Saiba como o patrimônio dos vereadores aumentou após um único mandato

Bens de vereadores curitibanos cresceram em média 52% de 2012 a 2016, mas há quem tenha ficado no vermelho

Por Plínio Lopes, com colaboração de Débora Sögur Hous

Dentro da Câmara Municipal de Curitiba (CMC) as diferenças econômicas são grandes. O patrimônio somado de três vereadores —Paulo Rink, Felipe Braga Côrtes e Julieta Reis— vale mais que a soma de todos os bens dos demais companheiros de casa legislativa juntos. Isso não significa que as finanças dos colegas na câmara estejam mal. Dos 38 vereadores, 18 aumentaram suas posses, cinco deles superando a casa dos 100%, ou seja, mais que duplicando o valor de suas propriedades. Esses dados foram obtidos pelo Jornal Comunicação na declaração de bens que todos os candidatos devem fazer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antes das eleições.

De acordo com o Portal da Transparência da CMC, o salário bruto dos vereadores de Curitiba é de R$ 15.156,70 por mês. Após os descontos do imposto de renda e da previdência, o vereador recebe aproximadamente R$ 11 mil. Em quatro anos de mandato, isso dá R$ 528 mil limpos na conta. Além disso, muitos políticos possuem outras fontes de renda, como empresas. É por isso que nem toda evolução patrimonial é ilegal ou feita exclusivamente com o dinheiro recebido pelo cargo público. Entretanto, monitorar o patrimônio dos nossos representantes é importante para saber se sua atividade legislativa é isenta de interesses e lucros pessoais.

A campeã no aumento do patrimônio foi a vereadora Julieta Reis, que declarou possuir R$ 46.532,00 em 2012 e, em 2016, afirmou ter R$ 1.336.500,00 — um aumento de mais de 2000%, considerando a correção da inflação do período. Nesses quatro anos, a vereadora declarou dois imóveis: uma casa em Curitiba, avaliada em R$ 700 mil, e um apartamento em Matinhos, avaliado em R$ 500 mil. Ela também adquiriu dois veículos: um ônibus Mercedez Bens ano 1990 e uma Kombi.

Procurada pela reportagem, a vereadora afirmou que sempre possuiu esses bens, mas que eles constavam como do marido; com a morte do cônjuge no ano passado, os bens foram transferidos para o seu nome.

Infográfico: Plínio Lopes

Outro vereador que teve um aumento percentual expressivo é Toninho da Farmácia. O patrimônio dele cresceu 1960%, saltando de R$ 15 mil em 2012 para R$ 393 mil em 2016. Há cinco anos atrás, ele possuía apenas um ônibus —avaliado justamente em R$ 15 mil— e era sócio da empresa Carmo Farma Farmácia e Perfumaria. Quatros anos e um mandato depois, ele manteve o ônibus original, adquiriu outro ônibus e adicionou mais dois veículos na garagem: um Fiat Palio, em nome da esposa, e um Mitsubishi Pajero Sport. Além disso, uma casa também foi declarada em 2016, avaliada em R$ 180 mil, e ele deixou de ser sócio da farmácia.

Em entrevista, Toninho da Farmácia explicou que já possuía a casa em 2012, mas não podia declarar o imóvel ao TSE porque ele estava num local irregular, a Vila Verde III. Em 2016, com o terreno regularizado, ele o declarou. Em relação aos veículos, o vereador mostrou as declarações de imposto de renda da esposa, da filha e os documentos dos carros para comprovar que os automóveis e ônibus já pertenciam à família antes da eleição, mas que foram declarados em seu nome apenas em 2016. De acordo com o parlamentar, essa mudança nas declarações aconteceu porque sua esposa e sua filha deixaram de trabalhar.

 

Os mais ricos da Câmara

Os casos relatados acima não são dos vereadores mais ricos, esse título fica com Paulo Rink, que tem um patrimônio de R$ 9 milhões, divididos em casas, terrenos, aplicações financeiras e outros bens. Apesar da grande quantia, o vereador não enriqueceu, pelo contrário, seu patrimônio encolheu 5,9% nesses quatro anos.

Antes de ser vereador, em 2012, Paulo Rink foi jogador de futebol e atuou por diversos clubes como Atlético Paranaense, Paraná, Santos e também pela seleção da Alemanha, disputando a Eurocopa 2000. O gabinete do vereador não respondeu às tentativas de contato da reportagem.

Infográfico: Plínio Lopes

Em segundo lugar, o vereador Felipe Braga Cortes aparece com um total de R$ 3,8 milhões em 2016, um aumento considerável de 143% desde 2012. Nesse período, o vereador adquiriu uma Lancha Ventura V230 e mais de R$ 800 mil em ações de empresas.

De acordo com a  assessoria, Felipe Braga Cortes e a sua esposa realizaram a venda de alguns bens com preço atualizado no mercado. Um exemplo foi um terreno, que teve uma casa construída, e foi vendido – como parte do pagamento, o vereador recebeu dois apartamentos que estão alugados atualmente.

Além disso, o segundo vereador mais rico de Curitiba ainda possui outra fonte de renda: um estacionamento, que fica na Avenida Silva Jardim. Outro ponto interessante, é que Braga Cortes optou por não receber o salário de vereador pela Câmara. A assessoria informou que “o vereador não recebe da Câmara e por isso não consta no Portal da Transparência, ele recebe pelo Tribunal, a opção lhe é assegurada por Lei por ele ser servidor concursado”. De acordo com o Portal da Transparência do TCE-PR (Tribunal de Contas do Estado do Paraná), o salário médio do vereador, em 2016, foi de R$ 21 mil reais já descontados os impostos.

No vermelho

Oito vereadores tiveram uma baixa nas suas posses. Beto Moraes acumulou uma perda de cerca de R$ 686 mil em quatros anos, cerca de 78%. Já Cacá Pereira perdeu R$ 410 mil, o equivalente a cerca de 58%, no mesmo período. O terceiro vereador que mais teve perda de bens foi Mauro Bobato, com R$40 mil, aproximadamente 36%.

O vereador Cacá Pereira tinha, em 2012, oito veículos —entre eles, três carros da marca Corsa e uma carreta. Em 2016, o vereador declarou possuir apenas dois veículos, um Chevrolet Cobalt e um trator da marca Scania. Em entrevista, ele explicou que precisou vender seus bens porque se divorciou e se endividou. “Quis ajudar todo mundo e tirei do próprio bolso. Também fiz alguns empréstimo que caíram em juros de mais de 10% ao mês e não consegui mais pagar”, afirmou. O parlamentar ainda contou que, antes de ser eleito em 2012, possuía dois empregos onde recebia mais do que o salário como vereador. “Eu estava acostumado com um salário maior e tinha minha mulher que ajudava nas despesas de casa, agora meu salário fica quase todo retido para pagamento de dívidas”, disse.

Já o vereador Beto Moraes possuía, em 2012, duas casas, avaliadas em R$ 340 mil, e quatro veículos, avaliados em R$ 190 mil. Em 2016, ele declarou possuir apenas três carros, avaliados em R$ 192,5 mil. O gabinete do vereador não respondeu às tentativas de contato da reportagem.

Investigação do Ministério Público

A 2ª Promotoria de Justiça de Proteção ao Patrimônio Público de Curitiba, no Ministério Público do Paraná, está investigando um vereador que, supostamente, teve uma evolução patrimonial ilegal. Segundo a promotoria alguns parlamentares também são suspeitos de reter parte do salário de assessores e de possuir servidores fantasmas. No total, oito vereadores são investigados, que seguem em sigilo de justiça.

Balanço patrimonial

Considerando somente os vereadores que exerceram o cargo em 2012 e em 2016, o valor somado dos bens no primeiro mandato era de R$ 15.468.444,91 e passou para R$ 23.581.118,76 em 2016. Um aumento de 52% num período de quatro anos. Os investimentos preferidos dos parlamentares foram 36 veículos, entre Kombis, ônibus e automóveis; 22 terrenos; 13 casas e 15 apartamentos em Curitiba e nas praias.

Confira os bens dos vereadores de Curitiba em 2012 e 2016:

 

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