O insulto: um ensaio sobre ideologias divergentes no mundo contemporâneo

Por Valsui Jnior

A linguagem pode ser muito mais complexa do que imaginamos. Um simples ato pode representar um universo de significados, dependendo de pessoa para pessoa. No mundo contemporâneo em que vivemos, repleto de pós-verdades, ideologias contraditórias e embates morais cada vez mais intricados, esse cenário parece um bocado mais difícil de contemplar e com zonas cada vez mais cinzas do que aquele preto-e-branco dualista que o mundo moderno uma vez j viveu.

Todo esse postulado filosófico dito para apresentar o filme que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “O insulto” (2018). Dirigido por Ziad Doueiri, este é o primeiro longa-metragem libanês a concorrer a premiação. A história se passa em Beirute, capital e maior cidade do Líbano, na península do Mediterrâneo, com cerca de dois milhões de habitantes e que reúne uma infinidade de comunidades cristãs e muçulmanas, especialmente pela proximidade com o mundo árabe e com o seu vizinho, Israel. Naturalmente, muitos dos embates vividos no pas vizinho também so transportados para a realidade libanesa, especialmente o conflito com a Palestina que leva anualmente milhares de refugiados para a capital.

neste contexto que Toni, um mecânico interpretado por Adel Karam e morador de uma comunidade cristã na cidade, acidentalmente molha Yasser, um refugiado palestino que est a serviço como pedreiro de uma empresa de construes a fim de regularizar as moradias da comunidade. quando Yasser pede para consertar a calha da casa de Toni, que mal educadamente no o deixa entrar em sua casa, que o refugiado então quebra a calha para construir outra sem a permissão de Toni. Logo, o mecânico fica enfurecido com o palestino, exigindo uma desculpa, que no dada pela outra parte.

Uma simples confuso por conta de uma calha se torna algo muito maior, dadas as ideologias de cada um: enquanto Toni se mostra um cristo filiado a partido conservador cujo líder anterior havia ameaçado exterminar os palestinos do pas, Yasser se v resignado a no ceder um pedido de desculpas pela xenofobia escancarada do mecânico. Esse contexto de universos distintos que se encontram por um simples desentendimento, mas que desencadeia uma comoção nacional por conta da opinião pública o verdadeiro trunfo do filme de Ziad.

Ao longo da obra, várias outras complicações vão aparecendo, tornando o fato uma verdadeira bola de neve de histórias que remetiam a décadas passadas. H, em ambos os lados, um grande desejo de alforria pelos erros cometidos no passado por seus respectivos descendentes, que desencadeia no que cada um dos personagens atualmente. Por fim, os dois chegam at mesmo mesmo a ir a um tribunal, no necessariamente pela calha que se quebrou e no fim das contas no foi consertada, mas pelo conflito de ideologias tanto de uma direita xenofóbica no presente, quanto o de uma esquerda autoritária no passado.

Muito mais do que um filme sobre a simples situação que envolvia os dois personagens principais, O insulto” um ensaio sobre como os signos têm relevância crucial. A calha no apenas uma calha, mas também um símbolo de representação do desejo de vingança e liberdade de cada uma das partes. E, nessa fábula, a moral que fica que o mundo e suas representações so muito mais acinzentados do que o preto no branco que se imagina que exista.

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