O irresponsável desejo dos brasileiros de ver heróis no horário eleitoral

De Joaquim Barbosa a Sérgio Moro e Lula, por que o Brasil insiste em querer idolatrar as personalidades que admira?

Por Raisa Toledo

Por definição, herói é aquele que realiza atos de coragem para resolver problemas e salvar pessoas, guiado por princípios morais e éticos. É altruísta de modo a se preocupar mais com o bem geral do que com sua própria segurança. É tendência do brasileiro enxergar em personalidades públicas —  frequentemente políticos e representantes do judiciário —  a figura do herói, e não raro querer vê-la também na presidência do país.

O comportamento encontra raízes no conceito de dominação carismática do sociólogo alemão Max Weber, na qual o poder vem da devoção afetiva dos dominados, que seguem determinado líder por causa de suas características pessoais. O que legitima a influência dessa figura é seu carisma e o reconhecimento que as pessoas fazem de seus atos, depositando neles sua fé. No Brasil, esse quadro é respaldado pela ausência de representatividade de partidos e instituições em geral.

O Partido dos Trabalhadores (PT), formado através da organização sindical,  é hoje o que tem maior identificação partidária. Em geral, os outros partidos têm taxas de filiação mais baixas e menor contato com as bases da sociedade. No entanto, nas eleições de 2016, o carisma e efeito provocado pelo indivíduo foi um atrativo em muitos casos mais relevante do que a vinculação partidária do candidato.

“Em Moro nós confiamos”. Sérgio Moro tem sido glorificado como o homem que salvará o Brasil da corrupção. (Foto: Mídia Ninja)

Isso ajuda a explicar a fascinação de grande parcela da população pelo ex-presidente Lula, cuja figura pessoal se sobrepõe ao PT. Em um contexto de crise política como o que enfrentamos, é comum que a busca por um salvador ocorra. Isso acontece também com personagens do Poder Judiciário. O caso mais representativo de nosso tempo é o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações de primeira instância da Operação Lava Jato. Na situação de Moro, semelhante à de Joaquim Barbosa em 2012, sua notoriedade se dá pelas condenações que resultaram na prisão de políticos e empresários envolvidos em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.

Ambos contam com constantes manifestações populares em sua defesa. No caso de Lula, o motivo é que, em seus oito anos de gestão, as classes sociais mais baixas da população brasileira conheceram o aumento do poder aquisitivo, o ingresso às universidades e as políticas públicas de assistência. Mediante as medidas de austeridade propostas pelo atual governo, muitos clamam pela volta do ex-operário metalúrgico à presidência. Em contrapartida, nas demonstrações de apoio a Lava Jato, Sérgio Moro é elevado ao patamar de uma entidade, capaz de tudo resolver e todos os vilões combater. Se, por um lado, o juiz é acusado de ter forte orientação político-partidária e ser vergonhosamente parcial, é também visto pelas pessoas como um salvador da corrupção, que sempre fez parte do país.

Em pesquisa de intenção de voto do Datafolha para as eleições do ano que vem, realizada em abril deste ano, Lula ganharia em todos os cenários, contra candidatos como Geraldo Alckmin, Marina Silva, João Dória, Jair Bolsonaro e Aécio Neves. No caso de uma disputa em segundo turno com Sérgio Moro, o resultado seria um empate técnico: o juiz venceria com 42% dos votos. São dois exemplos de heróis defendidos por partes divergentes da população.

Milhares de apoiadores do ex-presidente se reuniram em Curitiba no dia 10 de maio, dia em que ele depôs a Sérgio Moro. Eles tentavam fazer a #LulaEuConfio chegar ao topo dos trending topics do Twitter. (Foto: Cássia Ferreira)

É muito enraizada no Brasil a necessidade política de alguém que venha de cima e nos salve dos males e dificuldades da vida. Getúlio Vargas era o “pai dos pobres”, e ainda hoje o eleitorado procura quem possa o pegar pela mão e resolver seus problemas. A escolha de heróis não é saudável para a instituição democrática que, de acordo com suas bases teóricas, deve ser construída pela população, a quem pertence. O governante não deve se tornar muito personificado, isolado do legislativo, das instituições públicas e demais componentes necessários para uma gestão política.

É evidenciada nessa psicologia de vítima de filme de super herói do povo brasileiro a necessidade de um maior entendimento do funcionamento das instituições políticas, e de uma emancipação em relação ao paternalismo. Lula, Moro e nenhuma outra personalidade influente é livre de interesses próprios, altruísta como o Capitão América ou guiado por fortes princípios morais como o Super Homem. Ninguém real é capaz de resolver sozinho todos os problemas de um país. Definitivamente, nenhum herói vai aparecer de repente para salvar o Brasil, seja da corrupção ou da desigualdade social.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *