O jeito Greca de acabar com a pobreza

Pelo visto moradores de rua continuam a dar nojo

Por Kei Namise

Este texto é opinativo e expressa o julgamento do repórter sobre o assunto. Imagem: Alan Marques/Folhapress

Após sete meses de mandato, o prefeito de Curitiba, Rafael Greca, não conseguiu resolver um dos problemas que mais alardeou em sua campanha: o número crescente de pessoas em situação de rua na cidade. Afirmou diversas vezes que a gestão anterior era culpada por não saber lidar com o problema. Contudo em um momento de descuido chegou a declarar: “Nunca cuidei dos pobres, não sou são Francisco de Assis. Até porque a primeira vez que tentei carregar um pobre ‘pra’ dentro do meu carro eu vomitei por causa do cheiro”.

Para se recuperar da repercussão negativa de sua frase e evitar perder eleitores por causa dela, Greca saiu pelas ruas de Curitiba beijando e abraçando moradores de rua que encontrava pelas ruas. Tudo devidamente registrado pelas equipes de marketing da campanha e por alguns jornalistas. E logo que chegou ao poder, o novo prefeito decidiu continuar a demonstrar todo o seu afeto e preocupação pelos moradores de rua de Curitiba.

Na primeira semana gestão de seu governo ordenou que se retirassem os guarda-volumes dos moradores de rua da Praça Osório. Agora em agosto ordenou que a guarda municipal retirasse à força os pertences dos moradores de rua e que fossem intimidados a se dispersarem. Ainda não bastasse esses dois casos, Greca com toda sua sensibilidade chegou a insinuar em uma postagem em seu perfil no Facebook que a culpa de um morador de rua ter morrido devido as baixas temperaturas era da própria vítima.

Antes que seus opositores viessem criticar suas medidas, ele justificou cada uma delas . A primeira foi em prol das crianças de nossa cidade, era fundamental retirar o guarda-volumes, para devolver o playground para elas. A segunda era uma questão de segurança pública, pois o perfil do morador de rua, segundo Rafael Greca, teria mudado. Hoje não seriam mais somente pobres, agora haveria traficantes de drogas infiltrados. Logo a dispersão deles era essencial para garantir a “segurança” dos cidadãos. Por fim, a vítima era culpada por ter negado ajuda para ir a um dos abrigos. Os eleitores de Greca elogiaram a forma como ele estava lidando com a questão das pessoas em situação de rua em Curitiba.

Infelizmente os atos de Greca são só um reflexo do pensamento de uma grande parte dos brasileiros. Você já deve ter ouvido algum conhecido falar que o problema do Brasil eram os pobres que se multiplicam como “coelhos”. Que se houvesse um controle de natalidade para impedir que os miseráveis se proliferassem, o Brasil seria um país melhor. Tais comentários puderam ser vistos mais frequentemente após as eleições de Lula e Dilma, quando parte da população  dos grandes centros urbanos culparam a ignorância e pobreza dos nordestinos como principal fator que levou os petistas ao poder.

Embora o higienismo seja uma política datada dos séculos XIX e início do XX, ela ainda está presente em nossos cotidianos. Ela sempre esteve relacionada à  ideia de desordem e à  do atraso das sociedades tropicais. Onde prevalecem as precárias condições de vida dos mais pobres no ambiente urbano. Onde o pobre é visto como um problema que interfere nos projetos e interesses das classes mais altas, se tornando uma ameaça à sociedade. Para esses grupos a pobreza está relacionada à proliferação de doenças e à degradação moral, e o higienismo puro e simples é o melhor remédio para resolver esse problema social. E assim como no passado, Greca é só mais um que se utiliza de discursos do progresso como uma justificativa para o uso de ações autoritárias.

Numa sociedade que aceita caladamente a perda de direitos dos mais pobres, quem são realmente os doentes e os moralmente questionáveis? Quando concordamos ou não nos pronunciamos sobre esses tipos de atitudes, seja de Greca em Curitiba ou do prefeito de São Paulo, João Dória, aceitamos retirar também a dignidade dessas pessoas. Durante uma palestra na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a ex-presidente da Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS), Márcia Fruet, disse que não há uma única razão que leva uma pessoa a escolher as ruas como seu lar. Argumentou que para poder ajuda-los é necessário tempo e dedicação, pois a solução varia de morador para morador, e que é necessário primeiro recuperar a dignidade dessas pessoas.

A solução não é rápida ou milagrosa como alguns políticos afirmam. Antes de querermos tomar qualquer atitude, devemos lembrar a nós e aos nossos governantes que os moradores de rua também são cidadãos e, principalmente, são seres humanos. Por pior que sejam suas condições de vida, devemos garantir fundamentalmente sua dignidade e seus direitos. Greca, que quer tanto abrir novos abrigos, deve entender que quantidade vem depois de qualidade. Muitos acreditam que os albergues oferecidos pela prefeitura não são bons o suficiente e por isso evitam passar a noite neles, mesmo com frio ou chuva. Reportagens em outras gestões já mostraram que a situação dos abrigos era de fato um problema, especialmente o da Conselheiro Laurindo que o prefeito quer tanto reabrir. É comum ouvir relatos sobre a falta de higiene e de preparo dos funcionários, sobre furtos por parte de outros alojados e sobre o medo de doenças quando há aglomeração. Para resolver estes problemas é necessário estratégia e planejamento.

O prefeito também deve ouvir as urgências da população de rua. É importante saber se em algum momento já houve integração social dessas pessoas, porque há os que estão em situação de rua desde a infância, por uma série de violações de direitos. Então, é importante ter atenção para a singularidade das histórias. Só quando entendermos as diferenças dessa população heterogênea poderemos criar medidas efetivas. Isso não quer dizer que medidas paliativas não sejam necessárias, a assistência social oferecida para se lidar com questões como vício de drogas e desemprego são essenciais. Contudo não basta um prato de comida e uma cama para resolver o problema, até mesmo projetos de moradia fixa podem fracassar. O acompanhamento do processo de reintegração é o que irá garantirá o sucesso do projeto. Mas políticos como Rafael Greca não querem saber disso, buscam quaisquer meios para varrer a sujeira para debaixo dos tapetes e dizer que tudo está tudo bem e sob controle.

 

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