Polêmica em novo remake de A Bela e a Fera gera censura desnecessária

Orientação sexual de personagem tem destaque exagerado mesmo com abordagem sutil do filme

Por Juliana Firmino

“A Bela e a Fera”, um dos filmes da Disney com maior expectativa deste ano, estreou no Brasil no dia 16 de março, porém as polêmicas a respeito da obra se iniciaram logo no começo do mês. Em entrevista publicada pela revista britânica “Attitude”, Bill Condon, o diretor do longa, revelou que a trama teria um personagem gay. LeFou, interpretado pelo ator Josh Gad, protagonizaria a primeira cena exclusivamente gay da Disney. A declaração fez com que a parcela conservadora da população visse o live-action com maus olhos, o que gerou algumas decisões extremas de censura, mesmo que tenham acontecido de forma isolada.

Trata-se de três casos em países diferentes. O primeiro ocorreu  no condado de DeKalb, estado do Alabama (um dos mais conservadores dos Estados Unidos). O cinema Henagar Drive-In Theatre se recusou a exibir o filme, sob justificativa de que “comprometeria os ensinamentos bíblicos”. Já na Rússia o caso se deu por parte do governo. O deputado Vitali Milonov sugeriu que o Ministério da Cultura, órgão responsável por definir a classificação etária dos filmes no país, revisasse o longa. A recomendação motivou a indicação da idade mínima de 16 anos para o romance voltado ao público infanto-juvenil. Por fim, na Malásia, o presidente do Conselho de Censura do Cinema, Abdul Hamid, disse que o filme está “aceitável para ser exibido”, porém com algumas exceções. Essa declaração fez com que o longa passasse por uma revisão interna e sofresse corte de algumas cenas, tendo a estreia adiada.

O fato é que as reações acerca do assunto foram exageradas. Apesar de algumas publicações terem buscado denunciar a censura, o posicionamento da mídia no geral utilizou uma abordagem sensacionalista. Visou audiência por meio de algo que possivelmente passaria despercebido para vários espectadores, tendo em vista a sutileza com que é representado. O personagem LeFou é um homem bem apessoado e braço direito do vilão Gaston (Luke Evans). Apesar de apresentar uma idolatria demasiada pelo seu chefe, ele não passa de uma figura alegre e divertida, que traz um tom mais cômico do que reflexivo ao filme. “Tem dias que LeFou quer ser Gaston, em outros ele quer beijá-lo. Ele não tem certeza sobre o que quer, é alguém que só agora se dá conta de que tem esses sentimentos”, diz Bill Condon a respeito do personagem.

Sobre a “cena gay”, trata-se de um curtíssimo trecho no final do filme. Durante uma dança, o ajudante se surpreende positivamente ao ser envolvido por outro homem, que  aparece em um momento anterior vestido de mulher. Estes são os fatos que geraram tamanha polêmica, mas que na trama servem apenas para arrancar risadas, pois não interferem na história principal do romance da Bela e da Fera.

Quanto às reações exageradas, elas foram majoritariamente discriminatórias e com justificativas de cunho religioso e moralista. Isso demonstra o tratamento da homossexualidade de forma anormal, defendendo a todo custo as censuras feitas e sugerindo boicotes ao filme. O que mais decepciona, além de todo o preconceito, é a futilidade com que é tratado o caso, visto que, mais uma vez, a abordagem do filme é extremamente sutil.

Entretanto, apesar da sutileza, o personagem tem importância social. Talvez não com tanta representatividade, por ser tão caricato e cômico, mas traz uma pauta atual de forma natural. Além disso, o longa ressalta o caráter do personagem em contraste com a figura machista e inescrupulosa de Gaston. Esta, porém, não é a primeira vez em que a Disney ganha pontos positivos com o retrato de casais homossexuais. Um pouco antes da declaração do diretor sobre o filme, foi exibido no canal Disney Channel, em um dos capítulos do desenho Star x as Forças do Mal, uma cena em um show de música onde vários casais se beijam, dentre eles alguns compostos por pessoas do mesmo sexo. A forma como o assunto  vem sendo tratado pela empresa, com naturalidade, é essencial para que a pauta LGBT seja debatida e ganhe maior visibilidade, diminuindo cada vez mais o preconceito e aumentando a aceitação.

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