Ópera para todos

Festival de gênero artístico julgado elitista atrai público diversificado

Por Filipe Andretta

Curitiba e Ponta Grossa receberam entre 20 e 29 de outubro o III Festival de Ópera do Paraná. Engana-se quem pensa que o público foi pequeno, idoso e rico: uma plateia heterogênea prestigiou os espetáculos e cursos oferecidos de graça.

Olavo Tozzi, 18, viu duas óperas e uma opereta do Festival. “Sou de Palmital, interior de São Paulo, cidade com 22 mil habitantes que quase não tem evento cultural. Desde que me mudei para cá, aproveito tudo que posso”, diz o estudante de medicina. O professor Elias Conceição, 58, foi à ópera pela primeira vez. Ele se interessou pelo gênero ouvindo os grandes tenores e assistindo às óperas rock que marcaram sua juventude, como Tommy e The Wall.

Olavo Tozzi veio morar em Curitiba este ano e prestigiou o Festival de Ópera

Os números ainda não foram levantados, mas o diretor geral do Festival, Gehad Hajar, acredita que o público total passou de 15 mil pessoas, a maioria com até 30 anos. Esta foi a primeira edição em que todas as atrações tiveram entrada franca. “O objetivo é formar plateia, criar um senso de pertencimento à linguagem da ópera. É maravilhoso ver que o Festival atrai jovens”, destaca Hajar.

A estudante de veterinária Laura Stammer, 20, acompanhou o pai Miklos, 66, em dois espetáculos e uma oficina. Ambos se surpreenderam com a diversidade de público e a qualidade dos artistas, mas lamentaram a escassez de oportunidades para irem à ópera em outras épocas do ano. Essa, aliás, foi uma reclamação recorrente. Eley e Carmen Katzinsky, mãe e filha, também se queixaram. “Gostaria de vir com frequência, mas não tem muita ópera”, afirma Carmen, 56, que foi ao Teatro Guaíra conferir o espetáculo homônimo, de Georges Bizet.

Miklos e Laura – pai e filha foram ao Guairão no último dia do III Festival de Ópera do Paraná

De fato, não há ópera confirmada no Paraná antes do próximo Festival, previsto para o final de 2018. Um dos motivos é a longa preparação necessária para montar espetáculos tão complexos. Uma ópera como Cavalleria Rusticana, que abriu o III Festival, depende do trabalho de aproximadamente 200 pessoas (entre corpo técnico e artistas) e planejamento de um ano. Apesar disso, Gehad Hajar afirma que é necessário mais investimento do Poder Público. A falta de edital e orçamento próprios são citadas como obstáculos a um “roteiro operístico” constante.

Hajar conta que Curitiba foi conhecida como a capital brasileira da ópera na década de 1980. Além do engajamento local, o “Guairão” tem o maior número de assentos dentre os poucos teatros com estrutura para receber grandes óperas no Brasil. Hajar ressalta com orgulho que, dos 402 cantores que participaram do Festival neste ano, apenas 8 foram convidados de fora do Paraná. Por outro lado, vê com tristeza a inexistência de um conservatório para possibilitar a formação artística erudita de pessoas de baixa renda. “Temos público, teatro, cantores, instrumentistas, orquestras e obras. Falta só incentivo para popularizar mais a ópera por aqui”.

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