Sem acordo com a prefeitura, médicos continuam greve nas UPAs de Curitiba

Atendimento segue reduzido para casos não emergenciais; pacientes podem enfrentar atrasos

Por Vinícius Moschen

A UPA do Fazendinha registra movimento tranquilo, mas com grande tempo de espera. Foto: Vinícius Moschen

Iniciada no dia 27 de julho, a greve dos médicos contratados pela Fundação Estatal de Atenção Especializada em Saúde (FEAES) não tem data para terminar. O motivo principal da paralisação é o desacordo em relação ao reajuste desejado pela categoria. A solicitação inicial foi de 10%, mas o oferecido foi a reposição da inflação, mais um ganho real de 1%. A prefeitura afirma que não é possível aumentar os salários sem fazer alguma forma de corte nas horas extras. Além disso, os médicos reclamam da sobrecarga de atendimentos causada pelo fechamento da UPA Matriz (assumida pelo Hospital de Clínicas) e da UPA da Cidade Industrial – fechada para reformas desde novembro de 2016.

Ao longo deste ano, também surgiram várias reclamações em relação à falta de alguns remédios básicos nos postos de saúde. Em junho, foi constatada a falta de Dipirona em gotas (analgésico), Ibuprofeno (para dor, febres e inflamações), Omeprazol (para problemas de estômago), Atenolol (para doenças cardiovasculares) e Gliclazida (para tratamento de diabetes). A Secretaria de Saúde foi notificada, mas essa situação também é um dos motivos para a manutenção da greve.

No momento, 60% do efetivo de médicos contratados pela FEAES está trabalhando em atendimentos sem urgência. Para casos mais graves, todos os profissionais estão trabalhando normalmente. A greve também afeta consultas no Hospital do Idoso, na Maternidade Bairro Novo e nos Centros de Atenção Psicossocial de Curitiba (Caps).

Reajustes e reações

A paralisação surpreendeu a prefeitura, que alega já ter dado um reajuste de mais de 33% recentemente. Porém, segundo Cláudia Paola, diretora do Sindicato Médico do Paraná (Simepar), essa informação não procede: “Isso é uma mentira que vem sendo repetida pela gestão. Nos últimos anos vem sendo feita apenas a correção das perdas inflacionárias mais 0,5 a 1%”. Ainda segundo ela, essas correções vêm sendo feitas de forma parcelada, o que causa perdas salariais à categoria. Acusa ainda a FEAES de negligência nas negociações, que no momento estão suspensas. Confira a nota da prefeitura na íntegra:

“A equipe de médicos contratados pela Fundação Estatal de Atenção Especializada em Saúde de Curitiba (Feaes-Curitiba) teve um aumento real de 33,68% nos últimos quatro anos. Com isso, a Feaes passou a ser a empregadora a remunerar a maior hora-médica de Curitiba e região. É também a instituição com mais médicos contratados na capital paranaense. Este indicativo de greve causa estranheza à instituição, considerando o aumento já disponibilizado e o momento de crise que passa o país e os esforços que estão sendo feitos pelo município para rever e diminuir custos orçamentários, sem prejuízos à manutenção dos serviços oferecidos.”

Além da nota, o próprio prefeito Rafael Greca postou no seu perfil pessoal no Facebook um texto em que repudia a paralisação, e reforça a impossibilidade de atender as demandas em um período de crise. Ele também indica o salário atual dos médicos, informação refutada pelo Simepar. Confira o texto na íntegra:

É abusiva e desumana a greve dos médicos da Fundação de Atenção Especializada em Saúde (Feaes). Estão deixando os pacientes esperando, em especial os que não estão na urgência. Pedem 4,5% de aumento em um momento de depressão econômica e de queda da arrecadação.
Os médicos FEAES custam R$ 1.880,00 por plantão noturno de 12 horas em uma UPA. Este valor está acima da média paga em hospitais da iniciativa privada. Recebem ainda 100% de horas-extras pelo trabalho no quinto final de semana, enquanto o mercado remunera com 50%.
A Secretaria Municipal de Saúde oficiou o Conselho Regional de Medicina para coibir maus tratos por omissão de assistência à população. Em contrariedade ao artigo 35 do Código de Ética Médica. Apelamos aos senhores médicos que não inviabilizem o modelo de atendimento nos obrigando a buscar outras soluções. As informações deste post são verdade processual e me foram passadas pela direção da FEAES.”

A movimentação nas UPAs

A Secretaria Municipal de Saúde chegou a identificar uma demora de sete horas no atendimento na UPA do Pinheirinho, e por conta disso notificou o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), alegando uma possível ilegalidade do movimento grevista. Porém, na UPA do Fazendinha, o tempo de espera fica entre duas e três horas, dependendo da hora do dia, o que fica próximo das condições normais. É o caso de Thayná Alves Lindbeck, paciente que sofria com vômitos causados por uma virose. Ela contou que esperava há duas horas, e reclama: “Nunca demorou menos que isso”.

Para casos urgentes, o atendimento é normal, como relata Teresinha Moreira, aposentada que levou o marido Orlando de Paula para a UPA, para tratar de uma pneumonia: “Esperamos por somente uma hora, e o atendimento foi nota 10”, conta ela.

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