Novos Olhares: estreias experimentais, ousadas e inovadoras marcam presença no Olhar de Cinema

A sala de cinema quase lotada, em uma tarde de domingo, dava a impressão de trazer uma produção já conhecida pelo público, mas o filme daquele 1º de junho era o inédito Bloody Beans (Malditos Feijões) de 2013. Dirigido por Narimane Mari, a história é contada sob o ponto de vista de um grupo de crianças e cativa o público conforme os minutos passam – o longa exibe a rudeza da guerra que destruiu a Argélia Francesa através do delicado aspecto infantil.

Um prêmio para seis primeiros longas; a mostra Novos Olhares pretende incentivar diretores a continuarem produzindo e ajuda a torná-los conhecidos
(Foto: Anna Sens)

Tal particularidade é um ramo do III Festival Internacional de Cinema de Curitiba, o Olhar de Cinema, que dentre muitas categorias, conta com a mostra Novos Olhares: uma competição entre os primeiros longas de novos diretores pela conquista de um prêmio. Bloody Beans é, portanto, um dos seis filmes escolhidos a dedo pelos curadores do festival para a mostra. “É fantástico!”, opina a espectadora Joice Alexandre, 21, após o fim da sessão, “com certeza merece ganhar”. Acompanhando o festival inteiro, Joice não é a única a apreciar as produções experimentais do Novos Olhares. “O filme traz uma mensagem nova, eu gostei”, afirma Natália Perin, de 23 anos, após assistir O tempo passa como um leão que ruge, outro longa da competição.

A Mostra acompanha o festival desde sua primeira edição, e o incrementa ao trazer diretores desconhecidos, tanto para o público quanto para a indústria cinematográfica. Gustavo Beck, curador e programador da seção Novos Olhares, revela que a proposta é trazer para os expectadores um cinema experimental: “Novos cineastas com novas propostas, fazendo um cinema fora do lugar comum, correndo mais riscos. Acho que tem essa força de um cinema fresco ainda, sabe? Que não foi contaminado por uma indústria, por uma lógica de mercado, crítica, público… São cineastas se expressando de uma forma mais livre”. O curador diz gostar de todos os filmes, sem indicar um favorito, e os recomenda, afinal, esta é uma oportunidade exclusiva que o público tem para assisti-los. A mostra é importante como porta de entrada para o mercado cinematográfico, assim como para causar uma nova impressão a quem assiste e a quem produz. “Acho que a recepção [do público] tem sido muito boa”, afirma Beck, satisfeito.

Vale pontuar que mesmo o cinema experimental não costuma ser tão abrangente, assim a mostra aparece para quebrar preconceitos e vícios de cinéfilos ou inexperientes. Um dos diretores do Olhar de Cinema, Antônio Junior, acredita que o festival atrai diversas pessoas devido a sua proposta, “os filmes que a gente escolhe acabam atingindo o público. Sabemos que não é um público amplo, um público total, como uma novela. É um público menor, que estava carente desse tipo de cinema, principalmente em Curitiba”.

Espírito competitivo

Os seis filmes do Novos Olhares pretendem instigar o público, mas se trata de uma via de mão dupla. Os horários foram programados para que as pessoas pudessem assistir a competição e acompanhá-la, porém o centro da mostra é revelar diretores talentosos que ainda não tem oportunidade no meio cinematográfico. “O festival como um todo trabalha com um cinema não comum, então se o oposto ao comum é o alternativo, esse seria um nome, porque foge do que a gente vê na sala de cinema comercial”, declara Antônio Junior. Por se adequar a proposta do festival, a mostra é muito apreciada pelo diretor e por quem concorre ao posto de participante: “É uma mostra pequena, apenas seis filmes, é muito bem escolhido, a gente tem uma gama muito grande. Então, sabe-se que ser selecionado é estar num espaço privilegiado. Eles gostam de estar na mostra”, reflete Junior.

Os critérios para a seleção, basicamente, estão dispostos na adequação dos filmes à proposta do festival como um todo. Observa-se também a linguagem, o conteúdo, e o diálogo entre a forma e a proposta do filme. Contexto social, mensagem, ousadia e inovação – daí se forma a mostra competitiva. Existem outras quatro mostras competitivas no festival, e os vencedores foram revelados dia 05de junho, no Teatro Paiol.

“Eu gosto da ideia de ser competitivo. Não é a parte mais importante, mas ao mesmo tempo é, porque traz uma energia ao festival que é muito importante para os cineastas”, opina Beck. Já Junior vê a competição como um incentivo a quem “está trilhando o caminho certo e quer se ver de novo”. O júri é separado da direção do festival e tem seus próprios critérios. Os seis filmes que disputaram o prêmio são, além dos já citados Bloody Beans e O tempo passa como um leão que ruge, Chantier A, From gulf to gulf to gulf, L for Leisure e The Future.

Resultado

O filme From Gulf to gulf to Gulf, dos diretores indianos Shaina Anand e Ashok Sukumaran, foi o vencedor da categoria Novos Olhares. O já citado O tempo passa como um leão que ruge, da Alemanha, recebeu Menção Honrosa pelo trabalho do diretor Philipp Hartmann.

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