Nova MP gera debate entre alunos e professores sobre o futuro da Filosofia

No fim de setembro, o governo divulgou a nova Medida Provisória (MP) para a reforma do ensino médio. A MP tornaria a disciplina de Filosofia optativa e a decisão de ensiná-la ou não ficaria a cargo das escolas. Antes, as disciplinas de filosofia e sociologia eram consideradas obrigatórias nos três anos do ensino médio. O inciso incluído pela Lei nº 11684, de 2008, “IV – serão incluídas a Filosofia e a Sociologia como disciplinas obrigatórias em todas as séries do ensino médio” foi derrubado pela nova MP.

A medida repercutiu fortemente nas redes sociais e no meio acadêmico. Entre os dias 26 e 30 de setembro, ocorreu na Universidade Federal do Paraná (UFPR) o IX Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia, e o ensino da disciplina no ensino médio entrou em debate logo no primeiro dia. Alunos e professores se reuniram para refletir sobre o futuro da educação.

O professor Dr. Celso de Moraes Pinheiro, do Departamento de Teoria e Prática de ensino da UFPR, afirma que a falta de discussão torna a MP um problema, mas reforça a importância do debate. “Ela coloca a necessidade de que, nesses 120 dias de debate, nós profissionais e a população em geral tomemos ciência do que está sendo feito”, declara Pinheiro. Ele vê lados negativos na MP, mas não acha que a proposta seja inteiramente negativa: “É importante que a gente pense e reflita sobre a educação que nós temos no Brasil hoje”, argumenta.

O professor diretor auxiliar do Colégio Estadual do Paraná (CEP), Leonardo Pelegrino Camargo, concorda que existem problemas na formulação da MP. “Ela é muito aberta. Eu confesso que alguns pontos tive dificuldade de entender, sendo da área da educação, então imagine o cidadão comum. Deveria ser discutida, analisada melhor e redigida melhor também.”, pondera Camargo.

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MP garante apenas duas matérias para o Ensino Médio (Foto: Caroline Momma)

O professor também ressaltou a importância do ensino da disciplina no ensino médio, que é construir com o aluno o conhecimento filosófico, contribuindo para que ele reflita sobre o próprio mundo no qual ele vive. “Definir Filosofia como o estado de pensar é errado. Pensa-se todas as disciplinas, vai se refletir em todas as disciplinas”,afirma Camargo.

Em sintonia com o colega de profissão, o professor Pinheiro acrescenta: “É importante você tentar provocar a discussão, a partir da filosofia. Uma discussão da realidade do aluno e uma realidade que o coloque frente ao diferente, ao distinto e que ele saiba que fundamental para a vivência na democracia é que ele saiba respeitar e compreender esse outro”, declara o professor Pinheiro.

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Os professores Leonardo Camargo (CEP) e Celso Pinheiro (UFPR) palestraram na primeira noite do IX Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia sobre “A filosofia como disciplina do ensino médio” e “A filosofia do ensino de filosofia” respectivamente. (Foto: Caroline Momma)

Estudantes de filosofia veem nova MP, com preocupação

Dois pontos da Medida Provisória apresentada pelo governo Temer preocupam os alunos do curso de Filosofia, principalmente os de licenciatura. Um dos pontos mais polêmicos da MP deixa margem para interpretação de que os professores não necessitarão ser formados na área de atuação. Embora isso não esteja claro, a discussão já existe para os alunos. Além disso, a mudança que torna a disciplina optativa para o ensino médio altera o mercado de trabalho para os graduandos.

Jacqueline Barbosa, estudante universitária do 2º período de Filosofia da UFPR, afirma que os alunos estão preocupados com o futuro de professores e a diminuição de um mercado que já não é muito amplo. Apesar de considerar as intenções da nova MP duvidosas e o risco do ensino médio tornar-se apenas um molde para o mercado de trabalho, Jacqueline também avalia outros aspectos, como o índice de alfabetização do país. “Em um mundo ideal, onde os alunos sairiam devidamente alfabetizados do ensino fundamental, a flexibilização da grade escolar apresentaria um ensino compacto e de acordo com os interesses de cada aluno, e, ao contrário da MP e do cenário atual, as ciências humanas teriam o terreno preparado para serem ensinadas devidamente”, afirma a estudante.

Ela também acredita que o ensino de Filosofia seja fundamental para a formação dos alunos e cidadãos, contrariando o caráter opcional proposta pela MP. “A Filosofia é insubstituível na formação do indivíduo crítico e tem um papel social importantíssimo na politização do público jovem. Ao contrário do que se pensa, a academia de Filosofia é sim eclética e essa diversidade de opiniões vai contra a lenda da doutrinação ideológica”, declara Jacqueline.

Jacqueline afirma que a disciplina a auxiliou na expansão do seu modo de pensar e interpretar o mundo ao seu redor. Profissionalmente, a Filosofia está quase sempre relacionada à sala de aula. Apesar dos desafios na educação e dos novos obstáculos com a nova MP, ela continua a acreditar .“Sonhamos com um mundo onde o amor pelo conhecimento (independente da área) atinja o máximo de pessoas possíveis”, observa Jacqueline.

Assim como Jacqueline, muitos alunos possuem críticas e têm se manifestado por todo o país. Parte das críticas são relacionadas ao formato da Medida Provisória, pois precisa ser tramitada em até 120 dias. A primeira sessão para instalar um colegiado poderia ser convocada já nesta semana. No último dia quatro, ocorreu a primeira audiência pública sobre o tema no Congresso Nacional. Foram recebidas mais de 500 emendas feitas por deputados e senadores.

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