Pós-Apocalipse: a Mulher do Fim do Mundo anuncia a que veio

Veio gritar pelas mulheres, pelos negros, pelos gays e por ela mesma

Texto e fotos por Cássia Ferreira

A mulher do fim do mundo, que intitula a canção, disco e show de Elza Soares é o que se pode entender quando dizem que “Todo grande artista molda sua arte à sua imagem”. É possível enxergar o reflexo da história de Elza em cada música deste disco inovador, com um hibridismo de ritmos e letras que nos remete às feridas da contemporaneidade. Composto por 11 músicas inéditas, ela canta sobre negritude, violência contra mulher, preconceito, morte e sexo. Foi a segunda vez que o espetáculo veio a Curitiba e deixou todos impressionados com a performance de Elza e sua nova geração de músicos.

Nomeado de “punk-samba”, apelidado de “samba-torto”, o ritmo que embala o último disco de Elza tem produção de Guilherme Kastrupe e participação de diversos músicos paulistas, aos quais ela se refere no show como “meus moleques”. Com uma acústica perfeita, o som do teatro Guaíra fazia o corpo vibrar, literalmente, e sentir toda riqueza de sonoridade e sobreposições norteada pelos músicos: Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Guilherme Kastrup e DaLua, dentre outros. Uma nova geração que incorporou novos ritmos a seu timbre único, o que  rendeu alguns prêmios da indústria fonográfica.

Abrem-se as cortinas já acompanhadas pela rouquidão que declama “Coração do Mar”, poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. É de arrepiar. Como se nos remetesse aos tempos de escravidão e ao sofrimento dos negros. Elza aparece sentada em seu trono de ferro, com um fundo cheio de sacos de lixo. Essa introdução é seguida pela faixa que dá nome ao show e que faz uma analogia a algo apocalíptico como o fim de um carnaval. A partir da terceira música, “Maria de Vila Matilde”, uma das mais repercutidas, houve quem não se conteve sentado e foi sambar no coro corredor lateral.  A música levanta o tema da violência contra a mulher e ao final dela Elza ressalta a importância da denúncia de violência doméstica pelo disk denúncia 180 “Chega de sofrer calada, tem que gritar, porque gemer só se for de prazer”, entona. Aclamada com palmas e um grito da plateia, composta majoritariamente por mulheres: “Machistas, fascistas, não passarão!”.

Dentre as outras canções, ainda merecem destaque: “Pra fuder”, música escrita para Elza por Kiko Dinucci, personificando toda força e sensualidade da musa. “Benedita” que narra a história de uma travesti negra e ganha um performance no palco de Celso Sim. Emocionaram o público “Comigo”, música feita para a mãe de Elza, e “A Carne”, pela força da letra “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, com ressalva da cantora ao final “Não é a carne mais barata, não deve ser”. Ela se alimenta de aplausos durante o show, e quando todos acham que acabou, retorna com mais dois clássicos da carreira, “Malandro”, lembrando de Garrincha e agradecendo ao Magrão, que estava na plateia, dono do “o torto bar”, por manter um local de memória a “Mané”, e finaliza com “Volta por cima”.

Teatro Lotado para o show (Foto: Cássia Ferreira)

 

Do planeta fome à mulher do milênio

“Calouros em desfile”, era o programa de Ary Barroso na rádio TUPI em 1953, quando Elza se apresentou num palco pela primeira vez. Ao ver a adolescente, mulher, negra, maltrapilha, Ary chegou a duvidar da capacidade da menina de cantar e ainda debochou: “De que planeta você é menina? ” Elza respondeu prontamente: “Do mesmo que o seu, seu Ary. O planeta Fome! ”. E cantou Lama, “se eu quiser fumar, eu fumo / se eu quiser beber, eu bebo…”, de Aylce Chaves e Paulo Marques. Não teve quem ficasse indiferente ao ouvir a força daquela voz rouca, naquele timbre único. “Senhoras e senhores, nasce uma estrela”, redimiu-se e anunciou Ary Barroso.

Na época Elza tinha 13 anos, já era casada e tinha um filho doente. E ainda haviam muitas barreiras adiante. Sofreu a perda de um filho por fome, ficou viúva aos 21. Perdeu outros 4 filhos durante a vida. Sofreu com preconceito quando foi casada com o jogador de futebol Garrincha, o “anjo torto” e grande amor de Elza, como citado em várias entrevistas, o qual conheceu quando foi madrinha da seleção na Copa do Mundo do Chile em 1962. Sob julgamento moral da sociedade, ela foi chamada de puta pelos amigos e colegas de Garrincha, pois quando o conheceu ele ainda era casado. Também a chamavam de “bruxa” por proibí-lo de sair para beber, pois ele era alcoólatra. Além de ter de lidar com o fato de ser uma cantora negra em início de carreira. Garrincha tinha problemas com alcoolismo e não aceitava ajuda. Chegou a agredir Elza, um dos motivos da separação do casal. Também por culpa dele, a mãe e um filho de Elza morreram num acidente de carro, quando ele dirigia embriagado em 1969. O jogador morreu de cirrose em 1983.

A vida seguiu sem tréguas para Elza, que teve sua casa metralhada na ditadura militar e foi obrigada a sair do país em 1970. Foi para a Itália em exílio, onde encontrou Chico Buarque e Marieta Severo. Foram juntos também a Portugal e retornaram ao Brasil em 1972.

Com um filho pequeno para criar, o Garrinchinha, Elza chegou a bater na porta de Caetano, na década de 80 dizendo que ia parar de cantar. Algo inaceitável para o amigo que a acolheu e a ajudou a retomar sua carreira.

Em 2000, Elza foi considerada a cantora do milênio pela rádio BBC de Londres.

 

Não precisa de salto para ser rainha

De Curitiba, é um dos responsáveis por parte da atração do show. Alexandre Linhares, assina o figurino de Elza, por sua marca Heroína. E, mesmo sem poder sambar no marcado salto 15, o figurino da mulher do fim do mundo propõe uma mulher que reina em um cenário pós-apocalíptico, sentada em seu trono de aço, vestida com um macacão preto vinil, com um tom de mulher gato, chifres nos ombros, envolta com correntes que percorrem os degraus do trono como uma grande saia.

Croqui do figurino da Mulher do Fim do Mundo

“O Figurino foi feito ao som do disco. O látex/borracha é a primeira impressão visual que eu tenho quando penso num ambiente em que tudo se acabou, talvez por Mad Max ou por campos em que gatos circulam e nada mais há ali. Originalmente, do ombro sai uma estrutura com chifres (modelados e pintados um a um) e correntes que se encontram na cintura e no pulso. São cachos de correntes. E as correntes se fecham com fechos de jacaré e alças de bolsas. A impressão inicial tinha que ser de reaproveitamento, de que tudo se acabou e o adorno e enfeite foram pedaços de coisas encontradas pelo caminho”, explica Alexandre Linhares.

O estilista que já vestiu Elza “de rosas” na turnê passada tem profunda admiração pela história de superação e pelas bandeiras que a cantora levanta. “Elza Soares é um fenômeno, a maior artista viva do nosso tempo. Como cliente, ela é linda e generosa, te permite criar, te instiga, é ativa no processo. Como musa, ela é uma superestrela, respeitosa, delicada e interessada. Somos amigos, eu a amo”.

 

Força para as minorias

Elza Soares tem soado como um grito das minorias com sua voz rasgada superando dificuldades com muito amor à vida. “Me deixem cantar até o fim”, diz a mulher no fim do mundo. Apesar de não revelar a idade, sabe-se que beira os 80, e que são mais de 60 anos de carreira, Elza diz não sentir o peso dos anos nem carregar mágoas do passado, prefere se concentrar no presente e do futuro diz não saber. “My name is now”, virou seu jargão, e também dá nome ao filme documentário sobre sua vida, lançado em 2014. Ela vive o agora e transcende pela música.

E assim Elza vai se renovando, como na metáfora da fênix, ave que tem tatuada na perna, ela renasce com a música e cada recomeço encara como um novo desafio. É sempre uma história de luta. Mas sem perder a esperança e alegria. Ela faz questão de deixar claro essa capacidade de se reerguer não importa as peripécias da vida. “Eu lutei, eu busquei”, lembra ela no show. Mesmo com 16 pinos na coluna e tendo que deixar de lado o salto 15, leva como lema a música extra que encerra o show: “Reconhece a queda, mas não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”.

 

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