Recorta e cola. Uma arte que transforma o velho em belo

A colagem não é só uma brincadeira que se aprende na escola, é uma forma de ressignificar imagens

Por: Jessica Skroch

A colagem manual é uma técnica artística que faz composições a partir do aproveitamento de diversos materiais com texturas, cores e formas diferentes, que são sobrepostos e colados em alguma superfície. Recortes de revistas, papéis, fanzines, tecidos, ou até rótulos de embalagens podem ser selecionados, aprimorados e realocados para construir uma nova narrativa visual. O estilo utiliza o objet trouvé (objeto encontrado, em francês), termo das artes plásticas para designar aquele objeto que não foi produzido com o objetivo artístico, mas que adquire valor estético quando está em uma obra de arte. Arte e reciclagem andando juntas.

A colagem tem raízes muito antigas, que se manifestam desde a invenção do papel na China em 200 a.C, o uso de cola nas pinturas egípcias e o mosaico dos gregos e romanos antigos. Mas o primeiro movimento artístico a usar a colagem com papel foi o cubismo. O primeiro colagista é George Braque, com a obra “ Fruteira e Copo” de 1912. Pablo Picasso também encontrou na colagem uma maneira de decompor um objeto em vários pontos de vista, com Copo e Garrafa de Suze” (1912). A técnica artística passou por outros movimentos, como surrealismo, futurismo, dadaísmo e pop art.

“Copo e Garrafa de Suze”, 1912. Pablo Picasso

Segundo Priscila Vasconcelos, pós-graduada em Arte Contemporânea pela Universidade de Coimbra, a colagem contemporânea reúne elementos diversos da expressão gráfica para retratar o panorama atual, explorando novas formas e ferramentas criadas pela sociedade da informação e pelos novos meios digitais. Apresenta-se como uma “técnica atemporal que utiliza de recortes do que já foi e torna-se um novo registro que costura o presente, o passado e o futuro”, explica Vasconcelos.

Colagem em Curitiba

Em 2016, um grupo formado pelos artistas Amorim, Bomju, Catenzaro, Cintia Ribas e Mário de Alencar criou o Clube da Colagem de Curitiba (CCC) para incentivar, estabelecer diálogos e conhecer a produção da arte na cidade. Adriano Catenzaro, um dos fundadores do clube, explica que a ideia era “dar espaço para que as produções pudessem chegar no público, já que a colagem não encontra muito espaço no mundo das artes”. Os colagistas do clube se reúnem para organizar ações, exposições e oficinas. O CCC já realizou a curadoria de duas exposições de colagens e possibilitou a descoberta de muitos artistas do estilo em Curitiba, por meio dos editais do clube.

“Perigo, perigo, por todos os lados”, 2006. Colagem papel sobre papel. Mário de Alencar

Os artistas

“Curitiba Fineart”. Por Catenzaro

Catenzaro considera que o significado de suas obras são histórias contadas pelos recortes colados. Uma história que ele ainda não sabe direito até finalizar a criação. Uma história que será diferente para cada olhar. Segundo o artista, é impressionante que as pessoas possam admirar um trabalho feito com algo que elas desprezariam e jogariam no lixo. “É um novo olhar sobre o mesmo material”, pondera. Inspirado na arquitetura, nos detalhes e formas das estruturas, o colagista parte da escolha das cores, formas e texturas para orientar sua produção. Utiliza embalagens de perfumes e cosméticos, papéis especiais que garantem a fidelidade das cores e tecidos. “Cada projeto demanda um tipo de material diferente ou cada material diferente demanda um tipo de trabalho”, brinca.

“Gargalhando”. Por Catenzaro

 

“Plataforma”. Por Catenzaro

Mariana Benevides mora em Curitiba e conta que há bastante colagem na cidade. Benevides viu uma obra do artista Mesineto que continha duas crianças e um céu colorido ao fundo e ficou com essa ideia na cabeça. Comprou revistas e saiu picotando e montando. Como sempre gostou de estrelas e planetas, começou a usar enciclopédias do espaço para suas obras.

“Feelings are stubborn”, 2016. Mariana Benevides

 

“Always daydreaming”, 2014. Mariana Benevides

A artista não gosta de fazer nada no digital, é tudo na mão mesmo. Suas principais aliadas são as revistas antigas, a cola bastão e a tesoura. Para Mariana, a colagem é um catalisador de seus sentimentos, o que, segundo ela, tem até um efeito terapêutico de curar a tristeza: “Nas crises de depressão, era uma válvula de escape, eu sentia que eu tinha produzido algo. E algo legal.”

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