O homem no pátio do hospício

Como vive Plá, um dos personagens mais marcantes das ruas Curitibanas, em sua busca pela lucidez no exercício da loucura

Por Douglas Maia
Edição de Bruno Vieira

“Eu não acho muito legal falar de mim mesmo. Você pode perguntar pra outra pessoa”, dispara o artista de rua mais famoso de Curitiba quando perguntado sobre sua importância para a música local. Mas logo completa: “Eu vivo o que eu faço. Essa é uma semente que está sendo plantada. A importância dela vai ser absorvida com o tempo”. Enquanto isso, Plá continua incansável com seus quase 60 CDs gravados e 13 livros lançados, sempre de forma independente.

Engana-se quem o vê como um “maluco beleza”. Sem respostas vagas, ele fala com a lucidez de quem vive a ideologia que canta. “Meu estilo de vida nasceu naturalmente, de uma necessidade minha”, esclarece. Plá optou por sua própria forma de exercer sua espiritualidade e por buscar o autoconhecimento na arte. “Eu me sinto bem comigo mesmo. Me sinto bem fazendo o que faço. Não acho que eu tenha abdicado de muita coisa, é apenas uma escolha por algo que me preenche melhor”.

Plá narra sua trajetória com a voz agitada de um garoto, enquanto pinta pergaminhos no estúdio de arte nos fundos de sua casa. A “Suíte Campestre”, como ele batizou, foi erguida com as próprias mãos e a ajuda de alguns poucos amigos, usando madeira descartada na rua. Aquecendo os pés numa fogueira em sua suíte, o músico lembra de seus primeiros acordes. “Quando eu era bem moleque, meu pai fazia um fogo de chão como esse e ficava tocando violão. Eu observava e logo aprendi o que ele sabia”, conta.

Em 1976, o interior ficou pequeno demais para o garoto que queria “estudar, conhecer a vida, conhecer o mundo”. O dom para as artes, descoberto com o pai, facilitou a escolha do destino. Na Faculdade de Artes do Paraná, ele se formou em música. “Depois fiz um ano de musicoterapia e enjoei mesmo de ir pra escola. Guardei o diploma e fui pra rua”, diz com um sorriso. “Fui mostrar minha arte para as pessoas. Foi uma ideia bem positiva e não parei mais”.

 

Os 900 e tantos anos

“Quem levanta cedo vê que o Sol raiou/ segue sem medo, o dia começou/Banho gelado pra ativar a circulação/ Pra esquentar o corpo eu tomo chimarrão/ Pego a bike, ela é a minha condução/ Pode estar frio, calor ou dando trovão / Não tenho luxo, mas consigo viver bem/ Pela estrada vou seguindo com meu bem” canta Plá em uma de suas novas composições. Segundo ele, é a música que melhor o define.

O músico diz viver uma “vida intensiva”. “Vivo um mês como se fosse um ano. Não tem aquele lance de ficar ali marcando bobeira. Tenho uma grande vivência espiritual”, explica. Perguntado sobre a idade, brinca: “Ah, já passei de 900 anos”. Apesar disso, ele não acredita em rotina. “Eu sinto em cada dia o que deve ser feito. Geralmente levanto de madrugada, tomo um chimarrão, faço meditação, leio alguma coisa, organizo algum material de arte. Lá pelas 10h30 eu pego a bike e vou pra XV”.

E foi na Rua XV de Novembro, mais precisamente na Boca Maldita, que Ademir Antunes dos Santos tornou-se Plá. O pseudônimo não é apenas um apelido, muito menos um personagem. “Eu costumo dizer que é um nome espiritual, um nome que designa toda uma trajetória, uma experiência”.

O primeiro poema assinado por Ademir como Plá dizia: “O sistema quer que você dependa dele e seja contra o teu vizinho. E você entra nessa direitinho e acha que não tem outro jeito. Mas tem”. A mudança de nome marcou a busca por esse outro jeito. “O Ademir quase nem aparece mais. O Plá tomou a frente com uma atitude e uma postura diferenciada do comum”.

 

O hospício

“Eu vejo a rua XV como um palco, ali rola de tudo. É um lugar muito especial para desenvolver arte”, observa Plá. Em um disco inteiramente dedicado ao tema loucura, ele descreve seu local de trabalho: “O pátio do hospício é a boca maldita, onde os loucos vão tomar sol, ou não”. Aos olhos dele, a cidade é um grande hospício. A reflexão sobre a loucura surgiu do encontro com um hospício real.

“Quando eu fazia musicoterapia na FAP, comecei um estágio no hospital Nossa Senhora da Luz. Lá eles internam as pessoas e enchem de droga, de química. Eu vi que a situação das pessoas lá dentro já era muito crítica e que o trabalho com musicoterapia teria um resultado muito lento”, explica. Alertar as multidões dos perigos da vida “normal” se tornou sua filosofia. “É um trabalho de prevenção para que as pessoas não cheguem ao ponto de precisar ir para um hospício”.

 

“Parem os carros”

Presença certa na Bicicletada de Curitiba desde 2005, Plá se alegra com o crescimento do cicloativismo na cidade e se inspirou nessa mobilização para compor três álbuns dedicados às bikes. Os três volumes de Biciclopédia são a trilha sonora dos encontros ciclísticos na Reitoria da UFPR, toda última sexta-feira do mês. “Eu pedalo desde garoto e fiquei tão contente com esse movimento da bicicleta, que eu compus ‘A invasão das bicicletas’”. O vídeo em que Plá canta o refrão “Parem os carros, diminuam os carros, queremos pedalar” foi para a internet e logo chegou a outras Bicicletadas pelo país. “Depois disso me convidaram para participar da Bicicletada em São Paulo. Hoje eu participo também no Rio de Janeiro e Porto Alegre, vou seguindo o movimento da bicicleta”.

Visto quase sempre na companhia de sua inseparável bike, o músico encontrou em sua experiência diária como ciclista uma bandeira de luta. “É útil para a economia, para fazer um exercício, para se transportar. E a maioria das pessoas não percebe o grande valor de pedalar”, lamenta. “Eu pensei em compor para incentivar a galera a comprar uma bicicleta e pedalar. É algo que acabou me dando um sentido a mais na minha trajetória”.

 

“Estou bem no meio”

A comparação com Raul Seixas pode ser muito tentadora. A barba e o timbre de voz lembram muito o revolucionário roqueiro baiano. Plá reconhece, sem hesitar, que Raul foi o artista que mais o inspirou desde sua adolescência, mas não gosta da comparação. “As pessoas procuram associar muito. Orra, acho até careta isso aí”, comenta. Plá não é um novo Raul, tampouco se sente um poeta marginal. “Como eu poderia ser um poeta marginal seu eu tô no meio? Estou justamente na Boca Maldita. No meio da capital. Por que vou me considerar à margem?”

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