Temer afirma que o Brasil tem tendências autoritárias. Até onde isso é verdade?

Especialista afirma que é preciso cuidado com a máxima “centralização de poderes” do presidente

Por Vinícius Moschen

*Foto: Evaristo Sá – AFP

“Se não prestigiarmos certos princípios constitucionais, nossa tendência é caminhar para o autoritarismo. Nós brasileiros temos tendência para a centralização”. Com essa fala, o presidente Michel Temer retoma um assunto de discussão intensa na área das ciências políticas. O acesso fácil à informação contribui para um maior engajamento da população em relação à política, e a busca por um “salvador da pátria” é presente em grupos de diversas ideologias e classes.

Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que em uma escala de zero a dez, o cidadão brasileiro tem um índice de 8,1 em relação a simpatia com ideias autoritárias. Esse levantamento é feito com base em entrevistas, nelas as pessoas respondem concordando ou não com sentenças desse caráter de dominação. Como, por exemplo, “a obediência e o respeito à autoridade são as principais virtudes que devemos ensinar às nossas crianças”.

Porém, segundo Camila Mont’Alverne, doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná, é preciso tomar cuidado com declarações como a do presidente, pois elas ainda representam parcelas da população e não uma totalidade.  Para ela, não existe uma cultura autoritária no Brasil: “O fato de ter passado por vários períodos autoritários pode fazer com que o brasileiro médio não valorize tanto a democracia. Mas isso não quer dizer que as pessoas prefiram necessariamente um regime autoritário.”

A procura por um líder solitário que melhore as condições de vida do povo, nas diversas esferas da comunidade, aumenta em períodos de crise. Desde problemas da vida prática, até as diversas acusações de corrupção do ambiente político podem ser decisivos para a formação de um imaginário autoritário. Ao contrário do que se pode pensar, não é uma exclusividade do Brasil. Para Mont’Alverne, isso enfraquece ainda mais a ideia de que o brasileiro é tipicamente autoritário: “Temos visto soluções que não são adequadas com a democracia liberal em vários lugares: o fenômeno Trump nos Estados Unidos, ou na Alemanha, Inglaterra. Cada um com suas gradações diferentes.”

Apesar do momento conturbado politicamente, uma ditadura seria improvável nos próximos anos, pelo menos nos moldes do período militar de 1964: “É muito especulativo, mas acredito que hoje já temos instituições mais sólidas. Na Venezuela isso acabou pendendo para esse lado, mas aqui isso não se desenrolaria tão facilmente.”, afirma.

Conjuntura política para 2018

O pivô principal do discurso autoritário de direita é, há algum tempo, o deputado estadual Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Pré-candidato à Presidência da República, ele é apontado por seus seguidores como um líder “honesto, de fala forte e que vai dar um jeito na corrupção do Brasil.” Para a doutoranda, ele não pode ser comparado com nenhuma outra opção para o cargo de presidente, justamente por sua agenda de caráter autoritário: “Não há plataforma de governo para a economia, por exemplo. A plataforma dele é discurso de ódio, por isso é preciso ser cauteloso na hora de colocar lado a lado”, afirma.

Mesmo assim, há espaço também para o populismo autoritário de esquerda. Apesar de não considerar que o governo de Lula (2003-2011) tenha apresentado características de populismo, Mont’Alverne aponta que parte dos eleitores do candidato petista também o vê como um líder, que resolverá os problemas que não foram solucionados antigamente: “Isso se dá mais por uma lembrança do que foi a era Lula, e pelo fato de o PT não ter conseguido renovar as próprias lideranças.”

Pensando em 2018, o processo eleitoral será o mais influenciado pelas redes sociais, podendo até mesmo ter um impacto maior do que a propaganda de televisão convencional. Prova disso é um levantamento do Jornal Valor, que indica uma diferença grande nas intenções de voto para 2018 entre os que têm e os que não têm internet. Segundo essa pesquisa, Lula tem a preferência de 35% do eleitorado, contra 13% de Bolsonaro. Mas, se considerados somente os eleitores conectados, os números do deputado federal saltam e podem chegar até 23%.

Essa distância que existe entre o mundo real e o virtual pode ser decisiva para as candidaturas, segundo Mont’Alverne. Discursos autoritários que ganham muito espaço na internet podem não ser tão significativos para o capital político que realmente importa.: “A internet tem um papel fundamental de ampliar esse tipo de discurso, tem espaço para tudo. Mas ela tem outros recursos, como bots [perfis falsos]. E bot não vota.”

Investigações de grande porte como a Lava-Jato encadeiam um processo de despolitização da política, em que partidos e personalidades tentam mudar uma imagem já defasada e mal vista pelos eleitores. Vários partidos já mudaram de nome, como por exemplo o Democratas (antigo PFL), ou o Podemos (antigo PTN). Segundo a pesquisadora, isso é muito atrelado ao ideal dominador, da mesma forma: “O discurso é de que os políticos estão fazendo as coisas errado e precisa-se de alguém que não é político.” Para ela, essa manifestação autoritária ocorre em vão, já que de uma forma ou outra, esses também acabam sendo políticos.

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