O limite entre o esporte e a qualidade de vida

As diferenças do esporte como lazer e formador social, e o esporte de alto rendimento e a especialização precoce

Por Juliana Firmino

Existe um discurso de senso comum que traz o esporte como sinônimo de saúde e como formador de caráter social para crianças e jovens. Porém, tem muito a ser desmistificado nesse contexto. Para isso é preciso separar o esporte em duas vertentes cruciais: o esporte como lazer, ou esporte lúdico X o esporte de alto rendimento, também chamado de esporte de ponta. André Mendes Capraro, formado em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná, Mestre e Doutor em história pela UFPR, comenta sobre o assunto.

André é historiador e apreciador do esporte aplicado a pesquisas na área. (Foto: Juliana Firmino)

 

Jornal Comunicação: O que é a especialização precoce e de que modo ela se apresenta?

André Mendes: “A especialização precoce é o termo técnico usado para crianças que começam a treinar muito cedo de forma exaustiva. Um exemplo é o jogador de futebol Neymar, que desde criança acompanhado pelo pai, treinava exaustivamente por horas, fazendo várias repetições e domínios de bola. Alguns estudos mostram que em grande parte das vezes isso ocorre devido a projeção do pai na criança”.

 

JC: Quais as consequências dela a longo prazo?

AM: “Isso gera um impacto enorme, não podemos tomar um caso como o do Neymar uma via de regra. Na maioria dos casos isso acaba mal, no sentido de: ou a criança, lá pelas tantas, cria um bloqueio com a prática e não consegue mais fazê-la, ou, o que é pior, mesmo com todo o empenho, ela vem a ter uma série de lesões, até mesmo de ordem psicológica logo no início da fase adulta, devido ao excesso. Esse excesso é responsável por uma ausência da infância, pois pode ser considerado como uma forma de trabalho, quando a criança deveria estar brincando e se divertindo”.

 

JC: Em contrapartida a tudo isso, o esporte, mesmo que de ponta, pode ser considerado um meio de afastar os jovens de drogas ou da criminalidade?

AM: “O esporte de alto rendimento, de forma alguma, pode ser enquadrado como desvio para uma rota que possa culminar em criminalidade ou uso de drogas, não existe nenhum artigo científico que aponte isso. Pelo contrário, não são drogas de uso comum e social, mas não raro inicia-se logo cedo o uso de substâncias dopantes que variam, desde medicamentos, com pequenos efeitos colaterais, até anabolizantes. No meio esportivo circula, infelizmente, um nível muito grande dessas substâncias. Exemplo disso são lutadores que frequentemente usam diuréticos, inibidores de apetite, ou semelhantes, antes das pesagens da luta”.

 

JC: Como o esporte de alto rendimento atua na vida do indivíduo?

AM: “O Oscar do basquete disse uma frase célebre a respeito: ‘ser atleta de alto rendimento é a aprender a conviver com a dor’. O esporte de alto rendimento é uma profissão que obriga o indivíduo a viver no limite, devido às cargas excessivas de treino e que muitas vezes podem causar lesões. Toda profissão se paga de um modo e no esporte é no corpo. Muitos ex-atletas mal conseguem treinar em suas próprias categorias só por lazer devido a lesões obtidas na época em que atuavam. Sem contar que o indivíduo vira um pop star, uma figura pública e nesse momento é importante a figura de um psicólogo esportivo e um media trainer para o ajudar a lidar com isso, com o fato de não poder sair na rua sem ser parado por alguém. Outro ponto importante de ser ressaltado é a dificuldade em cursar uma universidade quando se é um atleta de ponta, pois se têm muitas faltas em função de jogos e viagens, reprovações e não há um incentivo do governo para que isso exista, como há em muitos outro países. O esporte é desvalorizado no nosso país”.

 

JC: E quais as principais diferenças em relação ao esporte como lazer?

AM: “O esporte como lazer, acontece de forma lúdica e com moderação. Este sim, ao contrário do de ponta, é um agente de qualidade de vida, aumenta expectativa de vida, amplia o repertório social, traz uma disciplina, é muito saudável.”

 

JC: Praticado dessa forma, o esporte pode ser considerado um agente formador de caráter social?

AM: “Nesse contexto, sim. O esporte pode formar um cidadão melhor. Existem projetos sociais que trabalham dessa forma com crianças e adolescentes, principalmente em regiões periféricas, com a presença de profissionais da área de educação física e assistentes sociais. Muito raramente saem de projetos como esses atletas de ponta, como foi o caso da Rafaela que ganhou o ouro no judô na Olimpíada de 2016. Mas muitas vezes eles despertam o interesse pela profissão e o jovem quer estudar para se tornar um técnico, um preparador físico, um profissional da área”.

 

JC: Nesse contexto, o esporte pode ser um meio, também, de ascensão social?

AM: “Sim, existem dentro desses projetos sociais alguns relacionados a artes marciais que formam mestres e estes por sua vez começam a dar aula, ganhar seu dinheiro e acabam tirando dali uma fonte de sustento”.

 

JC: Ainda falando de jovens e crianças, como lidar quando elas têm uma especialização precoce e não se tornam atletas de ponta?

AM: “É um sonho muito improvável, que chega a ser cruel para criança, porque é uma frustração muito grande. A seleção é rigorosíssima. No futebol, por exemplo, a estatística chega a 1/100 mil. É nesse momento que a criança, ou o adolescente, já cai em si e pode começar a apresentar aqueles sintomas anteriormente citados. Da mesma maneira que pode ser importante um outro tipo de acompanhamento psicológico para lidar com esse sonho que não vai se realizar. São muitos desses jovens que se frustram e despertam o interesse pela Faculdade de Educação Física para permanecer no meio esportivo”.

 

JC: Qual é o limite entre o esporte e a qualidade de vida?

AM: “O limite é sempre a moderação. É não fazer em excesso para não causar desgaste ou lesão, nem física e nem mental”.

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *