Por que o público paranaense rejeita o cinema nacional?

Segundo anuário da Ancine, Paraná é o estado que menos assiste a filmes brasileiros; produções nacionais mobilizam menos de 8% das plateias paranaenses

Por Janyne Leonardi

Colaboração de Vinícius Fin Valginhak

No final de 2016 a Agência Nacional de Cinema (Ancine), responsável por fomentar, regular e fiscalizar o mercado cinematográfico e audiovisual brasileiro, divulgou seu anuário. O documento reúne dados sobre bilheteria, distribuição nacional e internacional, exibição e alcance dos filmes lançados até 2015. Entre as informações regionais, uma se destaca: o Paraná é o estado que apresenta a menor audiência para os títulos brasileiros. Apenas 7,9% do público paranaense que foi aos cinemas em 2015 assistiu a produções nacionais.

Os filmes nacionais correspondem por apenas 7,9% da audiência paranaense, a menor média de público entre todos os estados brasileiros

Para compreender por que o público paranaense é aparentemente desinteressado pelo cinema nacional, o Jornal Comunicação ouviu especialistas e profissionais da sétima arte.

Grafo Audiovisual

A Grafo Audiovisual é conhecida pela produção de diversos curtas e longas metragens ambientados em Curitiba, assim como pela organização do Festival Internacional de Curitiba – Olhar de Cinema, que teve sua sexta edição em junho deste ano. O produtor da Grafo e diretor geral do Olhar de Cinema, Antônio Júnior, vê a baixa audiência do cinema nacional como resultado da falta de investimento público, que gera falta de representatividade. Para Júnior, o paranaense quer ver a si mesmo e os cenários de seu estado nas telas. “Uma porta de entrada para o cinema nacional é o público se enxergar. Ver curitibanos, Curitiba e outras cidades paranaenses na tela. Então, por essa ausência, as pessoas se afastam do cinema nacional”, afirma.

De acordo com o produtor, o problema não para aí. Como a maior produção cinematográfica nacional está no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, as distribuidoras investem nessa região. Quanto maior a produção e distribuição no eixo, mais o público se vê retratado, e com isso vai mais ao cinema. Mas o mesmo não acontece com outros estados. “O Nordeste está recebendo agora mais investimento e a região está em ascensão na produção e no consumo de cinema nacional. A região Norte anda fraca, e no Sul a grande produção e consumo está no Rio Grande do Sul. O estado teve investimento e políticas de incentivo, por isso está mais interessado e é o maior consumidor de cinema nacional do Sul do país”, explica Júnior. “No Paraná não houve uma grande política pública de incentivo ao cinema até hoje, e sim ações isoladas. Talvez seja por isso que as coisas estão como estão”, acrescenta.

Para reverter essa situação, Antônio Júnior acredita em soluções a longo prazo. Segundo ele, o festival Olhar de Cinema foi um sucesso em sua sexta edição, mas em outros estados existem festivais há mais de quatro décadas, que reuniram em sua soma mais de um milhão de pessoas. Além disso, o incentivo à distribuição e exibição de mais filmes nacionais nos cinemas convencionais também afeta a participação do público. “É tudo muito complexo e demorado. Essa cadeia entre produção, distribuição e exibição precisa funcionar integralmente, ou nada funciona. Não adianta produzir e não distribuir ou exibir em lugar nenhum”. O produtor se mantém otimista e afirma que um novo edital de investimento audiovisual no Paraná pode ajudar a reverter a situação em cerca de 10 anos. “A resposta está aqui no Paraná, não lá fora”.

O Anuário mostra que apenas três títulos brasileiros entraram na lista de 20 filmes com maior bilheteria: “Loucas pra casar”, “Vai que Cola – O Filme” e “Meu Passado me Condena” (Foto: Vinícius Fin Valginhak)

No cinema

Para o supervisor de exibição do Cineplex Shopping Novo Batel, Leonilton Mário, o espectador curitibano sente falta de representatividade. De acordo com ele, filmes e novelas ressaltam uma vida de luxo que não é a realidade da maioria dos brasileiros que “precisam ir trabalhar às 6 da manhã”. Além disso, Mário acredita que os curitibanos não gostam de assistir a filmes com sexo explícito, violência, ou seja, temas que fogem de uma esfera séria e formal.

Para João Vitor Rank, que trabalha em uma grande exibidora de filmes, existe outro elemento a ser ressaltado: o perfil de público para produções nacionais e estrangeiras. Ele afirma que quem assiste a longas brasileiros é “mais maduro e superficial” e assiste ao filme porque tem um ator do qual gostam ou outro atrativo semelhante. Por outro lado, quem assiste a filmes estrangeiros – principalmente blockbusters hollywoodianos – é mais jovem e possui uma “mente mais aberta”.

Marden Machado

O crítico de cinema e jornalista Marden Machado analisa a relação do público paranaense com o cinema nacional de um ponto de vista histórico. “Há uma certa rejeição do paranaense e do curitibano pelo cinema nacional. E isso não é de hoje. Acontece visivelmente há pelo menos 20 anos”, assegura. Para ele, é difícil apontar as razões, mas esse fenômeno pode ter relação com uma má fama antiga do cinema brasileiro. “Há a clássica associação de que filme brasileiro é ruim, mal feito, tecnicamente inferior. E isso é uma bobagem, porque o problema não era do filme brasileiro, e sim dos equipamentos antigos das salas de cinema, que eram ruins”. Ele também acrescenta: “outro equívoco é associar filme brasileiro a sacanagem. Nos filmes estrangeiros não é diferente. Eles não são mais sutis. Mas, como a cultura é diferente e o palavrão está em inglês, ninguém se incomoda”.

Machado ainda contraria a opinião de Júnior e Mário sobre representatividade. Para ele, o público brasileiro não gosta de se ver retratado nos filmes, principalmente em situações que mostram o lado mais “feio” da vida cotidiana. “As comédias, por fugirem disso, não têm desempenho ruim aqui em Curitiba. O filme ‘Minha Mãe é Uma Peça’ foi um sucesso. “O brasileiro historicamente gosta de comédias. É seu gênero favorito”, completa.

Para o crítico, o Brasil possui um potencial muito grande para a indústria cinematográfica. Enquanto os Estados Unidos têm apenas dois grandes polos cinematográficos – Los Angeles e Nova York – e os países europeus têm sua produção concentrada em suas capitais, o Brasil conta com diversos locais de produção ativa. “No Rio Grande do Sul, Paraná, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí, Maranhão e Amazonas há polos produtores que falam de situações locais. Em nenhum outro lugar do mundo existe isso. O problema é a distribuição. Esses filmes acabam chegando apenas a festivais, não às salas de cinema convencionais”, destaca Machado.

A solução do jornalista para essa rejeição vem a longo prazo, com as novas gerações. Para Machado, promover o cinema brasileiro nas escolas municipais e estaduais ajudaria a educar e formar um novo público que, no futuro, irá consumir mais cinema nacional. “Um trabalho de discussão e contextualização do cinema brasileiro precisa ser feito nas escolas após a exibição de filmes nacionais importantes”, propõe.

Onde assistir filmes nacionais independentes em Curitiba

  • Cinemateca de Curitiba – Fundação Cultural de Curitiba

Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 – São Francisco, Curitiba – PR, 80510-040

  • Cineplex Batel – Shopping Novo Batel

Alameda Dom Pedro II, 255 – Batel, Curitiba – PR, 80420-060

  • Espaço Itaú de Cinema – Shopping Crystal

Rua Comendador Araújo, 731 – Batel, Curitiba – PR, 80420-000

 

 

SalvarSalvar

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *