Titi Müller, DJ Borgore, e quando a liberdade de expressão aprisiona

Episódio recente protagonizado pela apresentadora do canal BIS reacendeu o debate sobre a existência ou não de limites para discursos transmitidos na TV

Por Ian Batista

“Nós fomos criados fazendo piada racista, machista, gordofóbica e não tem mais espaço para isso nem no boteco, então não tem que ter mais espaço para isso na cultura, na TV”, diz Titi Müeller, dois dias após chamar a atenção nas redes sociais. Durante a transmissão do Lollapalooza 2017, no último dia 26 de março, a apresentadora do canal BIS alertou os telespectadores sobre o conteúdo sexista expresso nas letras do DJ israelense Borgore, instantes antes do músico entrar em ação em um dos palcos do evento.

Titi foi aclamada por inúmeros usuários nas redes sociais e recebeu o apoio da equipe de produção do BIS e Multishow pela postura manifestada. Em tempos nos quais está cada vez mais em pauta a problematização de conteúdos ofensivos veiculados mundo afora, não há mais possibilidade de os meios de comunicação não cumprirem o papel fundamental de retratar as coisas como elas são.

(Caso queira ver a crítica da Titi Muller, clique aqui)

A ideia da ultrapassada neutralidade jornalística esbarra fortemente na abordagem de temas em que não existe a isenção ideológica no discurso. Nesse caso, o ponto principal é se o discurso ideológico utilizado é excludente ou inclusivo; conivente com intolerâncias direcionadas a grupos minoritários, ou expositivo e questionador desses posicionamentos.

Após críticas feitas ao cantor, Titi Müller não mostrou arrependimento: “Falei é pouco” (Foto: Reprodução/Prosa Livre)

“O direito à liberdade de expressão está garantido na Constituição, é um absurdo não poder mais falar o que se pensa. Onde vamos parar?”, pode argumentar o leitor. No mesmo livro de leis que guia este país, está o objetivo fundamental de promover o bem estar de todos, sem preconceitos de raça, sexo, cor, idade. E quando a liberdade de expressão fere o bem estar alheio? Qual prevalece? Ter a autonomia para dizer o que se bem entende é, acima de tudo, estar sujeito a ser criticado e responder por aquilo que é dito observados o contexto, a temática e a intenção.

É verdade que, em algumas situações, essa avaliação pode ser extremamente subjetiva e condicionada às vivências particulares de cada espectador. No entanto, tratando-se de um autor cujas letras dizem coisas como “aja como uma vadia, mas antes lave a louça”, certamente não é o caso.

Apesar dos avanços conquistados por setores historicamente oprimidos na sociedade, ainda há um enorme abismo na aplicação dos princípios de igualdade. Essa relação assimétrica encontra nas falas insultuosas de artistas o mecanismo perfeito para se perpetuar de maneira sorrateira, especialmente quando amparada em algo aparentemente tão nobre quanto a liberdade, ainda que seja a de ofensa.

Uma das inevitáveis consequências da reprovação em massa, impulsionada como nunca pela internet, é o aumento da visibilidade da pessoa ou instituição alvo. Ao se depararem com as notícias sobre Borgore na internet, muitos leitores que nunca haviam sequer ouvido falar do DJ pesquisaram seu nome e abriram a sua página na Wikipédia.

Em um primeiro momento é feito o questionamento se “o tiro não saiu pela culatra”, pelo fato de o cantor ter ganhado acessos que sob outra circunstância não aconteceriam. Quem sabe, inclusive, não tenha até cativado alguns adeptos com pensamentos alinhados ao seu? Dificilmente essa deveria ser a preocupação, pois pessoas que pensam de maneira intolerante encontrariam em outros artistas e personalidades um espelho para a própria hostilidade. Em contrapartida, não faz mal a ninguém ter um nome a mais na lista de celebridades que, usando a expressão de Titi Müller, “não passarão”.

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