Um sonho que a guerra não destruiu

Em Curitiba há quatro anos, Lucia é a primeira refugiada a se graduar no Paraná

Era uma quinta-feira, 17 de agosto de 2017. O céu estava cinza e o tempo nublado. Mas os singelos 12ºC não deixaram a então estudante de Arquitetura e Urbanismo, Lucia Loxca, desanimar. Após anos de luta e superação, há 11.339 quilômetros de casa, ela realizou um sonho: se formar. Com brilho nos olhos e sotaque característico, a arquiteta de 26 anos conta sobre sua trajetória até aqui, bem como seus planos para o futuro. Confira no depoimento redigido por Thays Cristine, em entrevista exclusiva ao Jornal Comunicação.

“Minha história é longa” (Foto: Reprodução UFPR)

“Minha história é longa (risos). A Síria era um país muito seguro e tranquilo. Ninguém acreditava que teria guerra. De repente, rebeldes invadiram as laterais do país, depois adentraram e atacaram o centro. Eu tinha família, amigos, sonhos e estudava Arquitetura e Urbanismo há três anos — minha faculdade também fora bombardeada e, infelizmente, as aulas foram suspensas. Após um tempo, não aguentávamos mais os barulhos das bombas e a falta de água e luz. Quando o governo sírio abriu caminho para a entrada de alimentos, em novembro de 2013, decidimos fugir.

Tentamos viajar para outros países, mas nenhum aceitava refugiar os sírios naquela época, então só restou o Brasil. Passamos a pesquisar sobre o país e, um colega que morava aqui há 40 anos, indicou Curitiba. Nós viemos em 16 membros da família, então a responsabilidade era enorme.

No começo, foi muito complicado, pois não sabia dizer uma palavra em português e me sentia perdida. Logo conseguimos alugar uma casa e aprender a língua, mas como era final de ano, as escolas de idiomas estavam em férias, e precisávamos traduzir as palavras por um aplicativo.

Nesse tempo, tentei entrar em várias faculdades, mas nenhuma me aceitava, pelo fato de não falar português. Por sorte, numa das caminhadas para conhecer a cidade, eu e meu marido vimos uma placa dizendo “Universidade Federal do Paraná”. Resolvemos entrar e buscar um responsável pelo curso de Arquitetura. Era o coordenador de curso Paulo Chiesa, que estava saindo de viagem. Antes dessa viagem eu consegui falar com ele — somente em inglês — e deixei meus dados para contato. Lembro que o professor Paulo perguntou “você gosta de arquitetura?”, e eu respondi “sim, esse é meu sonho”. Depois de uma semana ele me ligou e eu recebi uma das melhores notícias dos últimos tempos: eu era a primeira refugiada aprovada na Federal. Voltei a estudar e sinto que foi aí que minha vida começou.

Bom, quando chega a outro país, o refugiado sente falta de uma estrutura que o acolha, ou seja, não existe assistência adequada. Eu e minha família passamos por isso, e foi então que veio a ideia do meu Trabalho de Conclusão de Curso: planejar um centro de acolhimento para essas pessoas. Pesquisei muito sobre imigrantes e refugiados e idealizei tudo, sempre trazendo elementos da arquitetura síria, como fontes e fachadas. Foi muito bacana, gostei muito.

No trajeto até aqui, posso dizer que a Federal foi tudo. A única que abriu as portas e me permitiu seguir meu sonho. Pude conhecer professores, amigos, me inserir na sociedade. Acredito que não existam palavras para traduzir essa gratidão. Existiram momentos em que pensei em desistir. Era muito difícil, eu não compreendia a língua, mas a vontade de continuar era maior. ‘Valeu a pena’, eu diria.

O tão esperado momento de receber o diploma (Foto: Reprodução UFPR)

Nesse momento, me sinto uma brasileira. Meu sonho é voltar e ajudar a reconstruir a cidade. Esse é o desejo de todos os sírios, não só o meu, mas acredito que não será tão cedo. Atualmente, trabalho em um escritório de arquitetura com meu marido. Agora, pretendo por em prática o projeto da graduação e continuar vivendo aqui, fazendo shows musicais e transmitindo a nossa cultura para Curitiba.

Acho que o meu discurso foi um pensamento em voz alta de tudo que eu senti nesses três anos que estive na Universidade. Fiquei extremamente feliz, pois todos puderam conhecer um pouco da minha história e sentir um pouco o que passei. ‘Se’ formar foi uma sensação única. ‘Finalmente’, eu pensei.

Éramos 23 milhões de habitantes. Vinte e três milhões de histórias. A guerra deu a mim — e a todos os sírios — muitas lições de vida. Aprendi a valorizar mais a vida e que tudo é passageiro. As coisas estão aqui agora, depois não estão mais. Ah, e aprendi também que, quando temos um sonho, nem a guerra pode acabar com ele.

 

Lucia e o marido na cerimônia de colação de grau (Foto: Reprodução)

ALMA SÍRIA

Além de arquiteta, Lucia também é musicista. Ela, junto com o marido e a cunhada, montaram uma banda chamada Alma Síria, e viram na música uma forma de trazer a cultura árabe para o Brasil. “Quando chegamos aqui, sentimos essa responsabilidade de transmitir a nossa música”, ela conta.

 

ENTENDA A SITUAÇÃO NA SÍRIA

Desde janeiro de 2011, os sírios vivem uma guerra civil. Opositores ao governo querem a saída do atual presidente do país, Bashar Al-Assad, buscando um processo de renovação política. Até agora, mais de 400 mil pessoas foram mortas e aproximadamente cinco milhões estão refugiadas.

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