Santa Casa de Curitiba foi o primeiro hospital da cidade e tem 165 anos de história

O Hospital Santa Casa de Misericórdia foi, por muitos anos, o único hospital de Curitiba – e proporcionou o estudo científico da medicina na cidade desde sua fundação

Por Rebeca Bembem / Fotos de Pedro Macedo

O relógio da torre do edifício da Santa Casa foi importado de Hamburgo, Alemanha, no século XIX (Foto: Pedro Macedo)

 

“A História da Santa Casa como primeiro hospital confunde-se com a História de Curitiba”,  é o que diz a apresentação do livro intitulado Santa Casa, publicado em 2002 pela Editora Universitária Champagnat, vinculada à Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e que conta a história do primeiro hospital de Curitiba. O prédio atual da Santa Casa, na Praça Rui Barbosa, demorou em torno de 13 anos para ser construído e foi inaugurado em 22 de maio de 1880. Entre os presentes na cerimônia, estava o imperador Dom Pedro II, que passava pela cidade.

O Hospital Santa Casa de Misericórdia de Curitiba tem muitos pioneirismos: foi o precursor do estudo científico da medicina na cidade antes mesmo na fundação da Universidade do Paraná (atual UFPR), em 1912; foi onde se instalou o primeiro elevador do Paraná; e foi ali também que aconteceu, em 1907, a primeira cesariana do estado. Hoje, o prédio de 137 anos convive muito bem com o século XXI. De acordo com a  instituição, possui 217 leitos, 280 médicos e realiza, em média, 800 cirurgias por mês e 150 transplantes por ano. O hospital que nasceu com 160 leitos acompanhou as mudanças que vieram com o tempo.

O Hospital Santa Casa abriga o primeiro elevador do Paraná: ele era puxado manualmente para subir os dois andares do prédio (Foto: Pedro Macedo)

Arquitetura

O Hospital Santa Casa cresceu ao longo do tempo e novos blocos foram construídos. Nos últimos anos, a parte antiga do edifício passou por um processo de restauro. Segundo Claudete, a intenção não foi a de alterar nada, mas de reconstituir a estrutura original. “Eles colocaram tábuas novas no piso, mas sempre tentando manter o mais parecido possível [com o que era antes]”, exemplifica.

Para a arquiteta, doutora em História e professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Elizabeth Amorim de Castro, falar sobre o estilo artístico do edifício da Santa Casa é uma tarefa muito simplista. “Arquitetura não é só a fachada. Pelo contrário, é muito mais sobre a função”, afirma, “o prédio não foi feito para se adequar a um estilo nem para ser bonito, ele foi feito para ser um hospital”.

A essência das diferenças entre um hospital de 137 anos atrás para os grandes complexos dos dias de hoje são os avanços da medicina. Elizabeth relata que, naquela época, os hospitais se organizavam em grandes pavilhões horizontais, o que não acontece mais. Atualmente, com o objetivo de se compactar para se adequar ao espaço urbano, os edifícios hospitalares tendem a se verticalizarem.

E ela assegura que muito mais relevante que tratar sobre o estilo artístico da Santa Casa é falar sobre o impacto urbano de uma construção desse porte na Curitiba de 1880, em que a atual praça Rui Barbosa era “o fim do mundo”, como ela própria apelida – e aos poucos foi puxando o crescimento da cidade.

O imperador Dom Pedro II, em seu discurso de inauguração da Santa Casa, em 25 de maio de 1880, afirmou que o hospital era bom, mas que ficava muito longe do centro da cidade – naquele tempo, a Praça Santos Andrade. (Foto: Pedro Macedo)

Humanização

Claudete Gonçalves da Silva, assistente de Pastoral do local, também assegura o compromisso com o tratamento humanitário dos pacientes. “A Santa Casa nasce como missão, voltada principalmente ao atendimento dos mais necessitados”, destaca. Essa preocupação com a humanização do ambiente hospitalar permanece até os dias de hoje, buscando a “compreensão do ser humano em todas as suas dimensões: física, psíquica, social e espiritual” (de acordo com o site da instituição). Para Claudete, o hospital sempre teve uma presença muito forte da religião.

Para administrar esse cuidado, o setor realiza assistência espiritual inter-religiosa para pacientes e acompanhantes. Um padre capelão visita e celebra missas na Capela três vezes por semana: nas terças e quintas às 15 horas, e nas quartas ao meio-dia. As celebrações são abertas ao público externo, acompanhantes, colaboradores e os próprios pacientes – que podem também receber visitas de seus orientadores espirituais particulares, mesmo que sejam de outras religiões, desde que combinem antes com a Pastoral.

Atualmente, a Santa Casa é referência em cardiologia, apesar de trabalhar com muitas outras especialidades (como oncologia e cirurgia plástica). Segundo Claudete 80% dos pacientes são vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS); ou seja, apenas 20% são atendidos por outros convênios ou pagamento particular. De acordo com ela, o hospital sempre recebeu doações para ajudar na continuidade do seu trabalho. Ela conta ainda que o público que a Santa Casa mais atende são homens e idosos, o que acontece por conta da especialidade em problemas cardíacos e causa a presença de muitos familiares nas enfermarias. As únicas emergências que o hospital atende são as de dor torácica, que podem indicar infarto; e a média de permanência dos pacientes é de apenas quatro dias. As cirurgias realizadas são as chamadas eletivas, que são procedimentos rápidos e agendados com antecedência.

 

Início

A história começou muito antes da inauguração do prédio atual. Em 1852, nasceu um grupo chamado Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. Existente até os dias de hoje, a Irmandade é uma organização sem fins lucrativos, ligada à Igreja Católica e formada por pessoas dedicadas à prática de obras de caridade e misericórdia – especialmente aos mais necessitados, como os pobres e doentes.

A ideia de uma Irmandade da Misericórdia nasceu em Portugal, e chegou ao Brasil a partir da colonização, ganhando força em diversas regiões do país ao longo dos séculos. Em Curitiba, o grupo começou com um pequeno ambulatório ao lado da Igreja Matriz – hoje Catedral, na Praça  Tiradentes. As instalações eram precárias e insuficientes para atender a demanda da cidade, já que na época, o único hospital do Paraná era a Santa Casa de Paranaguá, no litoral – que estava superlotado por conta de uma epidemia de cólera.

A Irmandade recebeu então um terreno maior, próximo ao Largo da Ordem, como doação de uma loja maçônica. Esse foi considerado o primeiro hospital de Curitiba. O médico José Cândido Muricy, quando passou a ser Provedor da Irmandade, dedicou anos de esforços para conseguir um espaço e os fundos necessários para a construção de um lugar ainda maior. Foi graças ao trabalho do “Dr. Muricy” que Curitiba ganhou seu primeiro grande complexo hospitalar, o prédio que existe até hoje.

 

Hospital-escola

A Santa Casa de Curitiba tem, em média, 1000 acadêmicos por semana circulando no local. Não são só estudantes de Medicina, mas também de Enfermagem, Nutrição, Psicologia e outras especialidades ligadas à saúde, seja para fazer residência ou estágio. A identidade da instituição como “hospital-escola” vem desde o começo, quando a integração era apenas com a Universidade Federal do Paraná – e que depois se estendeu à PUCPR e hoje atende diversas outras universidades, oferecendo biblioteca e salas de aula.

 

 

Na foto, sótão que abriga um acervo de livros antigos relacionados à área da saúde (Foto: Pedro Macedo)

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *