Procura-se por Corações Sujos

Capa do livro de Fernando Morais editado pela Companhia das Letras. (Foto: Divulgação/Companhia das Letras)

Quando a realidade encontra a ficção. Ou o que parece ficção é a própria realidade. A ordem dos termos não parece alterar a linha tênue entre as duas instâncias. Tudo isso elevando à condição de palco o interior de São Paulo dos anos 40, de Segunda Guerra Mundial e incertezas latentes produzidas pelo maior conflito bélico desencadeado pela humanidade. O livro-reportagem Corações Sujos – a História da Shindo Renmei, ganhador do prêmio Jabuti na categoria melhor reportagem de 2001, do premiado jornalista Fernando Morais – mineiro de nascimento, mineiríssimo no escrutínio de numerosos detalhes – é de enredo tão inverossímil quanto factível. A debruçada valeu ao repórter cinco anos de empreitada.

Abrindo aspas para a “Liga do Caminho dos Súditos”, solenemente conhecida por Shindo Renmei, é a sociedade formada por imigrantes japoneses que se recusaram a aceitar a rendição do Japão frente às potências aliadas na segunda grande guerra. A derrota nipônica foi chancelada pelo imperador Hiroíto. O mítico chefe de estado da nação que carrega o sol nascente em sua bandeira leu uma mensagem transmitida aos quatro cantos, via rádio, em que renunciava publicamente à condição de divindade. As palavras foram escritas de próprio punho, ainda que de forma arcaica e tomada de expressões chinesas de valor aristocrático por vezes distante do grosso da população. A melancolia em forma de poesia decretava a vitória para os EUA e tutti quanti. Hiroshima e Nagasaki. Não para os kachigumi.

Daí em diante o vocabulário não dava margem para a comunidade de japoneses no Brasil querer se entrincheirar em algum lado que não fizesse oposição ao outro. A Shindo Renmei advogava pela existência profética do seu povo, fadado sempre à vitória, “vitoristas”, kachigumi. Já os imigrantes estabelecidos há mais tempo, portanto, um bocadinho abrasileirados em seus costumes, mais familiarizados ao português, que ouviram a sonora do imperador, eram os traidores da pátria, conformistas, makegumi de corações sujos. 1942 foi o ano de fundação da seita que oferecia aos detratores a honra de lavarem a garganta para não contaminarem as lâminas das baionetas que lhes arrancariam as cabeças. Treze meses de terror assolaram São Paulo com um saldo de mais de 31 mil presos, 381 denunciados e 80 japoneses expulsos do país. Juntem-se à contabilidade macabra 23 mortos e 147 feridos escolhidos ao mais alto grau da vendetta oriental.

Thriller dirigido por Vicente Amorim teve ajuda de universidade japonesa em pesquisa histórica para a realização do longa (Foto: Divulgação/Globo Filmes)

 A divisão persiste: fatos pesados de um lado, narrativa fluída por outro

Se nos atentarmos para o fato do Brasil ter testemunhado o episódio trazido à luz por Fernando Morais, responsável pela autoria de Olga e A Ilha, e que investiu nessa pauta durante entrevistas para o livro Chatô, o Rei do Brasil, há sempre o álibi para o bom jornalista quando percebe que boas histórias precisam ser desvendadas e contadas. De preferência, por bons contadores. Fernando Morais conta ao pé do ouvido com as palavras. A leitura, rápida e repleta de detalhes, trazem informações colhidas em meio mundo de entrevistas e arquivos públicos, jornais da época e o escambau que o autor revirou para revelar o que não parece verdade. Houve sessões da assembleia constituinte de 1946 em que a Shindo Renmei era a bola da vez no pinga-fogo dos bastidores e o alvo da retórica nas tribunas. Pesos pesados como Luís Carlos Prestes e Gilberto Freyre também endereçaram considerações. Até caixa dois dos tokkotai – nome dado àqueles integrantes da Shindo Renmei sem dó de meter a mão na massa – para o sabonete Adhemar de Barros produziu faíscas no Congresso. Inclusive há um filme de direção de Vicente Amorim que também tenta explicar quem tinha os corações sujos. Boa leitura.

MORAIS, Fernando. Corações Sujos: a história da Shindo Renmei. 3ª edição.São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

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