Paulina Chiziane transmite força e resistência através da escrita

A escritora moçambicana falou sobre a experiência de abordar assuntos considerados tabu em seu país para o público que lotou o auditório da UFPR em Curitiba

Por Mariana Toy

Em maio, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) recebeu a escritora moçambicana Paulina Chiziane para uma roda de conversa com o tema “Literatura, gênero e Africanidades”. Os responsáveis pela organização e apoio foram o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR (NEAB/UFPR), o Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS) e as coordenações e programas de pós-graduação dos cursos de ciências humanas da universidade.

O evento aconteceu no auditório 200, no segundo andar do Setor de Ciências Jurídicas do Prédio Histórico, na Praça Santos Andrade. Durante a palestra, abordou questões como sua forma de escrever, a diferença nas escritas masculina e feminina e a força da mulher. Com a obra Balada de Amor ao Vento, a autora se tornou a primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, na década de 1990.

Paulina contou que, mesmo quando está em meio a uma multidão, consegue ficar só e colocar suas palavras no papel. Conhecida por abordar assuntos considerados polêmicos, a autora diz não ter medo de expor suas opiniões, pois assim consegue modificar as pessoas e a visão machista sobre as mulheres.

“Sou filha de uma mulher poderosa e de um continente poderoso, então continuo reivindicando essa dignidade em minha escrita”, afirmou durante a conversa. Um de seus livros mais famosos, Niketche – Uma História de Poligamia, trata de questões como o patriarcado e o aprisionamento feminino. A obra recebeu o prêmio José Craveirinha em 2003.

Ao fim da conversa, Paulina Chiziane respondeu algumas perguntas a respeito do seu trabalho (Foto: Mariana Toy)
Mercado editorial em Moçambique

O professor do Departamento de História e Antropologia da UFPR, Hector Guerra Hernandez, afirma, baseado em sua pesquisa acerca de Moçambique, que a produção editorial do país é extremamente baixa e que Paulina Chiziane é uma exceção, pois a presença literária é majoritariamente masculina. “São cerca de 1500 exemplares por tiragem, que se restringem a uma classe social e política bem reduzida”, relata.

Segundo Hector, é muito comum e vantajoso o financiamento estrangeiro para a publicação de livros: “Existem poucas editoras em Moçambique e esse financiamento estrangeiro contribui significativamente para a difusão das obras”. Paulina Chiziane chegou a publicar seu livro premiado em 2003 primeiro em Portugal para depois levá-lo a Moçambique. Dessa forma, quando foi lançado no país africano, o livro já possuía credibilidade e reconhecimento.

Durante a roda de conversa, ela pontuou a diferença entre homens e mulheres escritores. Paulina apresenta a situação performada por protagonistas femininas em meio aos livros — a forma como a personagem é descrita e os rumos que ela toma variam conforme o gênero de quem escreve. Muitas vezes, autores homens colocam o gênero masculino um patamar acima do feminino por estarem imersos nessa realidade social. “O patriarcado moçambicano existe, como em vários outros países, e encorajar mulheres a escrever é uma forma de difundir a visão de que elas podem ser águias em vez de galinhas”, afirmou Paulina, fazendo referência à obra de Leonardo Boff, A Águia e a Galinha.

Ao abordar o assunto da diversidade, Paulina falou sobre o preconceito e a intolerância causados pelas diferenças de raça, cor e crença. A escritora, que já foi alvo de racismo, ainda tem esperança de que as pessoas irão perceber a beleza existente na diferença e, assim, passarão a respeitar uns aos outros. “Quando entendermos o mal que fazemos para o outro, seremos muito mais felizes”, apontou.

Paulina disse que sua visita ao Brasil foi muito agradável e que se sentiu extremamente bem recebida pelo povo, como se estivesse em sua própria casa. “Me sinto bem e sempre vou me sentir bem no Brasil, meus antepassados deram o sangue por essa nação, então aqui também é o meu lugar”, afirmou a escritora, encerrando a roda de conversa.

A escritora moçambicana deixou Poços de Caldas às 4h30 da manhã para chegar a tempo à roda de conversa em Curitiba, mas afirmou que o cansaço foi esquecido ao ser tão bem recebida na capital paranaense (foto: Divulgação/Equipa MMO)
Sobre a escritora

Paulina Chiziane é natural da província de Gaza, em Moçambique. Nascida em 1955, a escritora cresceu em uma família na qual as línguas faladas eram Chope e Ronga, e só aprendeu o português quando entrou em uma escola de missão católica. Iniciou os estudos de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, porém não concluiu a graduação. Durante sua juventude, a autora se envolveu com a militância política do país, tornando-se filiada da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), mas por desilusão com os ideais do partido, resolveu se dedicar à escrita.

A autora iniciou seus trabalhos na literatura ao publicar contos na imprensa moçambicana em 1984. Seis anos depois, em 1990, tornou-se a primeira mulher a publicar um romance no país, com o livro Balada de Amor ao Vento. Desde então, Paulina continuou escrevendo e expondo suas opiniões por meio dos livros. Atualmente, a autora vive e trabalha na província da Zambézia e possui nove livros publicados.

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