Pelo olhar da artista: primeira exposição fotográfica de Isabella Glock retoma a arte no retrato

A portuguesa Isabella Glock relata o processo de criação de suas fotografias, incluindo polêmicas, dicas para iniciantes e sua opinião quanto ao espaço da arte no Brasil

Por Natalie Campos

Isabella Glock se junta a mim no chão de uma das salas do Museu de Fotografia de Curitiba, no Solar do Barão. A porta ainda está sem identificação, mas quem já viu ao menos uma foto de Glock reconhece as expostas naquela sala como suas. A portuguesa sem sombra de sotaque equilibra beleza e emoção em suas imagens, marcadas por cores fortes e polêmicas não intencionais. Fotógrafa das baladas curitibanas James e Bar do Simão, ela garante que suas criações são espontâneas, raramente de caso pensado. Com 21 anos, a portuguesa experimenta as sensações de sua primeira exposição.

Jornal Comunicação: Como começou seu interesse pela fotografia?

Isabella Glock: Meu pai é fotógrafo. Inclusive, a primeira sala é da exposição dele. Minha mãe é produtora, então eles sempre trabalharam juntos com isso. A gente morava num estúdio e eu fui crescendo nesse meio. Lá em Portugal, você direciona seu ensino médio para o que você quer: eu estudei artes visuais. Depois, me mudei pra cá e continuei fotografando. Eu sempre gostei de artes em geral, então foi algo natural para mim.

JC: Você veio sozinha para o Brasil?

IG:Com minha família. Meus pais são brasileiros. Conseguiram trabalho em Portugal e acabaram passando 22 anos lá. Voltamos para cá quando eu tinha 17 anos.

JC: Quando você começou a tirar essas fotografias?

IG: Há três anos. Quando cheguei aqui não conhecia ninguém direito, então demorou um tempinho pra eu me adaptar e começar a fazer amigos. Quando fiz, comecei a fotografá-los. O Davi [Von Giller] foi minha primeira foto. Eu o fotografei bastante, mas eu não fiz essas fotos pensando em um projeto. Eu fotografo balada e essas fotos são feitas aleatoriamente quando alguém pede “Isa, faz umas fotos minhas”. Demorou para eu ver que elas realmente tinham uma ligação.

Legenda: “Fui fazer umas fotos dela e ela estava com fome, então fomos ao mercado. Já tínhamos combinado de fazer fotos na banheira, aí pensamos ‘nossa, imagina levar um peixe para as fotos?’ – e levamos.” (Foto: Natalie Campos)

JC: Qual seria a ligação?

IG: Todos são retratos, né. Eu dou muita importância às cores e acho que todas as fotos têm cores que chamam atenção. E também, porque elas saem do convencional: não são fotos de book mas também não parecem ensaios de moda ou algo assim. Eu tento fazer o retrato da pessoa com uma pegada meio artística, que tenha a ver com ela.

JC: Como surgiu a oportunidade de expor aqui no Solar do Barão?

IG: O curador de fotografia chamou meu pai e disse que tinha a primeira e a segunda sala livres. Meu pai gosta das minhas fotos, então me ofereceu. Eu nunca tinha exposto e achei que era uma boa oportunidade.

JC: Como está sendo para você ter suas fotos expostas?

IG: Eu fiquei sem fazer fotos por uns dois anos pela repercussão que as fotos postadas no Facebook tinham. Quando eu postei essa foto do Davi (abaixo) a mãe dele ficou super chateada, falou pro meu pai “como assim fotografa na minha casa com meu filho vestido de putinha?”. Ela é super aberta, mas ficou chocada. Tiveram várias outras fotos que eu me senti reprimida pelos comentários das pessoas, porque elas não entenderam que eu pensei em uma parada artística. Elas acharam que eu fiz só para chocar, polemizar. Minha mãe também não gostava, imaginava o que os outros iriam pensar. Hoje, acho que as pessoas estão aceitando melhor de algum jeito, então quando meu pai me convidou para fazer a exposição aqui eu fiquei meio nervosa com a repercussão, mas agora vejo que é muito bom poder expor. Acho que tem muita gente talentosa aqui em Curitiba que nunca tem oportunidade de mostrar seu trabalho, então me senti privilegiada.

JC: E quanto à sua mãe? A exposição teve algum impacto sobre a forma como ela vê suas fotos?

IG: Ela está aceitando mais. Ela sempre fala “por que você não faz as fotos mais bonitinhas?” ou pergunta por que sempre tem sangue ou algo ligado à violência. É que eu não gosto de deixar as fotos só bonitas, eu gosto que elas passem alguma emoção. É esse o jeito que eu tenho de fazer isso.

JC: Quais são suas influências na fotografia?

IG: David LaChapelle e também os filmes, eles me inspiram bastante. Na verdade, acho que qualquer coisa pode ser uma inspiração se você estiver nesse estado de espírito. Eu tenho déficit de atenção e acho que ficar muito tempo assistindo TV ou conectado no celular gera informação demais e você acaba não captando nada, então é bom passar um tempo na natureza, totalmente desconectado. Quando você volta, parece que tudo é uma inspiração. É mais ou menos isso que eu faço, então sempre tenho fases em que estou muito criativa ou nada criativa.

JC: E quanto à edição?

IG: Eu edito as cores. Não gosto de mudar o rosto, o corpo da pessoa, nem o espaço e os objetos. Eu gosto que fique uma coisa bem espontânea.

 

JC: Qual é o seu processo para fazer uma foto?

IG: Na verdade, eu sempre penso primeiro na maquiagem, em como vai ser, e depois no lugar, que é a parte mais chata. É tipo a foto no mercado: começamos a fazer as fotos na minha casa, só que não estava muito legal. Aí fomos na rua. Tiramos uma perto do mercado, aí a gente decidiu entrar e ficou até ser expulso.

JC: Alguma dica para iniciantes na fotografia?

IG: Ler bastante sobre a história da fotografia, ver fotos antigas de fotógrafos clássicos e assistir filmes antigos. Acho que isso ajuda bastante. Além disso, as pessoas tem que criar uma identidade própria para se destacar porque o que ensinam em cursos de fotografia é sempre a mesma coisa: técnicas e as regras básicas. Mas têm várias fotos de antes de existirem regras e antes da fotografia ser digital em que as pessoas já faziam fotos e já saíam coisas maravilhosas, então acho que a pessoa tem seu próprio olhar e cria suas próprias regras.

JC: Você pensa em voltar para Portugal?

IG: Assim, se acontecesse seria legal. Lá eu acho que as pessoas são um pouco menos conservadoras e estão mais abertas a artes e a coisas mais alternativas, mas não estou planejando fazer isso por enquanto. Demorei para me adaptar aqui e agora estou gostando.

 

Período de visitação vai até 14/05/2017, de terça a sexta das 9h às 12h e das 14h às 18h e no fim de semana de 12h às 18h (Foto: Natalie Campos)

 

 

 

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