O que glitter e purpurina tem a ver com o meio ambiente?

As partículas podem parecer inofensivas, mas causam mais danos a natureza do que é possível imaginar

Texto e fotografia de Julia Bevilaqua Stefanel

Para que a drag queen Juana Profunda dê as caras, é um processo demorado. Da depilação aos produtos escolhidos a dedo, até que ela esteja perfeita são mais de duas horas de maquiagem. Um elemento que está sempre presente nos “looks” da Juana é o glitter. Ela adora misturar cores e se dedica a aprender novas maneiras de aplicar o brilho na maquiagem “o que eu tenho feito agora é misturar 4 tipos de glitter pra ficar com uma cor diferente”, conta. Quando volta para casa, Juana vai para o banho e, com isso, toda a maquiagem e a preparação de horas desce ralo abaixo. Mas para onde vai todo esse glitter?

O glitter e a purpurina são feitos de microplásticos, partículas com até 1mm de tamanho (ou até 5mm, para alguns pesquisadores). Devido ao tamanho, essas partículas não são filtradas nas estações de tratamento de esgoto e acabam caindo direto no mar. Segundo a oceanógrafa Brenda Mendonça do canal Descontrartigo, o maior problema causado pelos microplásticos é a biomagnificação, que é o aumento da concentração de uma substância ou elemento em organismos vivos.  Animais de pequeno porte como pequenos peixes e organismos planctônicos são os principais consumidores diretos dessas partículas. No entanto, como é natural em qualquer ecossistema, esses pequenos animais servem de alimento para peixes maiores e outros animais marinhos.  Assim, como em um efeito cascata, essas partículas e os poluentes acumulados nelas passam para o organismo desses outros animais maiores. “A partir desse efeito é possível que expostos à essas partículas quando ingerimos determinados animais marinhos” explica.

QUANDO O PROBLEMA FICA MAIS GRAVE

Brenda também alerta para um problemas mais grave causado pelo microplásticos nos oceanos “produtos tóxicos como metais pesados e poluentes orgânicos persistentes (POPs), derivados de pesticidas por exemplo, acabam por acumular-se nesse material”. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Osnabrück, na Alemanha, apontou que, com a biomagnificação, esses poluentes acabam sendo levados até mesmo a regiões mais afastadas do planeta – como o Ártico. Além disso, elementos cancerígenos como o chumbo entram na cadeia alimentar dos animais marinhos, e, mais uma vez, os seres humanos podem ser expostos a essa contaminação e pode estar relacionado a diversas disfunções hormonais, neurológicas e reprodutivas.

Essas partículas não estão presentes apenas no glitter e na purpurina, também podem ser encontradas em alguns esfoliantes, pastas de dente, sabonetes, e em outros inúmeros produtos do nosso dia-a-dia, sem contar em diversos ramos da indústria. Devido aos dados é provável que grande parte da população já ingeriu essas partículas, seja por alimentar-se de animais marinhos, pelo sal ou até mesmo pela água. Segundo um levantamento realizado pela Orb Media, de 159 amostras de água coletadas em cinco continentes, 83% continham microplásticos. A pesquisa demonstrou resultados semelhantes em todos os países.

PRODUTOS BIODEGRADÁVEIS PODEM AJUDAR

Marcas apostam em materiais ecológicos para combater a poluição causada pelos microplásticos (Foto : Júlia Bevilaqua Stefanel)

O que fazer para diminuir a participação neste ciclo? Evitar produtos como esfoliantes, sabonetes e pastas de dente que contenham microplásticos. Quanto ao glitter, a oecenógrafa Brenda garante que ninguém precisa parar de brilhar para diminuir a poluição, “materiais biodegradáveis são as melhores opções. Já existem bons substitutos, como glitter vegano, feito de minerais naturais ou algas marinhas que voltam ao seu estado natural em contato com a água.”, explica.

Como o material biodegradável ainda foi pouco divulgado artistas como a drag Juana conta que não sabia onde encontrar, mas que tem interesse em produtos menos nocivos. “Imagino que seja mais caro, mas, dependendo do preço, com certeza eu usaria. Até porque é uma coisa que dura bastante, a gente usa pouquinho e valeria a pena”, afirma.

Por isso, reunimos aqui 3 alternativas para todos os bolsos.
A marca britânica LUSH é conhecida por fabricar produtos ecológicos de forma artesanal, na loja virtual você pode encontrar vários produtos brilhosos que não contém microplásticos

A matéria-prima da Pura Bioglitter são algas marinhas e minerais e os potinhos custam cerca de R$10,00.

Você também pode passar numa distribuidora de doces e procurar por glitter de confeiteiro (aquele de enfeitar bolos), existem várias opções de cores e acabamentos.De fácil acesso e geralmente mais barato que as outras alternativas.

O canal Descontrartigo indica que  alguns hábitos, como retirar o glitter antes de lavar o rosto, também podem ajudar. Para isso, dá para usar uma fita adesiva ou um algodão, depois é só jogar no lixo comum.

 

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