O futebol não é para os pobres, mas deveria

Preço dos ingressos ainda impede muitos torcedores de irem ao estádio

Por Vinícius Moschen

Desde a inauguração da Arena do Grêmio, em 2012, o modo de assistir futebol no Brasil tem mudado. Cadeiras tomam o espaço das arquibancadas de concreto a cada novo estádio inaugurado. Consequentemente, o perfil de parte do público muda e os preços das entradas sobem. Com isso, são comuns as partidas do Campeonato Brasileiro com arquibancadas vazias, reflexo de diretorias que não entendem as demandas de suas próprias torcidas. Isso sem citar os Campeonatos Estaduais, competições que com pouco sucesso de público recentemente.

Para a Copa do Mundo de 2014, 12 estádios foram construídos sob o pretexto de transformar o futebol brasileiro num espetáculo esteticamente ainda mais bonito. Isto, no entanto, tem um preço: o Corinthians, por exemplo, tem a maior média de público entre os times da Série A e mesmo assim não pode utilizar um centavo sequer das rendas de bilheteria. Vai tudo para o fundo que administra as contas do estádio. No total, a casa corintiana custa mais de R$ 2 bilhões, uma quantia inimaginável para qualquer torcedor, mas que se reflete a cada jogo: R$ 50,00 é o preço do ingresso mais barato, número que sobe para R$ 80,00 para ver a partida da lateral do campo. E assim vai…

Grandes capacidades, pequena presença

A falta de planejamento é visível entre diversos clubes brasileiros no que se diz respeito à ocupação de estádios e ao preço dos ingressos. Os fatos comprovam: dos 20 clubes da primeira divisão, apenas cinco deles conseguem ter uma média de público superior à metade da capacidade de seus estádios. Metade! Além disso, nenhum passa dos 75% segundo o Globo Esporte.

Ou seja, o Brasil tem estádios gigantes e muito bem construídos, mas não tem o que mais interessa, que é o público. Muito disso se dá por conta dos ingressos de preços exorbitantes, que acabam causando cenas constrangedoras. Foi assim na final da Copa do Brasil de 2014, entre Cruzeiro e Atlético Mineiro. Era a decisão do segundo torneio de maior importância no país, entre times que protagonizam uma das maiores rivalidades nacionais. Com certeza o estádio Mineirão ficou lotado, certo? Errado. A entrada chegou a custar R$ 1 mil. É mais do que um salário mínimo, é o suficiente para comprar um vídeo game de última geração. Essa pisada de bola se refletiu no público baixo para a ocasião, menos de 40 mil pessoas em um palco em que cabem mais de 60 mil. No fundo, foi só mais um exemplo de como os homens de terno estão distantes do povo.

Lugares com a melhor vista para o campo ficaram vazios no Mineirão, na final da Copa do Brasil de 2014. Foto: Rafael Araújo/Sportv

Um modelo de negócio

Em entrevista recente ao jornal El País, o ex-presidente do Atlético Mineiro e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, polemizou ao afirmar que “futebol não é coisa para pobre, e nunca foi”. Comparando com a Inglaterra – onde os estádios estão normalmente com toda a capacidade ocupada – ele comentou sobre os altos preços de ingressos e como isso é levado de forma natural pelos torcedores de lá. A entrada para uma partida envolvendo o Chelsea, atual campeão do campeonato inglês, fica numa faixa de preço entre 100 e 140 libras. O valor gira em torno de 400 a 570 reais, em conversão simples.

Pois bem, é preciso entender que as realidades não são as mesmas. Além das já conhecidas diferenças socioeconômicas entre as parcelas da população nos dois países, um outro fator determinante é o próprio tamanho dos estádios. Por lá, as arquibancadas comportam menos pessoas em média, então a concorrência por um lugar é maior. A lógica é simples e já bem conhecida: maior demanda, maior o preço. Tratando o futebol como negócio, não faz sentido algum deixar setores inteiros sem torcedores sem baixar os preços. Vender um ingresso muito barato, afinal, é melhor do que não vender ingresso algum.

Maneiras de baratear

Algumas ações são bons exemplos de gestão no Brasil. Promoções são comuns em vários estádios, principalmente entre times de divisão inferior. Coisas simples, como cobrar menos de quem comparece com a camisa do clube ou gratuidades para familiares, reforçam a paixão por um determinado time, além de favorecerem um ambiente saudável para todas as idades. É um círculo vicioso: mais torcedores jovens trazem, no futuro, mais lucro. O Paraná Clube tem liberado a entrada para menores de 12 anos nos seus jogos na Vila Capanema. É um sucesso de público, por ingressos a partir de R$ 25,00.

Programas de sócio torcedor são uma maneira de tornar o preço menos salgado e a experiência mais prática, mas carrega uma série de problemas. Para começar, o fato de pagar mensalidades não soa bem, especialmente em épocas de crise financeira. Isso porque a mensalidade faz do lazer um compromisso, e parece mais cômodo não fazer nenhum tipo de acordo que se torne prejudicial ao bolso depois. Além disso, muitos sócios não comparecem aos jogos e deixam as cadeiras reservadas vazias e indisponíveis para o público geral. Porém, muitos times já encontraram a solução, o sistema de check-in. Funciona como nos aeroportos: o torcedor avisa previamente se vai ou não ao jogo. Assim, o clube pode liberar essas cadeiras para outros fãs quando possível. Quem tem um bom histórico no sistema de check-in pode, inclusive, ganhar promoções em jogos futuros. Ponto para a estética de um estádio mais cheio, mas isso não muda o fato de que as mensalidades são, em geral, muito caras e que não garantem entrada livre aos jogos. O torcedor do Grêmio, por exemplo, precisa desembolsar R$ 30,00 extras a cada jogo, além da cobrança mensal de R$ 50,00.
Tem lugar para quem assiste em pé e também para quem fica sentado. Para quem grita e para os mais reservados. Tem para os ricos e para os pobres também. Só que as diretorias não sabem. E, no final, todos perdem com isso.

SalvarSalvar

SalvarSalvar

You May Also Like

One thought on “O futebol não é para os pobres, mas deveria

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *