Preta, travesti e “casca de ferida”: essa é a doutora Megg

No dia 30 de março, Megg Rayara Gomes de Oliveira conquistou seu título de Doutora pela UFPR – mas a luta não acaba no fim da defesa da tese

Por Larissa Nicolosi

Uma semana depois de defender sua tese de doutorado, “O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação na UFPR” – com total propriedade de vivência sobre o que dizia -, parecia que a rotina da travesti negra Megg Rayara Gomes de Oliveira estava se estabilizando novamente.

Ela chegou toda de vermelho e, antes de se sentar, foi parabenizada por algumas pessoas que viram sua defesa do doutorado. Seu perfil, narrado com o olhar extasiado de Larissa Nicolosi, para o Jornal Comunicação, começa agora: conheça a Doutora Megg Rayara.

Mas, antes de tudo, preta, bicha e “casca de ferida”.

 

Uma xícara de café com doses de aceitação

Nascida e criada em Cianorte, interior do Paraná, vivenciou a rotina da cidade pequena. Megg tem mais seis irmãos, e viveu uma infância humilde. Sempre soube que não condizia com o gênero masculino, mas demorou para poder ser ela mesma e se construir como a mulher que sabe que é. Ela, diferentemente de muitos casos, não teve resistência familiar nas suas transformações físicas. Até hoje, não houve nenhum empecilho familiar com isso. Emocionada, conta sobre um momento de apoio recebido da mãe, na cidade natal: “Minha mãe tem costume de moer o café no preparo. Eu me ofereci para ajudá-la no serviço e ela disse: ‘não, vai estragar suas unhas!’. Aquilo valeu tanto para mim, foi um pequeno gesto que demonstrou muita coisa”, disse, enquanto mostrava as unhas bem feitas ao gesticular.

Pequenos detalhes fizeram diferença na vida de Megg (Foto: Larissa Nicolosi)

Ela lembrava também de como sempre fora incluída nos passeios e que, para a família, ela é a Megg Rayara. A Megg que ama pulseiras coloridas, que também decide qual vestido vai usar.

Foi crescendo e batendo de frente com as faces do racismo e da homofobia, fora de casa. “A negritude era constituída de forma depreciativa, juntando com o caso da sexualidade. São duas situações que me acompanharam a vida toda. Se esses marcadores podem ser utilizados para me diminuir, também podem ser utilizados para que eu me construa positivamente.” E foi assim que a sua militância pelas causas que enfrentava começou.

 

Como a docência fez-se luz

Megg é a única dos sete filhos a ter formação acadêmica. Ela cursou pedagogia na sua cidade natal, mas nem sequer pensava em ser docente. Não era para ela. Simplesmente.

A coisa mudou no dia em que se deparou com o estágio obrigatório: lecionar para crianças. Foi amor instantâneo, e a partir disso não parou mais. Formou-se em Desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e continua lecionando atualmente.

“Se esses marcadores podem ser utilizados para me diminuir, também podem ser utilizados para que eu me construa positivamente”

Hoje professora substituta de didática na UFPR, Megg dá aula de Arte na Fundação Cultural de Curitiba. Ao ser questionada sobre sua entrada na universidade, conta que foi “escoltada por um pelotão de choque” da representatividade: tinha gente de coletivos negro e lgbt – grupos os quais ela já fez parte –, professores do prédio… ela não sabe exatamente, mas estima que pelo menos oito pessoas acompanharam sua entrada na sala de aula da Federal pela primeira vez.

A docência também trouxe a oportunidade de discutir e pesquisar sobre Racismo e Gênero na universidade. A doutora relembra um fato importante do início da trajetória. “Uma professora disse que eu tinha que ‘descer do palanque’. Ou trabalhava raça, ou gênero. Eu disse que não iria descer de palanque nenhum, porque eu não iria fazer militância, mas sim pesquisa” contou. E desenrolou a história: “ela continuou batendo na tecla de que era impossível fazer uma discussão das duas coisas de forma interseccional, e o meu argumento foi: ‘e a minha existência, onde é que fica?’ Eu sou uma pessoa trans e negra. É a minha identidade ali”.

Através de suas discussões, ganhou carinho instantâneo de alunos que correspondem às classes tratadas, principalmente por enfim se verem representados. Ela conquistou respeito e apoio do corpo docente por trazer à tona a existência do que (e de quem) explica em aula.

Outro ponto importante da sua docência, agora ligado a sua aula na Fundação Cultural, é que Megg viu a compreensão por parte dos pais dos seus pequenos alunos. Recebeu incansáveis sinais de apoio e de respeito, inclusive das próprias crianças – que são livres do olhar maldoso, como ela mesma diz. É uma convivência harmoniosa vinda de ambas as partes. Segundo a professora, as famílias encaram como forma de empoderamento e sabem que o contato dela com os pequenos não é um risco, muito menos reflexo patológico. Travesti sim, preta sim e também uma docente como as demais.

 

As “Dandaras” e a violência ensinada

Ao falar do caso Dandara – travesti que, em fevereiro de 2017, foi espancada e morta por um grupo de homens –, Megg se cala por uns instantes, como se fosse um luto momentâneo pelas mortes ligadas à temática “gênero e sexualidade”.

Ela sentiu na pele mais uma vez a agressão, quando andava nas ruas do Centro e se deparou com dois jovens em situação de rua, que começaram a humilhar sua sexualidade. Mesmo batendo de frente com os indivíduos, que acabaram se escondendo, a situação é comum.

 

“É esperado que a situação mude para que tanta gente não se esconda”

 

“Como que pessoas [os jovens em situação de rua], que são sistematicamente excluídas, conseguem ter ódio por outra população excluída?”, ela mesma pergunta e responde: acredita que essas pessoas possuem um fator a favor, a heterossexualidade. Força total que dá aos indivíduos a ideia de poder e de direito de agressão aos que não se encaixam “na norma”.

Além disso, a violência indireta também acontece. No ambiente político de educação e saúde pública, a legislação é difícil – e falta representatividade. O medo é a resposta, principalmente o fantasma do trauma. que não deixa tantas meninas da minoria ingressarem nesses espaços.

A entrevistada explica que uma forma de “esconder” as minorias é a dificuldade para conseguir coisas mínimas, como o atendimento com endocrinologistas que saibam manipular a dosagem hormonal para transexuais. Além de que tudo depende do atendente cis heterossexual (“cis” é aquele que se identifica com seu gênero de nascimento) que está do outro lado da bancada – e seus preconceitos que podem existir. “Nós não temos força política. É esperado que a situação mude para que tanta gente não se esconda”, reforça ela.

E, dessa vez, nenhum sorriso; só a força de querer mudar.

 

Uma escrita bicha” que continua

Foi assim que sua tese foi descrita pela banca. Seguiu todas as normas comuns, surpreendeu e emocionou cada um dos presentes. Um dos avaliadores denominou o projeto como uma “reinvenção da escrita acadêmica”. Fato reforçado ao saber que a tese de Megg Rayara foi indicada como uma das melhores do ano pelo prêmio CAPES, e virou referência nos estudos de gênero e raça. (Ela conta sobre a conquista com um tom de voz que entra numa linha tênue entre emoção e empolgação)

A tese de Megg virou referência nos estudos de gênero e raça (Reprodução: Samira Chami Neves / Sucom – Universidade Federal do Paraná)

 

Mas, dever quase cumprido.

A travesti ganhou seu título de doutora, mas não acabou aí. Para ela, a tese é uma luta emblemática. Luta de cada um que foi descrito em seu trabalho, e de tantas outras pessoas que vieram depois do título para parabenizá-la e contar sobre suas vidas, seus desafios e o quanto aquele tema clareou sua vontade de continuar. “O doutorado não acabou. Ele continua através da fala dessas pessoas”, conta Megg.

E ela não para. Já pensa no pós-doutorado (também ligado às questões de gênero) e quer continuar ajudando àqueles que vierem procurá-la como apoio, sobretudo docentes homossexuais que se encontraram em cada linha da sua pesquisa.

 

Casca de ferida

A pergunta foi direta: “Quem é a Megg?” Ela descreve a si mesma sem pestanejar: casca de ferida, tinhosa e determinada. Depois de ouvir tantos “nãos”, o empoderamento fez parte da sua vida.

Mas conta que não foi sempre assim. A questão também assombrou sua existência. “Até eu entender que o problema era o preconceito, demorou muito. Não era um castigo duplo. Eu não nasci preta e trans por acaso, nasci com uma oportunidade muito grande de reverter a situação – e eu vou pra cima!”, declara.

E vai mesmo, sem recuar:

“Nos lugares onde as pessoas menos me querem, é onde mais eu quero estar. Minha presença é uma presença política, e eu vou continuar brigando por quem tem medo e por mim mesma. O meu corpo não é uma instituição apenas biológica, mas também é um discurso – e aqui estou.”

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