O neonazismo também fala português

Pesquisa antropológica mostra que as regiões sul e sudeste concentram a maioria dos simpatizantes neonazistas do país, mostrando que a propagação do ódio acontece mais perto do que se imagina

Por Mariana Toy

 

No dia 11 de agosto, um grupo de supremacistas brancos protestou com tochas e palavras de ódio pelas ruas de Charlottesville, nos Estados Unidos. Segundo manifestantes, a passeata foi uma preparação para o evento “Unite The Right” (“Unir a Direita”), que aconteceu no dia seguinte. O encontro de pessoas favoráveis e contrárias ao movimento causou tumulto e provocou a morte de três pessoas. Apesar de o episódio ter acontecido a quilômetros de distância, essa é uma realidade presente no Brasil e, até mesmo, em Curitiba.

Em 2015, a capital paranaense quase foi palco de um congresso que tinha como objetivo a fundação da Frente Nacionalista na cidade, mas ele foi cancelado um dia antes de acontecer. De qualquer forma, a população negra, LGBT, pessoas com traços orientais acentuados e refugiados, enfrentaram um momento de hostilidade e tensão. Na época em que o evento estava sendo organizado, jovens foram atacados na saída de baladas LGBT, casas de estudantes e campus de faculdade, pessoas em situação de rua foram agredidas e haitianos foram perseguidos. O grupo se baseava em ideais de Plínio Salgado e políticas de Benito Mussolini.

 

Manifestantes acenderam tochas em referência ao grupo Ku Klux Klan, que defende correntes extremistas, e gritaram “White lives matter” (“Vidas brancas importam”) durante a noite de 11 de agosto (foto: Reuters) (link: https://goo.gl/YBhgkP)

Essas tendências fascistas em terras brasileiras não passaram despercebidas pelos estudiosos. A antropóloga da Unicamp, Adriana Abreu Magalhães Dias, escreveu uma dissertação de mestrado sobre o uso da internet para disseminar o racismo e a ideia de superioridade da raça ariana. Adriana desenvolveu a análise etnográfica “Os Anacronautas do Teutonismo Virtual: uma etnografia do neonazismo na Internet”, de 2002 a 2009, na qual analisou acessos a sites, fóruns, comunidades, portais, blogs, entre outros ambientes digitais. Além disso, também registrou os downloads de arquivos com conteúdo racista e revisionista (que procura formas de invalidar a veracidade dos episódios ocorridos no holocausto e o número de judeus assassinados por autoridades nazistas).

 

Entre os resultados dessa avaliação de 7 anos está o mapeamento de simpatizantes neonazistas no Brasil e as características de organização desses grupos. “Os ativistas convencem o jovem de que o negro ou o judeu tomou seu espaço no mercado de trabalho ou na universidade, para recrutá-lo.” explicou Adriana em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), ela ressalta ainda que “Os líderes dos grupos possuem um alto grau de instrução e buscam se resguardar de eventuais ações judiciais, por isso não participam das ações violentas”. Segundo a antropóloga, existiam cerca de 18 mil simpatizantes neonazistas no Paraná e 105 mil no sul do Brasil, em 2013.

 

Adriana Dias afirmou que, no site Valhalla88, há fotos de internautas realizando práticas neonazistas em locais conhecidos de Santa Catarina (link do gráfico: https://goo.gl/ATFMSS)

 

René Gertz, professor e historiador, estudou o nazismo por mais de 30 anos e, ao ver uma entrevista de Adriana Dias para a mesma revista que concedeu uma fala, procurou saber mais sobre a antropóloga e sua pesquisa. Gertz concordou com a existência de grandes quantidades de simpatizantes neonazistas no Brasil, mas discordou com o método utilizado por Adriana para estimar os dados estatísticos apresentados e se preocupa que o leitor possa tirar conclusões equivocadas “Apesar de não encontrarmos a afirmação explicitamente categórica de que o ‘neonazismo’ em Santa Catarina seja coisa, sobretudo, ‘de alemão’, o leitor não terá dúvida de que é isso que a autora, de fato, quer dizer”, afirmou o professor em um artigo de opinião.

 

Segundo Adriana Dias, de 2002 a 2009, os sites que veiculam conteúdo de interesse dos neonazistas cresceram 170% (link da do gráfico: https://goo.gl/WVFEFG)

 

O historiador Odilon Caldeira Neto se apoia na corrente historiográfica sustentada por Gertz e concorda com ele quando se trata de não relacionar o neonazismo do sul do Brasil com o fluxo migratório do país. Caldeira afirma que o método de pesquisa de Adriana Dias pode ser incerto, pois se baseia em acessos a sites, fato que não comprova, de fato, a simpatia de um indivíduo pelo neonazismo. “As notícias e atos neonazistas criam um interesse natural em seu conteúdo, logo, o aumento no acesso não deveria ser entendido exclusivamente como um exponencial de interação entre ideologia e ‘simpatizantes’, mas, sobretudo, pela dinâmica própria da rede e dos meios de comunicação”, afirma o historiador, que destaca, também, o acesso regular de pesquisadores a sites com conteúdo neonazista para fins de conhecimento.

 

Caldeira Neto considera plenamente possível que o Brasil tente reproduzir as manifestações ocorridas no exterior, como foi o caso de Charlottesville, em termos de mobilização política. “Temos, na atualidade, um quadro de profunda crise política, descompasso econômico, avanço do discurso conservador e a tentativa de compreender esse processo como um cataclismo do qual emergirá uma figura salvacionista”, disse o historiador. Ele lembrou ainda que a polarização da sociedade dá margem à busca por “bodes expiatórios”, que são pessoas sobre as quais recaem culpas alheias, e a tendência é que essas pessoas sejam as minorias.

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