O que homens trans acham de Ivan em “A Força do Querer”?

Novela da Globo está causando grande repercussão por abordar a transexualidade

Por Janyne Leonardi

 

Em 2013, a Rede Globo tomou uma decisão que tornaria a novela de Wolf Maya, “Amor à Vida”, um marco na história da teledramaturgia brasileira: uma cena de beijo gay durante o capítulo final. Cinco anos e mais alguns tabus quebrados depois, a novela roteirizada por Glória Perez, “A Força do Querer”, traz mais um assunto que aborda o público LGBT, a transexualidade. Desta vez a emissora mostra a trama de Ivan, um homem transgênero que está superando os desafios da transição.

O Jornal Comunicação conversou com Luan de Matos Kobayashi e Nathan Tatsch, dois homens transgêneros, que também estão passando pela transição, para saber mais sobre a opinião de quem vive na pele o assunto. Para isso, mostramos duas cenas da novela e pedimos para que comentassem o assunto.

Vídeo 1: Ivan reúne a família para contar que é transexual e eles não reagem bem

Luan considerou a abordagem de Ivan agressiva. Por saber como Joyce e Eugênio – os pais do personagem – são, ele acredita que era melhor ter procurado uma forma mais pacífica de tratar o assunto. Apesar disso, ele acha interessante ver a cena por um motivo pessoal: “mostra bastante a realidade quando os pais não aceitam, algo que eu não tive contato, porque com minha família foi bem tranquilo. Então é bom mostrar isso pra ver os dois lados da situação”.

Nathan riu durante a cena e disse que com ele a experiência foi parecida. “A cena é bem emocionante. E esse papo de ‘surto psicótico’ não é raridade, falam muito que transexuais tem algum problema psicológico, como esquizofrenia”. Apesar disso, considera a cena um pouco forçada, e critica parte do discurso de Ivan. “Não gosto de todo esse discurso trans de ‘eu nasci no corpo errado’. Não é isso. É toda a concepção do que é o gênero e a norma que é errada”, afirma.

Quando Ivan mostra os hormônios que está tomando, Nathan identifica a marca imediatamente e se assusta. “Começou com o pior tipo de hormônio possível. Ele é feito para homens que querem ficar marombas, é cheio de picos de testosterona, e é muito forte para o pâncreas”, ressalta.

Luan também comenta esse detalhe da novela. “Ele está fazendo o tratamento por conta própria e eu acho certo estar sendo mostrado. Porque é errado fazer isso, mas é algo que muita gente faz, pondo em risco a própria vida”, comenta.

Os dois ressaltam a importância de fazer o tratamento com o acompanhamento de um endocrinologista e psicólogo, para garantir que os hormônios não serão prejudiciais à saúde física ou mental. Em Curitiba, eles destacam o atendimento do Centro de Pesquisa e Atendimento a Travestis e Homossexuais (CPATT) e o Processo Transexualizador no SUS.

Vídeo 2: Ivan pede ao pai que pense e pesquise sobre transexualidade e considere pagar a cirurgia para retirada dos seios do filho

O que chama a atenção de Luan na segunda cena é a presença de Tarso Brant, um transexual conhecido na comunidade LGBT. Ele acha importante a novela ter aberto espaço para alguém que está passando pelo processo de transição falar sobre o assunto. “Eu comecei a acompanhar o Tarso desde antes de pensar em fazer a transição, e mais ainda quando comecei a pesquisar sobre o assunto para me tornar trans”, afirma Luan. Nathan tem uma opinião contrária. Para ele, Tarso não é o melhor representante da comunidade trans. “Ele se assumiu há muito pouco tempo como Tarso, mas quando chega na novela se apresenta como Tereza. Isso não faz sentido, ele precisa decidir logo o que quer”, completa.

Nathan ainda comenta que Ivan não é nada além de trans, e isso o incomoda. “Pessoas trans têm personalidade, podem ter hobbies, profissões, viver a vida deles. Já o Ivan não oferece nada além do fato de ser trans”. Ele reflete sobre o sofrimento que o personagem passou desde que começou a transição: “Não atinge as pessoas que são transfóbicas, e sim quem vive isso. Uma mãe que está vendo o filho passar pela transição, ao assistir o Ivan sendo espancado, vai influenciar de uma forma boa? Ser trans é algo que nos é lembrado constantemente, mas nós somos muito mais que isso”. Por fim, ele completa: “Parece que estão usando do nosso sofrimento, das nossas dores, para lucrar em cima disso”. Apesar das críticas, ele elogia o fato de terem escolhido como personagem um homem trans homossexual, ao invés de heterossexual. “Ninguém pensa que trans podem ser gays, bissexuais, e é algo que existe muito”.

Luan aproveita o momento para relembrar como era antes e depois da transição, que fez há 9 meses. “Eu era uma pessoa passiva, que não reagia. Não me sentia bem comigo mesmo, não gostava de conversar com ninguém. Me incomodava com as pessoas olhando pra mim, e agora não sinto mais isso. Sou muito mais corajoso”.

A novela ainda está em andamento, e o personagem Ivan pretende trazer muitas surpresas enquanto supera os desafios no caminho da transição de sexo. Glória Perez tem a tarefa de compreender a comunidade trans e retratá-la com verossimilhança para milhões de pessoas diariamente. Aguardamos ansiosamente o decorrer dessa história.

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