Orquestra de Curitiba trabalha pela difusão da música latina

Há quase cinco anos, um grupo de músicos se dedica a aprender e a ensinar sobre a diversidade da canção popular latino-americana

Por Rebeca Bembem

Em Curitiba, na antiga Faculdade de Artes do Paraná (FAP), hoje Campus II da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), nasceu em 2013 um grupo de músicos dedicados à pesquisa e à difusão da música latina: a Orquestra da Canção Latino-Americana (OLA). O objetivo do grupo é promover o conhecimento e a democratização do acesso à canção latino-americana. A OLA é formada por alunos, ex-alunos e professores da Unespar, além de músicos da comunidade, tanto brasileiros quanto imigrantes latinos.

Além dos instrumentos tradicionais de orquestras europeias, como o violino e o piano, a OLA traz instrumentos andinos, como a flauta de pano, o charango e o cuatro venezuelano. O resultado é um som latino e emocional. O foco do grupo são canções delicadas, compostas pelo que eles chamam de trovadores: músicas que se bastam no palco com um violão, como as de Silvio Rodriguez, compositor cubano em quem a orquestra se inspirou para seu primeiro trabalho.

A OLA trabalha com canções de protesto, muito produzidas nas décadas de 1960 e 70, em que vários países da América Latina passavam por ditaduras (Foto: Rebeca Bembem)

A Orquestra Latino-Americana surgiu da sensibilidade da professora Simone Cit durante uma disciplina sobre canção popular, ministrada por ela na época. Ao perceber que os alunos tinham muito pouco conhecimento da música popular latina, ela decidiu reunir um grupo de instrumentistas que quisessem aprender sobre o assunto e trabalhar com isso. Hoje, a Orquestra tem em torno de 30 participantes. “É o que cabe na sala”, diz Simone. Para uma orquestra tradicional, é pouco. Para eles, é suficiente.

Os ensaios da OLA acontecem às segundas-feiras, das 19h às 22h, na sala 3 do Bloco 1 da Unespar (Foto: Rebeca Bembem)

Cit tentou seguir o modelo da orquestra do Conservatório de Música Popular, onde tocou por muitos anos. O problema era que não havia os mesmos instrumentistas daquela orquestra na Unespar, porque os cursos não são específicos. Como cada artista traz o seu instrumento, não era possível seguir à risca o modelo do conservatório: às vezes não havia dois trombones, só um, nem quatro violinos, só dois, e por aí vai. Eles perceberam, então, que a OLA teria que se adaptar constantemente, de acordo com as pessoas que saíam e as que entravam.

“Essa dinâmica que faz o grupo se manter, não o ideal da formação inicial da orquestra”, sustenta a diretora artística do projeto. “Nós recebemos instrumentistas, independentemente de ser ou não o instrumento desejado numa orquestra padrão, se percebemos que são pessoas envolvidas com a ideia, responsáveis e com competência técnica suficiente para acompanhar o nível dos outros”, completa. Segundo ela, a maioria dos músicos entra no grupo sem entender sobre música latina. A peculiaridade da orquestra é justamente possibilitar que eles aprendam, por meio da pesquisa e da prática.

No momento, a maior parte dos membros da orquestra são alunos e ex-alunos da Unespar, de várias faixas etárias (Foto: Rebeca Bembem)

Simone Cit destaca que foi estabelecido como padrão estético da OLA que os instrumentos seriam os que fossem possíveis. Os arranjos eles dariam um jeito de adaptar. O arranjo é a organização do som para que cada instrumento tenha sua função dentro de um grupo musical. É uma tarefa trabalhosa que necessita de especialistas e investimento de tempo e dinheiro. Na época da criação da OLA, a reitoria da Unespar pagou por esses arranjos. Hoje, os encarregados dessa constante adaptação são três bolsistas do projeto, que cuidam para que a orquestra seja capaz de receber novos músicos.

Os músicos da OLA sentem que têm uma vocação social de tocar para as pessoas (Foto: Rebeca Bembem)

Experiência

João Pedro Schmidt é aluno do quarto ano do bacharelado em Música Popular da Unespar e faz parte da OLA desde o começo deste ano. Ele conta que, antes da OLA, seu conhecimento em música latina era mínimo. “Entrar pra OLA foi ótimo nesse sentido, porque fez com que eu enxergasse todo um universo musical que para mim era desconhecido”, comenta. Para ele, a orquestra também foi essencial para conhecer novas pessoas. Schmidt ainda não sabe se pretende direcionar sua carreira para a música latina no futuro, mas garante que a OLA despertou seu interesse em pesquisar mais sobre o assunto, além de incluir as canções latinas em seus repertórios.

Atualmente, a OLA está focando na música popular uruguaia e em seus instrumentos específicos (Foto: Rebeca Bembem)

Panorama geral

Para Tomás Ramos, primeiro DJ de música latina de Curitiba, apresentador do programa Rádio Espanha na Mundo Livre FM e professor no Centro Cultural da Espanha, o consumo desse estilo no Brasil tem crescido nos últimos anos. Ele complementa que muitos brasileiros conhecem pelo menos alguma banda ou artista hispânico, mesmo que seja mais ligado ao cenário pop, como a cantora Shakira. “O desconhecimento existe em relação à língua. Cantamos em inglês e não em espanhol”, sustenta.

Segundo Ramos, iniciativas como a Orquestra da Canção Latino-Americana são muito importantes, pois enriquecem o cenário cultural. Para ele, a peculiaridade da música latina em relação a outros estilos é que “ella es caliente”, como ele próprio coloca. Ele conta que sua experiência como DJ comprova isso. “Eu toco na noite e as pessoas dançam o hip-hop latino, a salsa colombiana, a cumbia peruana, o reggaeton e se divertem. A música latina passa uma energia divertida”, afirma.

 

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