Projeto de lei da Câmara prevê segunda-feira sem carne nas escolas municipais de Curitiba

Proposta busca seguir recomendações de OMS e promover debate sobre a qualidade da merenda escolar

 

Por Raisa Toledo e Pedro Macedo

Com colaboração de Luiz Fernando Hanysz

 

A Segunda Sem Carne existe também em outros países e é atualmente adotada por 100 municípios de São Paulo (Foto: Raisa Toledo)

 

Um projeto de lei protocolado no início do mês de agosto pelos vereadores de Curitiba Fabiane Rosa (PSDC), Goura (PDT) e Katia Dittrich (SD) pretende abolir o consumo de carne nas merendas das escolas municipais durante as segundas-feiras. O texto visa adotar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde (MS), que aconselham a troca da proteína animal pela vegetal ao menos uma vez na semana.

A proposta tem como eixos de sustentação a conscientização sobre três aspectos: o sofrimento animal ligado à industrialização alimentar, os impactos ambientais da produção da carne e de seu consumo na saúde humana.

De acordo com os vereadores, a lei beneficiaria a saúde das crianças da rede municipal de ensino, diminuindo as chances de doenças cardíacas e obesidade. Além disso, representaria redução significativa de custos na compra dos alimentos destinados às merendas.

Diante da divisão de opiniões na Câmara dos Vereadores e do debate suscitado pela proposta, Goura considera que o principal papel do projeto tem sido proporcionar uma discussão mais ampla sobre questão alimentar nas escolas municipais, passando de sua qualidade ao modelo de contrato vigente hoje, terceirizado desde 1993. Segundo ele, são frequentes as reclamações de pais e professores a respeito das refeições servidas nas escolas curitibanas – mas a solução passaria por muitas dificuldades. “Muito dificilmente esse projeto vai vingar. A segunda sem carne nesse momento está num segundo plano porque a gente viu que tem um problema muito maior de fundo”, conta o vereador.

Um dos exemplos seria a escassez de proteína animal na alimentação padrão oferecida à maior parte das crianças, que não optam pelo menu vegetariano existente. “Em muitos dos dias já vem sem carne. O que estamos criticando, e isso aconteceu posteriormente a apresentação do projeto, é que a gente precisa rever esse cardápio”, ressalta.

 

Comunidade escolar reage

A proposta e a discussão já chegaram aos ouvidos de pais e professores dos estudantes dos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIS) que, assim como na Câmara, tem críticos e entusiastas.

Liliane Freitas é mãe de um aluno desses centros, e considera que a merenda escolar não apresenta boa qualidade. “Em serviço terceirizado para merenda se perde muito o controle do que é oferecido”, aponta. Sobre a proposta, ela reconhece que a proteína vegetal é tão importante, mas não sabe se substituir uma pela outra traria mudança significativa.

Cinthia de Andrade e Elaine Frazão são professoras em CMEIs e divergem de opinião sobre os possíveis impactos do projeto de lei. Para Cinthia, que reconhece que a alimentação nas escolas tem muito a melhorar, um dia de dieta vegetariana não é o caminho. “Deveria ter mais opções, porque se a criança não gosta de algo fica sem comer. Eu acredito que esse dia sem carne é um desrespeito à vontade das famílias. Existem muitas crianças que só comem carne na escola. O que poderia ser feito é a ampliação das verduras no cardápio”, conclui ela.

Já Elaine não vê o projeto como algo que tire o direito da criança de se alimentar de proteína animal. “Considero que o espaço educacional deve proporcionar experiências diferentes para as crianças, inclusive na alimentação, mostrando que existem diversas opções de cardápio. Isso infelizmente não acontece em grande parte dos lares e a prefeitura tem um poder de alcance muito grande. Se for possível, em um dia, servir uma alimentação melhor, porque não o fazer?”, pontua a professora.

 

Proposta que prevê substituição da proteína animal pela vegetal foi recebida com dúvidas e questionamento na Câmara dos Vereadores de Curitiba (Foto: Ricardo Almeida/Arquivo SMCS)

 

Do ponto de vista nutricional

Para Natércia Ferreira, nutricionista especializada em nutrição clínica e em saúde da criança e do adolescente pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a alternativa tem bases interessantes para promover a saúde das crianças; mas as motivações não são claras. “O que me preocupa é o possível caráter de imposição de questões ideológicas”, pondera. “Porém, acho válido que sejam tomados cuidados no que se refere a favorecer a qualidade nutricional do prato servido e a prevenção de doenças metabólicas”, explica.  

Ferreira compartilha da preocupação de muitos dos críticos do projeto de lei: de que alguns estudantes que frequentam a rede pública de ensino muitas vezes carecem de acesso a uma dieta alimentar de qualidade em suas casas. Por isso, deve ser pensado em como a proteína animal será suprida nas outras refeições. “É importante respeitar a harmonia entre os nutrientes e priorizar os aminoácidos essenciais e minerais como ferro e zinco na alimentação da criança”, conclui.

Caso a proposta seja aceita, a especialista sugere combinar alguma leguminosa (feijão, lentilha, ervilha ou grão de bico) com algum cereal (arroz integral, por exemplo) e adicionar uma fruta cítrica, já que essas frutas aumentam a absorção de ferro nos alimentos – elemento importante para o organismo e necessário para prevenção de anemia.

“O que considero mais importante é que a proteína de carne animal não seja substituída pela soja, já que ela é contraindicada na pediatria, pois favorece a maturação sexual precoce nas crianças, por conter isoflavonas (substância que apresenta semelhança estrutural com hormônios estrogênicos)”, finaliza.

 

Do ponto de vista empresarial

O Grupo Risotolândia, responsável pela distribuição da merenda escolar nas escolas municipais de Curitiba, declarou, em nota, que possui conhecimento do projeto de lei e que estão atentos às informações e novidades que concernem o caso. O grupo afirma que o processo de distribuição das merendas sofrerá poucas modificações, caso o texto da proposta seja aprovado.

A empresa produz mais de 22 mil almoços e serve em média 2,4 mil kg de carne diariamente. Além disso, afirma possuir mais de 300 cardápios variados, incluindo dietas vegetarianas e veganas, e 18 tipos de dietas diferentes que levam em consideração doenças que impedem o organismo de absorver determinadas proteínas.

Segundo a fornecedora, a adaptação das dietas para o projeto de lei dos vereadores de Curitiba deveria, então, ser feita junto com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

 

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