Planeta dos Macacos: A Guerra | “Nem todo herói é humano”

A franquia de “Planeta dos Macacos”, chegou ao cinema pela primeira vez em 1968 pelas mãos do diretor Franklin J. Schaffner (que uma década depois iria gravar o interessantíssimo Meninos do Brasil”) e já nasceu clássica. Daí surgiram mais quatro filmes que oscilam entre o interessante e o bizarro, além de uma série de TV. Em 2001 foi a vez de Tim Burton (“O Lar das Crianças Peculiares”) contar a história numa tentativa completamente fracassada de atualizar (e fazer dinheiro) com a franquia. Foi somente dez anos mais tarde que Rupert Wyatt (“O Apostador”) conseguiu entregar um filme que mostrava de forma excelente como os macacos iriam começar a dominar o planeta em “Planeta dos Macacos: A Origem”.

A justificativa deixada no primeiro filme foi complementada na sequência “Planeta dos Macacos: O Confronto” lançada em 2014 pelas mãos do diretor Matt Reeves (“Deixe-me Entrar”) que permaneceu no posto em “Planeta dos Macacos: A Guerra” que fecha a trilogia de forma emocionante. No filme nós acompanhamos César (Andy Serkis, da trilogia  “O Senhor dos Anéis”) enquanto lidera o grupo de macacos para se manter vivo num conflito contra os humanos, liderados pelo inescrupuloso The Colonel (Woody Harrelson da franquia  “Jogos Vorazes”).

Mesmo se sustentando numa trama simples, o longa é carregado de subtextos e camadas que são apresentadas aos poucos durante o filme, de modo que cada cena carrega uma intensidade própria. Reeves demonstra habilidade e domínio como diretor, desde a forma como posiciona os atores até os ângulos da câmera, fazendo com que o público aceite cada uma das sequências do filme. Isso, somado ao roteiro que não deixa buracos, fazem deste o melhor filme da trilogia.

Fonte: Divulgação/20th Century Fox

Ainda no que diz respeito à forma como as cenas são conduzidas, o trabalho de Michael Giacchino (“Rogue One: Uma História Star Wars”) se mostra mais uma vez impecável. Desde quando o logotipo da 20th Century Fox surge no início do filme até a cena final, cada detalhe na trilha sonora do filme ajuda a reforçar o sentimento, criando um clima de tensão que atinge o clímax nos momentos dramáticos e nas cenas de ação. A trilha sonora funciona como uma guia, que complementa o filme, de modo que cada elemento tem seu próprio destaque.

Porém, é na atuação que o público acaba se apegando verdadeiramente. Andy Serkis entrega um de seus trabalhos mais impressionantes, mostrando que o papel de ator pode ser muito maior do que o público está acostumado a ver. Desde quando deu vida ao Gollum na trilogia “O Senhor dos Anéis”, Serkis provou que consegue criar modos de interpretar diferentes criaturas, tornando cada uma única. Neste filme, o ator consegue demonstrar tudo o que César está sentido, suas motivações, seus medos e suas angústias é certamente o seu trabalho mais intenso e merece destaque como uma das mais incríveis atuações do ano no cinema.

 

Matt Reeves ainda aproveita o filme para criar subtextos, o que amplia ainda mais a dramaticidade. Com analogias pontuais a escravidão, preconceito e abuso de poder, o filme consegue se aprofundar muito sem ser pesado ou cansativo. São elementos que o diretor coloca de forma discreta, mas que não passam despercebidos. Como a opção utilizada por Reeves coloca os humanos como vilões, desta vez o maior tempo de tela é dos macacos. Isso funciona para que toda a comoção venha a partir dos acontecimentos que envolvem César e os demais símios que interagem com ele.

O filme ainda conta com um alívio cômico a partir de um novo macaco que aparece pela primeira vez neste terceiro longa e funciona muito bem, tendo também o diálogo mais emocionante do filme durante uma conversa com César.

Por fim temos o vilão, interpretado por Woody Harrelson. Ele funciona como uma espécie de convencimento para a raça humana. Ele sintetiza, de forma exagerada, o desespero por se manter acima dos demais animais, mesmo num mundo pós-apocalíptico. O exagero é quase aceito em determinados momentos, porém um discurso o marca como um vilão. Há algumas motivações, mas Harrelson surge principalmente como a figura que se opõe ao protagonismo do herói. Não trata-se de um personagem raso, porém num filme com tantos subtextos, um clichê tão exagerado destoa da qualidade geral da obra.

“Planeta dos Macacos: A Guerra” é certamente o melhor da trilogia que recria o clássico lançado na década de 1960. Visualmente é impecável e carrega uma carga dramática, emotiva e cômica muito equilibrada. As cenas de ação, as referências a diversos filmes e atuações belíssimas fazem deste o mais intenso dos blockbusters de verão, além de deixar encaminhado, a partir do epílogo lindíssimo, a conexão com um possível próximo filme. É um fechamento digno de grandes clássicos.

Nota: 9,5

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