Partidos do Direito: histórica disputa pela Santos Andrade expõe as divergências políticas na universidade

A greve estudantil do ano passado trouxe à tona a oposição entre partidos e coletivos acadêmicos dentro do curso pela ocupação do Prédio Histórico

Por Pedro Macedo

No ano passado, durante a greve estudantil, a Universidade Federal do Paraná foi palco da ocupação do Prédio Histórico contra a PEC 55 e a MP do Ensino Médio. Chamado por movimentos da direita de invasão e defendido pelos de esquerda como ocupação, esse acontecimento trouxe à tona o engajamento de alunos da universidade através de partidos criados dentro dela, como os do curso de direito.

Atualmente, existem dois partidos no curso: o Partido Democrático Universitário (PDU) e o Partido Acadêmico Renovador (PAR), além do coletivo Alguém Te Perguntou? (ATP). O PAR e o PDU – que possuem uma rixa histórica pelo comando do centro acadêmico Hugo Simas – estão presentes na vida dos estudantes desde o momento em que eles começam o curso. Consideradas divisoras de águas na vida acadêmica, as legendas se opõem em questões tanto do curso quanto da sociedade, e disputam a hegemonia do microcosmo da Santos Andrade.

Um partido plural

O PDU surgiu com um perfil de direita e se manteve assim por um longo período. Mas, segundo a atual presidente, Daiane Rompava, desde 2010 ele vem se tornando um espaço mais plural, com abertura para discussões de diversos temas não discutidos antes, como o feminismo. A tesoureira Caroline Chen Kravetz acredita não dá para afirmar que o PDU é de direita. “Tem pessoas com uma pluralidade grande de ideias. Hoje temos um grupo feminista como novidade no partido”, diz.

Tanto a presidente quanto a tesoureira defendem os movimentos estudantis dentro da UFPR, mas repudiam alguns que veem como radicais. Ainda levando em conta suas opiniões pessoais – não representando a opinião do PDU como partido –  Daiane e Caroline acreditam que as cotas sociais e raciais foram uma coisa boa para a universidade, principalmente no curso de Direito, que experimentou uma mudança extrema na sala de aula. “Ainda falta muito a ser feito, mas é muito bacana esses debates sobre a situação do negro, por exemplo, na faculdade”, conclui Daiane.

O partido nunca puxou um debate sobre as questões afro-raciais na UFPR, mas vem realizando discussões sobre o feminismo e questão da mulher na sociedade, pautas consideradas mais de esquerda. Entre os dias 27 e 30 de março, O PDU promoveu a Semana da Advocacia, trazendo profissionais do Direito para falar sobre o mercado de trabalho e tirar dúvidas dos alunos.

 

Jovem mascarado balança bandeira do anarcocomunismo durante ocupação do prédio histórico (foto: Gabriel Dietrich)

Horizontal, consensual e democrático

 

O PAR teve suas atividades interrompidas durante a ditadura militar, e foi refundado nos anos 90. A partir dos anos 2000, assumiu uma identidade mais de esquerda e progressista. O partido diz basear-se em três princípios: horizontalidade, consensos mínimos, ou seja, pautas históricas das quais não abre mão, e centralismo democrático, que evita algo que o partido qualifica como “criação de facções”. Existem ainda três setoriais básicas: negritude, mulher e LGBT, buscando o empoderamento e a visibilidade dessas minorias.

Bruno Nascimento, membro do PAR, diz que o partido vê como importante o movimento estudantil, pois, segundo ele, “se dependesse só da faculdade, não ia mudar nada [em relação às políticas estudantis da universidade]”.  De acordo com Augusto Rizzo, membro desde 2014, o PAR começou a se mostrar interessado pelos movimentos de estudantes na faculdade principalmente nos anos 2000. “O PAR compôs chapas para o DCE. No conselho que aprovou as cotas na UFPR, haviam dois  paristas“, fala. Augusto ainda conta que a aprovação se deu por conta de dois votos de diferença, mostrando a importância da participação dos membros do PAR nas lutas por melhorias na âmbito acadêmico. Muita coisa mudou, mas Bruno considera que muita coisa ainda precisa mudar, já que vê seu curso ainda muito elitizado.

O PAR se coloca contra todas as formas de opressão às minorias e se considera anticapitalista, fazendo uma crítica a toda a estrutura social e ao sistema econômico em que vivemos, estendendo sua crítica à forma como o ensino se dá dentro da universidade.

Alguém Te Perguntou?

O ATP é um coletivo associado à esquerda. Com apenas um ano de existência, ganhou as eleições do Centro Acadêmico de Direito, fragmentando a disputa nas eleições.

Tanto para o PAR quanto para o PDU, a vitória do ATP se deve ao cansaço da sociedade com o tradicional e o encantamento pelo novo. Assim, para um coletivo com pouco tempo de experiência seria mais fácil ganhar popularidade. Os partidos não vêem como ruim a vitória do ATP, e assumem que isso serviu como motivação para mudar suas estratégias políticas.

O Jornal Comunicação entrou em contato com o ATP, mas o coletivo não respondeu até o fechamento da reportagem.

Ocupação do Prédio Histórico

Tanto o PAR quanto a presidente PDU se mostraram a favor do movimento grevista. Porém, as opiniões sobre o episódio na Santos Andrade divergem.

As representantes do PDU dizem que a assembleia realizada antes da ocupação foi confusa e que pessoas “arquitetaram por trás e assim furaram a assembleia no dia seguinte”. Para Daiane, a questão não é ser a favor ou contra, mas ser legítimo. Ela questiona a postura de membros do “outro lado”. “A esquerda pede tanta democracia, mas passa por cima de uma assembleia. Até que ponto [isso é válido]?”. A presidente e a tesoureira afirmam que foram favoráveis às ocupações de colégios, mas acham que a ocupação do Prédio Histórico foi “violenta demais”.

O PAR, porém, acha que a ocupação foi necessária, pois desde o governo Dilma, o MEC vem cortando gastos na educação pública. Augusto considera que as principais lutas políticas da história sempre envolveram algum momento de desordem que muda o status quo, e que é necessário enxergar que o direito que reforça uma ordem estabelecida também é violento. “Tirar verba da educação não é uma forma de violência também?”, questiona. Para o partido, os estudantes estavam exercendo o direito de lutar pelos seus direitos.

 

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