Quase 60% das escolas particulares de Curitiba seguem orientação religiosa

Escolas confessionais dividem opiniões entre pais, professores e alunos

Por Raisa Toledo

Segundo dados da Secretaria Estadual de Educação, 57% dos 63 colégios particulares que oferecem ensino médio em Curitiba são vinculados a alguma corrente religiosa. A estatística não abrange as escolas de ensino especial, ainda que muitas delas também sigam essa linha. A presença de uma doutrina dentro da sala de aula é vista com bons olhos por muitos dos pais que decidem matricular seus filhos, mas também é alvo de críticas.

Para entender a razão do grande número de escolas religiosas, a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Adriane Knoblauch, pesquisadora em Religião e Educação, retoma a necessidade de voltar na história para analisar as relações existentes entre as duas instituições.

Nas igrejas evangélicas tradicionais, como a luterana, batista e a metodista, o processo remonta à vinda migratória ao Brasil na década de 30. Frequentemente acompanhados de organizações religiosas, os grupos migrantes construíam igrejas e escolas em suas comunidades. No caso da Igreja Católica, há o histórico de ter sido responsável pelas primeiras universidades e por formar os primeiros professores, que eram padres.

Enquanto na Europa a cisão entre educação e religião ocorreu como uma decorrência da Revolução Francesa, no Brasil, onde a proclamação da República não teve o mesmo peso, Adriane coloca que, apesar da Constituição laica, a cultura brasileira ainda é religiosa, motivo pelo qual escola e igreja ainda encontram-se entrelaçadas.

A experiência

Muitos podem ser os motivos que levam à escolha de um dos 36 colégios religiosos de Curitiba. Em vários casos, prevalece a opinião de que nessas instituições o ensino tem maior qualidade, o que deixará o jovem mais preparado para o vestibular e para o mercado de trabalho. Em outros, é o desejo dos pais que o filho esteja em contato com valores considerados importantes para a vida em sociedade.

Foi o que contou para Uzias Alves, que matriculou a filha no Colégio Adventista, mesmo não seguindo a mesma religião. Ele considerou que os possíveis valores veiculados na escola estavam em harmonia com os de sua família. Na busca por dar uma base sólida e equilibrada a sua filha, ele acredita que o resultado que foi satisfatório. “Algumas vezes se excederam um pouco na ênfase de alguma doutrina específica dos adventistas, mas corrigimos em casa e ensinamos nossa filha a contra-argumentar”, reflete Uzias.

Segundo Adriane, atualmente as práticas confessionais não são mais tão diretas. Enquanto algumas restringem o ensino religioso a suas práticas, a especialista enfatiza que nessas situações os pais são previamente avisados, e estão cientes ao matricularem os filhos. No geral, o ensino religioso é obrigatório como disciplina com a proposta de explorar diversas religiões e trabalhar a tolerância em sala de aula.

Quem passou seus anos de adolescência dentro de algum desses colégios tem uma experiência singular. Giovana Deconto foi estudante de duas escolas católicas, e guarda lembranças divididas. Pôde participar de pastorais e peças de teatro organizadas pelas freiras de uma delas, atividades das quais gostava muito, mas considera que teve seu ensino prejudicado pelas ideologias. “Havia muito moralismo. As orações e missas não causavam desconforto, mas  houve casos comigo de professores que demonizavam a homossexualidade e se recusavam a ensinar por preconceito”, recorda a estudante.

Seu colega, Tarik Samy, seguia a religião muçulmana quando cursou o ensino médio, e relata que não sofreu nenhuma discriminação além de um tratamento um pouco diferente em relação aos estudantes que tinham feito a primeira comunhão. “O respeito sempre prevalecia. Tínhamos aula de ensino religioso, que era boa pois não tinha foco em uma religião e o professor não glorificava nenhuma. A qualidade do ensino era boa, passei no vestibular que eu queria e eles sempre incentivaram os alunos a estudar muito”, conta Tarik.

 

Afinal, as escolas religiosas doutrinam?

De acordo com Erol Francisco Skroch, professor de educação física que lecionou em três colégios confessionais de Curitiba, o que se sobressai são os pontos negativos das práticas religiosas dentro das escolas. “A escola religiosa é muito dicotomizada, muito certo ou errado, e o ser humano é mais complexo do que isso. Muitas delas ignoram a possibilidade da criança se manifestar”, aponta. Ele considera que apresentar a religiosidade e a espiritualidade de formas enquadradas como nas religiões pode prejudicar a capacidade de questionamento dos jovens.

Outro fator importante para o professor é a ausência do incentivo à reflexão e ao pensamento crítico, que seriam desvalorizados em detrimento dos princípios morais, o que poderia influenciar na formação da opinião dos estudantes sobre determinados assuntos.

Adriane não compartilha da mesma opinião. A pesquisadora acredita que as novas formas de socialização trazidas pelos avanços tecnológicos e pelo modo de vida atual mudaram a forma com que a religião é vivenciada pelas pessoas. “Se a pessoa diz que é batista, isso não quer dizer muito. Ela conhece o pastor batista, mas vai na missa com a amiga, compra o CD da Canção Nova… Quase podemos dizer que cada um faz sua religião individual, não é uma coisa tão mecânica. A cabeça do jovem não é feita mais em função da escola, da família e da igreja”, aponta.

O mais grave, na opinião dela, são outros caminhos que a religião encontra para dentro das escolas, mesmo as não confessionais. Esse quadro é encontrado em situações em que os professores orientam seus discursos baseados em preceitos religiosos pessoais. Evitar livros com determinadas temáticas, não trabalhar com a teoria da evolução ou tentar disciplinar crianças com argumentos religiosos são exemplos delas.

A diferença, explica Adriane, é que na disciplina de ensino religioso há orientação e planejamento, enquanto as práticas pessoais dos professores fogem do controle. “A religião acaba entrando na escola sem que ela perceba”, conclui a especialista.

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