O Estranho Que Nós Amamos | Muito mais que um simples drama de época

Em um estudo de personalidades, remake revela personagens fortes e atualizadas em drama ambientado na Guerra Civil estadunidense

Por Arthur H. Schiochet

Dirigido por Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”), “O Estranho Que Nós Amamos” é um remake do filme de mesmo nome lançado em 1971, na época estrelado por Clint Eastwood (“Gran Torino”) no papel de McBurney. A clara diferença de um filme para o outro é a abordagem das personagens femininas no longa, algo muito presente na carreira da diretora. Desta vez Coppola ainda foi premiada com a Palma de Ouro em Cannes por sua direção, apenas a segunda mulher na história do festival a receber a condecoração.

O filme se passa em 1864, três anos após o início da Guerra Civil, onde o cabo da União (que lutava pelos estados do norte) John McBurney, (Colin Farrell, de Animais Fantásticos e Onde Habitam) é ferido em combate e encontrado pela jovem Amy (Oona Laurence, de Meu Amigo Dragão). Ela o leva para o internato de mulheres onde mora, gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman, de De Olhos Bem Fechados). Lá, elas decidem cuidar dos ferimentos para que, após se recuperar, o militar seja entregue às autoridades Confederadas (que lutavam pelos estados do sul). Nesse período, outras moradoras, Edwina (Kirsten Dunst, da trilogia Homem-Aranha) e Alicia (Elle Fanning, deDemônio Neon), demonstram interesse pelo soldado.

O filme é permeado por muitos momentos estranhos, motivados pela inversão de papéis das mulheres, que conhecem pouco do mundo exterior ao internato e, ao invés de serem apenas damas indefesas,  se mostram complexas e até certo ponto cruéis na superfície da interpretação. Mas nada preto e branco, o filme brinca com as camadas de cinza presentes o tempo todo na narrativa.

A retratação de época impressiona, pelo fato do filme ter custado apenas US$ 10 milhões, as locações dão o clima sombrio que a obra precisa, o figurino é impressionante como sempre. A fotografia, escura e dessaturada em muitos momentos, coloca o espectador em um ambiente tenso, mesmo em momentos triviais, como cada garfada em um jantar.

Fonte: Divulgação/FR Productions

Cada personagem tem um momento de importância na trama, evidenciado pelos recursos utilizados pela direção, como a música que ajuda a aumentar a dualidade que cada um carrega. Em um momento um personagem parece ser algo, na cena seguinte ele já revela outro traço de sua personalidade. A camada superior do filme te faz pensar de uma maneira, mas se o espectador se propõe a explorar a experiência a fundo, encontra um subtexto de empoderamento e racionalidade sobre um elemento que põe em risco toda a organização daquele ambiente.

O longa é um grande êxito na carreira de Coppola, cada vez mais madura em sua direção. Ao abordar qual a atitude cristã a se tomar, dialoga muito com outro filme da diretora, “As Virgens Suicidas”, que também coloca em pauta os efeitos do conservadorismo em jovens que se veem confusas com ambientes de forte influência religiosa.

“O Estranho Que Nós Amamos” é um filme que supera o rótulo de apenas remake e traz atuações sólidas, com um roteiro surpreendente e cadenciado, aparando arestas do filme de 1971 e agregando muito à filmografia de Sofia Coppola.

Nota: 8,0

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