pra viver só em busca de dinheiro”.

Em dezembro de 2015, Hermano retornou ao Brasil e se estabeleceu em Curitiba. Trabalha no Café e Hostel Expresso Curitiba, na Centro da cidade. Ainda tem sonhos a serem conquistados. Quer conhecer a Nova Zelândia acima de tudo. “Sei que tem algo especial por lá”, afirma. O estudante tem planos para fazer um tour pelo interior da Irlanda e também quer viajar de bicicleta por toda a América Latina, até chegar no destino final: o Alasca.

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