Olhar de Cinema | O cinema mudo de F. W. Murnau ganha homenagem na sexta edição do evento

Dono de um estilo de direção muito próprio e intimista, Murnau é o primeiro diretor da fase do cinema mudo a ganhar homenagem no evento.

Por Robinson Samulak

Poucos movimentos cinematográficos foram responsáveis por tamanha influência para o cinema como o Expressionismo alemão. Os filmes feitos no período entre guerras desenvolveram técnicas que ainda hoje são referência no cinema. Ao mesmo tempo, a temática foi responsável por definir um dos gêneros mais peculiares: o terror. Até “O Gabinete do Doutor Caligari” (1920) de Robert Wiene, algumas poucas experiências haviam sido realizadas (as mais significativas foram feitas por Georges Méliès), mas nenhuma conseguiu definir o gênero como aconteceu com o cinema expressionista. Resultado de seu período, o movimento abordava as incertezas da população com o futuro e com a situação política e econômica. As personagens caricatas e assustadoras, o uso da iluminação e o exagero dos cenários definiram os filmes da época e seus realizadores foram responsáveis por tal feito.

Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931) destacou-se de seus colegas por definir o uso da luz no cinema. A iluminação contrastante nunca foi tão intensa como nos filmes de Murnau. O diretor ousava ao usar a luz com intensidade acima do necessário, mas, de forma irônica, insistia em abusar dos cantos escuros para preencher os enquadramentos. Seus filmes, com isso, eram capazes de evidenciar a face do horror, mas sem entregar todos os perigos que podiam estar à espreita.

Não são raras as cenas cujas sombras tornam-se protagonistas. Aos olhos do público, uma figura horripilante surgia de um canto escuro, ganhava a tela sem poder ser plenamente identificada e a partir desse momento poderia simplesmente chegar em outro canto escuro, como poderia cometer o mais terrível dos crimes. O público está ciente da presença do mal, mas não pode vê-lo nem tocá-lo (muito menos vencê-lo).

Em “Nosferatu” (1922), Murnau usa cada um dos cenários para causar incômodo no público. A fotografia, cuidadosamente planejada, joga o público num cenário de tensão, que ainda hoje, quase um século depois, causa desconforto em quem assiste. A obra, uma adaptação não oficial de Drácula, é talvez (e o quão irônico isso pode ser?) o único filme a mostrar a verdadeira faceta do vampiro criado por Bram Stoker. O cineasta, o diretor de arte Albin Grau e o fotógrafo Fritz Arno Wagner conseguiram criar atmosferas visuais únicas ao unir elementos de pinturas românticas, com as sombras expressivas e fotografia dos filmes escandinavos. Soma-se a isso experiências inovadoras no uso das imagens em negativos. Tudo isso feito de forma natural, uma vez que poucas cenas foram rodadas dentro de estúdios.

O uso da câmera é outro destaque na filmografia de Murnau. Ao lado de Fritz Lang, outro diretor da geração expressionista, Murnau definiu a linguagem cinematográfica e soube usar a câmera para isso de forma impecável. O filme “Fantasma” (1922), com cenários de Hermann Warm e fotografia de Axel Graatkjaer, tem em uma de suas cenas mais marcantes o protagonista com vertigem, e consegue transmitir a sensação ao público, com cenas que giram de forma confusa e escadas que sobem e descem sem que o ator precise se mover. Usando a técnica, Murnau conseguiu jogar o público para dentro da tela, e usou cada um dos recursos possíveis como elementos narrativos.

Com o tempo, Murnau passou a utilizar a fotografia com um rigor mais sofisticado. Em “A última gargalhada” (1924), de tons mais realistas, ele e o roteirista Carl Mayer contam a história de um velho porteiro de hotel obrigado a trabalhar como auxiliar de toalete. Nesse filme, a fotografia elaborada por Karl Freund se transforma em um instrumento dramático fundamental, quando o protagonista (interpretado por Emil Jannings) tem verdadeiras visões do inferno em seu novo posto de trabalho, cuja escuridão contrasta de maneira intensa com a luminosidade e a beleza do saguão onde trabalhava anteriormente.

Murnau mudou-se para Hollywood em 1926, com contrato com a 20th Century Fox. Realizou quatro filmes com o estúdio, antes de morrer tragicamente num acidente automobilístico. Do período, dois filmes merecem destaque: “Aurora” (1927) e “Tabu” (1931). “Aurora” foi feito ainda usando a temática e o estilo que o consagraram. Foi o primeiro filme a ter a faixa de áudio impressa na película, fazendo o uso de efeitos sonoros. Tendo sido feito no mesmo ano que “O Cantor de Jazz”, mas um pouco antes, perdeu toda a “fama” de primeiro filme sonoro para este. Apesar de “Asas” ser comumente lembrado como primeiro ganhador do Oscar, o prêmio de melhor filme na época era dividido em duas categorias, melhor produção (que foi para “Asas”) e melhor produção artística e única (Que foi para “Aurora”). “Aurora” seria, portanto, o primeiro ganhador do Oscar.

“Tabu”, ao contrário, exibe o caminho para o qual o diretor pretendia seguir, e é considerado seu mais belo e poético filme. É possível sentir o estilo mais livre do cinema expressionista que o consagrou. O acidente que tirou a vida do diretor ocorreu uma semana antes do lançamento do filme. Murnau nunca chegou a ver sua obra final ser exibida.

 

A 6ª edição do Olhar de Cinema homenageia F. W. Murnau ao exibir 10 de seus filmes:

 

– Caminhada Noite Adentro (Der Gang in die Nacht) (1921, 80min)

 

– O Castelo Vogelöd (Schloss Vogelöd) (1921, 61min)

 

– Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens) (1922, 95min)

 

– Fantasma (Phantom) (1922, 122min)

 

– As Finanças do Grão-Duque (Die Finanzen des Grossherzogs) (1924, 78min)

 

– A Última Gargalhada (Der letzte Mann) (1924, 91min)

 

– Tartufo (Herr Tartüff) (Versão americana) (1925, 65min)

 

– Fausto (Faust – Eine deutsche Volkssage) (1926, 108min)

 

– Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans) (1927, 106min)

 

– Tabu (Tabu: A Story of the South Seas) (1931, 87)

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