Quem controla o seu computador? Confira palestra do criador do sistema GNU em Curitiba

Para ativista norte-americano, são as grandes empresas de tecnologia controlam os computadores dos usuários, deixando-os sem autonomia sobre sua própria máquina

Por Pedro Macedo

Na sexta-feira (02), o auditório do Setor de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estava lotado de universitários. O motivo foi a visita de Richard Stallman, ativista estadunidense fundador do movimento Software Livre e do sistema operacional GNU. Intitulada “Free Software and Your Freedom”, a palestra falava sobre a defesa da liberdade do usuário no âmbito da informática.

O evento foi organizado pela Comunidade Curitiba Livre, pelo Centro de Estudos de Informática da UFPR e pelo Departamento de Informática da UFPR. Além de passar por Curitiba, o ativista realizou uma palestra na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em Belo Horizonte, e lotou um auditório na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior do estado de São Paulo. Stallman também é fundador da Free Software Foundation (FSF), organização não-governamental que promove a liberdade universal de estudar, distribuir, criar e modificar os softwares através dos códigos de programação.

 

Rafael Henrique Rossato, estudante de Ciências da Computação no campus da UFPR em Jandaia Sul, enfrentou 7 horas de viagem junto com mais 26 estudantes e dois professores para conhecer Stallman. Ele conta que a iniciativa de participar da palestra partiu dos próprios professores da universidade. Para Rafael, é importante que o aluno de graduação participe de eventos como este para sair um pouco do seu mundo acadêmico. “O Richard Stallman foi uma pessoa bem marcante para a área de ciência da computação”, conta Rafael. “Por causa disso, fiquei bem interessado para poder vir, saber um pouco mais sobre a área de atuação do curso”, finaliza.

Paulo Henrique Santana, membro da organização, já tinha assistido a uma palestra de Stallman em 2012, quando ainda era universitário (foto: Samira Chami Neves / SUCOM UFPR)

Paulo Henrique Santana, membro da organização e da Comunidade Curitiba Livre, conta que essa é a segunda vez que Stallman marca presença na UFPR. Ele veio em 2012, e palestrou no auditório da Administração. A vinda de Stallman para Curitiba foi resultado de uma parceria com a UFPR: “Como a gente já tem o contato do departamento de informática, pedimos apoio para reservar um novo auditório para o evento”, conta Santana. Para ele, a palestra foi bem didática e que pessoas que não conheciam o movimento Software Livre puderam aprender bastante.

Toda organização trabalhou em prol de manter a filosofia do movimento. Para isso, um dos pedidos feitos ao público é que não fossem postadas fotos da palestra em redes sociais como Facebook e Instagram, um pedido pessoal de Stallman. O ativista concorda que sejam publicadas em redes sociais que partilham da mesma filosofia do Software Livre, como a Diaspora. Stallman também não utiliza qualquer serviço que obrigue o usuário a se identificar e que colete dados pessoais para usos posteriores, como cartões de crédito, Uber, YouTube, serviços Amazon e serviços de streaming, como Netflix e Spotify.

 

Mas afinal, o que é software livre?

O movimento software livre foi criado em 1983 por Stallman para defender a autonomia e liberdade do usuário. De acordo com ele, é uma ilusão pensar que os usuários comuns realmente controlam seus computadores. Ao contrário, o computador é que controla o usuário. E quem tem poder sob esse computador são as grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e Apple. Isso ocorre porque não temos acesso aos códigos fonte dos softwares que comandam o funcionamento do computador. Sabendo disso, Stallman desenvolveu um sistema operacional diferente, onde o usuário poderia ter acesso aos códigos-fonte, estudá-los ou modificá-los da forma que quisesse, e até mesmo distribuí-los sem restrições. Esse sistema operacional ficou conhecido como “Projeto GNU”.

Perto dos anos 90, para completar o projeto,  surgiu a necessidade de um núcleo (kernel), uma ponte entre os aplicativos e seu processamento pelo hardware, que são os componentes físicos do computador. Depois de assistir uma palestra do Stallman, o finlandês Linus Torvalds decidiu tornar o seu projeto Linux um software livre – o que acabou sendo o núcleo essencial que faltava para completar o Projeto GNU. Muitas pessoas, porém, confundem e chamam o sistema operacional apenas de Linux, o que, de acordo com Stallman, retira todo o crédito dos desenvolvedores do Projeto GNU e dá visibilidade apenas ao Torvalds. O correto, então, é chamar de GNU/Linux ou GNU+Linux.

 

Tipos de liberdade do software livre

Para identificar se o programa é um software livre, existem quatro níveis de liberdade que precisam ser garantidas ao usuário. A Liberdade 0 é a aquela onde o usuário pode executar o programa da forma que ele quiser. Já a Liberdade 1 se caracteriza por ser possível acessar o código-fonte do software, podendo estudar e alterar esse código como bem entender. Na Liberdade 2, o usuário pode fazer cópias de um programa de computador e redistribuir essas cópias para qualquer pessoa. Na Liberdade 3, o usuário tem ainda o direito de redistribuir aquelas que tiveram seu código-fonte modificado pelo próprio usuário.

Richard reforça a importância de diferenciar o software livre do open source – código aberto. Apesar de o código aberto ter sido criado por pessoas que faziam parte do movimento Software Livre, os dois partilham de princípios diferentes. De acordo com Stallman, o código aberto não fala sobre a liberdade do usuário, mas fala apenas sobre a melhoria da qualidade do software. Com o código aberto, apesar do usuário ter acesso ao código dos programas, ele não pode executar versões modificadas em alguns casos.

 

O problema das redes sociais

“O problema das redes sociais é que elas acumulam dados pessoais e espionam as pessoas”, argumenta Stallman. Entretanto, o ativista assume que existem algumas ferramentas no Facebook, por exemplo, que exigem o uso de softwares proprietários, ou softwares não-livres. Ele afirma que a questão da vigilância e do uso do software livre são diferentes. Ao oferecer um software não-livre, essas grandes empresas podem espionar as pessoas, o que, segundo Stallman, não é necessário. “Na ciência da computação, existe mais de uma questão ética, assim como existe mais de uma questão ética na vida. É um erro tentar reduzir esses dois problemas, por exemplo, em uma única questão”, completa Richard durante a coletiva.

 

Obstáculos e como ajudar

De acordo com Stallman, a “inércia social é um dos grandes obstáculos”. Ele admite ser difícil mudar o jeito que as pessoas utilizam o computador. Mais difícil ainda é mudar os sistemas operacionais e fazer o necessário para rodar o software livre, já que muitas pessoas ainda consideram complicado mexer com esses programas. Para Stallman, as faculdades na área de informática deveriam começar a usar unicamente o software livre. Assim, as grandes empresas teriam que se adaptar para essa nova realidade.

Para popularizar o movimento, o ativista espera que os programadores desenvolvam software livre e que ajudem outros usuários a utilizá-los e modificá-los. Outro fator importante são os eventos sobre o assunto, como as palestras em universidades. Também é fundamental não confundir o  movimento com código aberto (open source), chamando-o apenas de Software Livre (Free Software).

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