Um ano após o impeachment, é razoável pensar no “e se”?

Em abril de 2016, com o Brasil à beira de um colapso político e econômico, pouco teria se resolvido com a permanência de Dilma na presidência

Por Rebeca Bembem

Em 17 de abril de 2016, em uma votação escandalosa na Câmara Federal, 367 deputados votaram a favor do prosseguimento do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT) para o Senado. Após duas votações na Casa, a presidente foi definitivamente afastada em 31 de agosto. Naquele período, após mais de dois anos de economia em queda, esquemas escabrosos de corrupção nas bases do governo sendo revelados e insatisfação popular crescente, teria sido melhor para o Brasil se Dilma tivesse ficado? Minha resposta é: dificilmente.

Tendo vencido uma eleição disputadíssima em 2014, a presidente andava na corda bamba. Os 51,64% dos votos que recebeu, contra 48,36% do candidato do PSDB Aécio Neves, não são uma vantagem tranquilizadora. Pelo contrário, nesse ponto o Brasil já dava sinais de que iria se dividir. Como de praxe, a economia teve um papel fundamental no descontentamento da população com o governo Dilma, acentuado no início do segundo mandato. Segundo o IBGE, foram 8,6 milhões de desempregados e inflação de 10,67% em 2015, a maior desde 2002.

Começaram a surgir movimentos que pediam o afastamento da presidente. A princípio, ninguém lhes deu muita importância, até que reuniram mais de 2 milhões de pessoas em 15 de março de 2015 e 3 milhões em 13 de março de 2016 – a maior manifestação da história do país. Desenhava-se ali um reflexo do que acontecia em Brasília. Dilma Rousseff perdia vertiginosamente o apoio de sua base e, assim, a capacidade de dialogar com o Congresso. Ela não conseguiria aprovar algo para melhorar a situação, nem mesmo se quisesse.

Com o processo de impeachment instaurado por acusações de crime de responsabilidade fiscal e facilitado por rivalidades políticas, Dilma caiu. A partir daí,  o controverso Michel Temer (PMDB), seu vice, assumiu a presidência do Brasil. Ao longo de seus meses de mandato, Temer causou polêmica com a proposta de reformas drásticas – a Trabalhista, da Previdência, do Ensino Médio e a PEC 55, que estabelece um limite para os gastos governamentais. As duas últimas já foram aprovadas.

Seria ingênuo dizer que todos aqueles deputados e senadores que possibilitaram a queda de Dilma tivessem em mente as irregularidades fiscais da presidente como única motivação ao votar “sim” – se é que tinham. No jogo do poder, nenhuma decisão é tomada sem segundas intenções. No entanto, não é justo dizer que as acusações não tinham fundamento ou que ela tenha sido vítima de um plano maligno do qual não tivesse nenhuma culpa. Ser eleita nunca lhe deu direito de ser irresponsável com o dinheiro público, muito pelo contrário.

No dia 28 de abril deste ano, as principais centrais sindicais do país convocaram a primeira greve geral em 20 anos, em protesto às reformas trabalhistas e da previdência. (Foto: Cadu Rolim/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

O problema maior veio depois. Grande parte dos que pediam o afastamento de Dilma não davam seu apoio irrestrito a Temer, porque nunca foi sobre preferir um em relação a outro. A questão foi que, apesar de ter assumido como presidente conforme a lei, seu projeto de governo não foi votado nem debatido com a população. Suas propostas de reformas profundas sugerem que ele deseja deixar uma marca de mudança, não apenas passar o bastão. Já declarou abertamente não ter pretensões eleitorais futuras e, talvez por isso, também não tenha medo de ser impopular, mas isso já ficou bem claro.

Para o bem ou para o mal, Michel Temer teve a coragem de propor mudanças em áreas estagnadas há muito tempo, como as leis trabalhistas e a previdência social. Ao mesmo tempo em que acredita na necessidade da mudança, seu governo falha em convencer a população disso. No entanto, é difícil dizer até que ponto as manifestações contrárias às reformas e ao presidente são realmente fruto de uma discordância sincera e atenta dos seus projetos de governo. O que parece estar em jogo é uma paixão cega por um ideal partidário, em que só se repetem frases prontas em uma espécie de rivalidade inconciliável.

Há anos o brasileiro tem tratado ideias e grupos políticos como torcida organizada de futebol: é “vagabundo petista” para cá, “coxinha burguês” para lá. É tudo ou nada para defender o seu grupo, e ninguém ao menos tenta se entender. As reformas de Temer são um perfeito exemplo do preconceito político. Se ambos os lados tirassem os óculos das suas ideias pré-concebidas a respeito do outro e lessem os projetos pensando no melhor para o Brasil, diriam as mesmas coisas? Não há problema nenhum em conhecer, debater e propor um outro caminho. Triste é, por raiva, desejar que tudo desmorone, só para ter a satisfação de dizer no final: “eu avisei”.

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