Trabalhadores optam por sair de seus empregos através da demissão voluntária

O Programa de Demissão Voluntária (PDV) ajuda as empresas na redução de gastos e atrai funcionários pelos benefícios extras

Por Pedro Macedo

Uzias Alves, 59, trabalhou por 30 anos como técnico de operação na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), localizada no município de Araucária, região metropolitana de Curitiba. A refinaria pertence à Petrobras, que no ano de 2016, abriu inscrições para o Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário (PIDV), na qual contou com a adesão de quase 12 mil funcionários. Alves foi uma das pessoas que aderiram ao programa, e conta que no início tinha dúvidas, mas decidiu sair da empresa por causa das mudanças na forma de trabalho, segundo ele bastante combatidas pelo sindicato. O ex-técnico, agora aposentado, faz parte de um grupo de pessoas que vêm optando por sair de empregos públicos, vistos como de grande estabilidade financeira, para seguir a vida de outra forma.

O PIDV da Petrobras foi anunciado em 11 de abril de 2016, e não haviam restrições para participar. Entre as pessoas que saíram da empresa, a maioria estava prestes a se aposentar, como Uzias. “Hoje eu tenho mais tempo para usufruir da companhia da minha família”, conta ele, “antes eu só conseguia viajar com eles quando a escala de folgas coincidia com os feriados, a ponto de muitas vezes toda família ter ido viajar e eu ter ficado trabalhando”.

Com o PIDV, a estatal tinha a meta de adesão mínima de 12 mil funcionários no programa, prevendo economizar uma quantia de R$ 33 bilhões até 2020. Desde dezembro de 2013, a Petrobras cortou cerca de 150 mil postos de trabalho, afetando funcionários próprios, terceirizados e empregados da construção civil. Outras empresas, como Mercedes-Benz e Bradesco, abriram processo de demissão voluntária entre o ano passado e esse ano. Os Correios pretendem lançar seu terceiro plano de demissão voluntária, como forma de reduzir custos em meio à crise que enfrentam.

Vera Cristina Orlandini, 51, está no aguardo do acerto do Programa de Demissão Voluntária (PDV) do Bradesco, onde trabalhou por cerca de 11 meses como gerente administrativa. Ela trabalhava para o banco HSBC até a marca ser comprada e incorporada pelo Bradesco em outubro de 2016.  “No início eu não queria e fui bem resistente. Depois de um tempo comecei a buscar informações, conversei com meu marido e meus filhos e cheguei à conclusão de que eu deveria sair”. Em entrevista por telefone, ela admite que seu psicológico ficaria mais abalado caso o próprio banco a desligasse. Optou, então, por aderir ao PDV.

No caso de Vera, a empresa oferecia como diferencial a quem escolhesse o programa 12 meses de salário,18 meses do plano de saúde para o titular e dependentes, além de seis meses de vale-alimentação. As verbas rescisórias eram as mesmas de um desligamento sem justa causa. No momento, ela diz que ainda “está curtindo umas férias”, porque não chegou a realizar o acerto, mas garante que depois que sair do Bradesco pretende se recolocar no mercado. “Eu também estou em um projeto para participar de programas de voluntariado”, revela.

Joaneide Cristofolini também trabalhava no Bradesco e aderiu ao PDV em julho. Ela trabalhava como bancária e conta que tinha uma intensa rotina de trabalho: atendia funcionários, trabalhava com caixas e autoatendimento, além da tesouraria. A ex-bancária conta que resolveu entrar no plano porque não tinha mais perspectiva de continuar crescendo no emprego. “Como vim do HSBC, senti que o Bradesco não tinha interesse no meu potencial”, afirma.

Joaneide ainda está em um momento de adaptação. Ela deixou o banco no dia 31 de agosto e sente como se ainda estivesse de férias. “Pretendo realizar outras atividades, porém ainda não decidi. Tenho três projetos pessoais em que pretendo investir, mas ainda preciso analisar”, fala. Com a ajuda do incentivo financeiro recebido pelo PDV, Cristofolini acredita que ainda pode buscar outro emprego para se recolocar no mercado.

Como funciona um PDV?

O Programa de Demissão Voluntária, que também pode ser chamado de Pedido de Demissão Incentivada (PDI) ou Pedido de Aposentadoria Voluntária (PDA), consiste em um acordo entre empresa e funcionários para estipular um fim para o contrato de trabalho. Para deixar o pedido mais atrativo, a empresa determina a garantia de pagamento das verbas rescisórias com acréscimo de benefícios, como pagamento de salário por uma quantia de anos trabalhados ou assistência médica e benefícios, como vale refeição, por um prazo estendido. Esses benefícios variam de empresa para empresa.

O PDV pode ser adotado por qualquer empresa, mas é mais comum em empresas multinacionais, estatais ou grandes companhias, como bancos. É perceptível que grande parte das demissões voluntárias acontecem em cenários de crise; porém, também é comum que empresas adotem o programa por conta de fatores internos, como mudanças na estratégia financeira ou reestruturações, prevendo redução de, pelo menos, 30% do quadro de funcionários.

As empresas, no entanto, precisam seguir algumas regras. É necessário que todo programa de demissão voluntária seja justificado. Além disso, a adesão ao programa deve ser acessível a todos os funcionários da empresa, sem exceções. É recomendado que o empregado busque sempre por informações e fique atento aos benefícios extras que são oferecidos.

Vale a pena?

No caso de Alves e Orlandini, os dois concordam que valeu a pena aderir ao PDV. A ex-gerente administrativa lembra que o salário mensal não vai mais existir por certo período, mas acha que isso vai ser compensador a longo prazo. “Meu objetivo seria mais três ou quatro anos de trabalho, então eu diria que cheguei perto. Os funcionários que aderiram ao PDV vão tirar 40% do fundo que faz parte das verbas recisórias. Vai valer a pena”, afirma. Além disso, Orlandini assume que entre ficar ou sair, o melhor para ela foi deixar a empresa.

Uzias ressalta o ponto de poder antecipar a sua saída da empresa em três anos sem prejuízo financeiro. Além de ter mais tempo para realizar projetos pessoais que sempre quis fazer, mas não conseguia por causa do trabalho, o ex-técnico acredita  que foi poupado de continuar trabalhando em um ambiente de grande dificuldade imposta pelas mudanças na Petrobras.

Para as empresas, os benefícios podem ocorrer a longo prazo. Os pedidos de demissão voluntária podem ajudar a assegurar uma boa imagem para a companhia pelos acordos entre empregador e empregado, diferentemente de quando a empresa precisa enxugar gastos e demite funcionários sem acordos.

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