Um treino de técnicas da Idade Média no domingo curitibano

Meu contato com grupo curitibano de Hema mostra que o esporte tem ganhado mais adeptos pelo mundo
Embora os equipamentos básicos sejam luvas, espada e máscara, os participantes podem usar pequenas armaduras para aumentar a diversão (Foto: Daniel Kei Namise)

Por Daniel Kei Namise

Quando criança, uma das minhas brincadeiras favoritas era transformar a vassoura da minha avó em espada e lutar contra monstros imaginários que ameaçavam a sala de estar. A oportunidade de reviver um pouco essa lembrança surgiu com minha participação no treino de Artes Marciais Históricas Europeias (HEMA) que acontece de graça no Museu Oscar Niemeyer, em todos os domingos de sol. Essa modalidade pode ser entendida como o que chamo de novo-velho esporte.

A arte marcial era bastante disseminada entre os europeus séculos atrás. Nos dias atuais, a HEMA (abreviação de Historical European Martial Art) resgata todas as técnicas de luta usadas no período medieval. O esporte ressurgiu na década de 90, quando historiadores começaram a traduzir manuais de luta com mais de 400 anos para o inglês. Esses documentos históricos, que incluíam movimentos com vários tipos de espadas, estimularam o estudo prático dos combates físicos da história europeia.

Ao contrário do que se pode imaginar, a modalidade não requer o uso de trajes teatrais e armaduras em estilo medieval. Os praticantes podem usar roupas normais, com algumas proteções em lugares estratégicos, como luvas e uma máscara que se assemelha às usadas na esgrima. As espadas também não precisam ser de metal. Aquelas usadas durante o treino são feitas de madeira e nylon. Afinal, a ideia é praticar um esporte e não transformar as lutas em uma partida de Mortal Kombat.

Quando aceitei participar do treino, não sabia o que esperar. Até então, meu único contato com espadas foi através de filmes e séries de televisão. Para minha surpresa, a experiência foi mais divertida e agradável do que imaginava. Como todo esporte, começamos com um rápido alongamento e então passamos para o momento central, o treino com as espadas. A minha sensação ao segurar o objeto pela primeira vez foi uma mistura de euforia com nostalgia. Me senti na sala de estar da casa de minha avó, da mesma forma que podia me imaginar em Westeros (mundo fictício de Game of Thrones). Por ser minha primeira vez, não foi permitida a minha participação nos combates. Ainda assim, aprendi o básico de HEMA, desde como empunhar a espada até as posições de ataque e defesa.

Eu, como novato, recebi orientações das técnicas básicas de espada longa, modalidade mais popular nas Artes Marciais Históricas Europeias. São quatro posturas defensivas, chamadas de guarda. Os lutadores desferem golpes com suas espadas na tentativa de tirar seus adversários da defensiva e deixá-los em posições mais vulneráveis. As lutas costumam ser rápidas e às vezes até brutais. Ensinamento: a chave para arte marcial está em dar um golpe certeiro e evitar o contragolpe do adversário.

É impossível participar do treino e não lembrar de Game of Thrones (Foto: Daniel Kei Namise)

A Ordem do Grifo de Fogo

Embora já houvesse outros grupos de reencenação medieval em Curitiba – como o clã Skajaldborg, que se dedica ao estudo da Era Vicking –, em 2016 surgiu o primeiro grupo de Hema na cidade, a Ordem do Grifo de Fogo. A equipe, formada por cerca de 15 pessoas, se devota ao estudo e prática da escola alemã de esgrima antiga. Em treinos regulares, os participantes se encontram em quase todos os domingos no Museu Oscar Niemeyer, para praticar técnicas que aprenderam através de manuais ou em vídeos de HEMA no Youtube.  O que não falta nos treinos é bom humor e pessoas curiosas assistindo às lutas.

Poder participar de um treino de HEMA me ensinou muitas coisas, mas a mais importante é que os combates cinematográficos são totalmente diferentes dos reais. Enquanto os filmes retratam essas batalhas como duelos com movimentos chiques e bem coreografados, os guerreiros da vida real tem uma abordagem diferente no campo de batalha. Isso acontece com foco em acertar a cabeça do oponente e apunhalar a espada usando qualquer método possível.

Sendo esse o meu primeiro contato com o esporte, não achei difícil aprender as posições básicas da HEMA. A parte complicada está na execução dos movimentos de ataque e na troca de guardas. É fácil errar o movimento. Percebi isso quando me passaram um exercício composto por 64 cortes – uma variação entre ataque e defensa, em movimentos que não se repetem. Obviamente, executamos somente 4 cortes, mas foi o suficiente para perceber como o manuseio da espada é importante na HEMA. Embora tenha sido uma experiência curta, o treino se provou ser fácil de se praticar e acessível a qualquer pessoa, mesmo os leigos em artes marciais.

Veja como participar:

 

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