Um cabo de guerra entre experiência e inovação

A eleição à direção do SACOD gerou tensão entre as duas chapas concorrentes, levantando a um debate acerca da institucionalização do abuso e da misoginia na universidade

Por Manuel Valdes e Enzo Labre

Este texto é opinativo e expressa o julgamento dos repórteres sobre o assunto, sem refletir necessariamente a opinião do Jornal Comunicação.

Daqui cinco dias, os alunos dos Departamentos de Artes, Comunicação e Design decidirão quem vai ocupar a diretoria do setor nos próximos quatro anos. São duas as chapas que participam desse cabo de guerra. De um lado a chapa Convergência, composta por Maurício Dottori, do departamento de Artes, e Carol Calomeno, de Design. Do outro, as professoras Regiane Ribeiro, do departamento de Comunicação, e Stephanie Dahn Batista, de Artes, formando a chapa ConTextura.

A Convergência surgiu da união de outras duas chapas, a Laboratório de Ideias e a Reunir, que pela afinidade de opiniões decidiram, literalmente, convergir — Calomeno parece adorar esse trocadilho. Já a ConTextura, de forma mais espontânea, nasceu buscando maior representatividade das mulheres no setor e na política da universidade.

Na noite do dia 16, o Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACOS) organizou um debate entre as chapas concorrentes. A oportunidade de comparar e discutir as propostas, trouxe uma luz para o que, até agora, parecia que seria uma eleição às cegas.

Em suas considerações iniciais, a professora Regiane declarou que, no momento de criação da Convergência, os integrantes das outras chapas questionaram sua capacidade e experiência, tendo a excluído das primeiras discussões. Em resposta à isso, Dottori apenas comentou “Vivemos na era da pós-verdade”. A situação teria, inclusive, tomado proporções misóginas segundo uma postagem feita pela professora em 27 de outubro em seu perfil pessoal no Facebook.

No debate, a suposta falta de experiência e de capacidade de Ribeiro e Batista caíram por terra de imediato. A dominância da ConTextura no evento foi consistente e elegante. As propostas da chapa são claras, simples e palpáveis, ao contrário da Convergência que parece basear sua campanha inteira ao redor do conceito do prédio que reuniria os departamentos em uma só localização, onde hoje é o Decom.

A passividade de Calomeno também não contribuiu para a campanha. Enquanto Ribeiro e Batista tomaram posições ativas, confiantes e firmes, a candidata da Convergência pareceu depender de falas decoradas e estratégias prontas.

Dottori martelou na tecla do “temos experiência” de forma inesgotável, enquanto boa parte de suas propostas e respostas às perguntas do debate pareceram rasas e preguiçosas. A “carta” da experiência não pareceu tão forte assim nos momentos em que o professor quase perdeu a compostura no debate, constantemente interrompendo, gesticulando e debochando da oposição.

A falta de proximidade com a realidade dos alunos e funcionários é outro fator que pesou para a Convergência. Enquanto a ConTextura propunha alternativas interessantes e iniciativas que contam com a participação dos alunos e professores para a resolução de problemas como saúde mental, abusos morais e sexuais dentro da universidade e a situação dos funcionários terceirizados, a Convergência lavava as mãos e anunciava que são casos sem solução.

Chapa Contextura (Foto: Vinicius Fin Valginhak)

Quando Ribeiro trouxe à mesa a conversa sobre a institucionalização do abuso e da misoginia na universidade, a Convergência se restringiu a comentar que são casos gerais, que não acontecem apenas na Universidade Federal, portanto fogem às mãos do setor. Isso remove a responsabilidade dos Departamentos? Não há nada a ser feito? Nenhuma iniciativa a mais pode ser tomada por parte da administração para lutar e diminuir nem que seja em 1% a incidência desse tipo de situação?

No geral, toda a conversa sobre experiência parece não levar a lugar nenhum. O setor parou no tempo, o país está em crise e, como a própria Ribeiro comentou, conseguir verba extra do governo federal é praticamente um milagre. Talvez esteja na hora do SACOD parar de se preocupar tanto com experiência e priorizar a inovação e a criatividade.

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2 thoughts on “Um cabo de guerra entre experiência e inovação

  1. Estive no debate e posso dizer que este relato não condiz com a verdade, o discurso está manipulado para favorecer as candidatas da chapa ConTextura.

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