Uma banca com muita história para contar

Ponto de encontro para debate de notícias deu origem a uma verdadeira família

Fotos e texto por Gabriel Muxfeldt 

Localizada na Rua Itupava, número 1.301, exatamente ao lado da ciclovia e da linha férrea, não é uma banca como outra qualquer. Não pelas revistas, jornais, doces e outros produtos que podemos nos deparar em todas elas, o que ela tem de especial é a presença quase que religiosa dos seus frequentadores que construíram uma amizade e união difíceis de encontrar por aí.

O dono, Gregório de Bem, 65, afirma que o movimento se deu de forma espontânea. O primeiro endereço da banca foi na Rua Fernandes de Barros (na quadra de cima), em 2004, mas por determinação da prefeitura, teve que mudar em 2008 para o local em que se encontra hoje. Por coincidência ou não, De Bem é formado em jornalismo, mas nunca atuou na profissão e está no ramo desde os seus 17 anos. De fala mansa e despreocupada seu carisma é capaz de conquistar qualquer um que esteja disposto a um dedo de prosa, o que pode ter ajudado na formação do time.

Advogados, engenheiros, dentistas, jornalistas, entre diversas outras profissões preenchem o quadro dos cerca de 25 componentes do grupo – formado por, maioria, aposentados – que no princípio se reunia para discutir as notícias do jornal.

Em parceria com a prefeitura, Gregório ajudou a desenvolver o design de um novo modelo de bancas de jornal, adotado desde 2008 em toda a cidade e que teve a sua como piloto. Com a mudança de endereço e reformulação do espaço que ganhou mais alguns metros quadrados, foi possível disponibilizar para a clientela um ambiente mais confortável e aconchegante, com mesas, cadeiras e guarda-sol.

Por estar ao lado da ciclovia, qualquer um que passe por perto é capaz de ver a conversa, as discussões e as risadas rolando soltas. É quando a curiosidade se torna um convite a participar. O processo foi acontecendo aos poucos: no início, apenas alguns clientes fiéis passavam algumas horas por ali conversando. Algum de manhã, outro pela tarde e os encontros se davam esporadicamente. De forma natural, o final da tarde se tornou o horário preferido para os debates e o grupo passou a crescer.

Mesmo em uma terça-feira fria, o grupo marca presença nos últimos minutos de sol antes do fechamento da banca

Nesses 13 anos, o grupo já ganhou vários e, infelizmente, perdeu alguns integrantes, mas isso não abala a disposição da turma. Tulio e César têm cadeira cativa no local e já presenciaram quase todas as festas que são promovidas ali. O primeiro, que é projetista aposentado, chega a ir à banca até três vezes por dia: sempre às 8h da manhã, próximo ao horário do almoço e por volta das 17h30. São amigos de longa data que se encontram todos os dias compartilhando sabedoria e conhecimento com quem quer que esteja disposto a ouvir.

Outra presença assídua é a de Paulo. O entusiasta de fotografia possui um acervo com 1500 fotos de Cid Destefani (falecido em 2015) recortadas semanalmente da Gazeta. É ele o responsável pelas fotos dos eventos que acontecem diversas vezes ao ano. Tudo é motivo de reunião e festa. Seja no Carnaval, na Páscoa, no Natal, ou no aniversário de qualquer um dos amigos. Fazem a decoração do local, se caracterizam, organizam o que cada um deve trazer e pronto, está feita a farra.

César, 70 (à esquerda) e Tulio, 74 (à direita) relembram os longos anos de amizade através das fotos

No geral, a maior parte deles não tem horário bem definido para passar por ali e ao longo da semana ocorrem alguns desencontros. Portanto, no final de semana a reunião geral é sagrada. Se não for no sábado, é no domingo. Especialmente quando o clima da cidade colabora, surge o ambiente perfeito para tomar uma cerveja, degustar alguns petiscos e jogar conversa fora. É nesses dias em que trazem as esposas, os filhos e os netos, uma confraternização bonita de se ver.

Ao longo de todo esse tempo, é impossível mensurar a quantidade de informação, debates filosóficos e encontros divertidos que ocorreram neste pequeno pedaço do Hugo Lange. Se você precisa de alguém para desabafar, trocar ideias ou simplesmente quiser ouvir histórias de um tempo que não volta mais, este é o lugar certo. Quem sabe, com um pouco de frequência contínua você até ganhe o direito de participar do grupo do WhatsApp e passe a ficar ciente de todas as atividades da Banca do Bem.

Em reconhecimento a promoção da cultura local e a disseminação de informação, Gregório recebeu da Câmara de Vereadores de Curitiba o prêmio “Cultura e Divulgação de Curitiba” no ano passado. Mas isso não é o principal. O que vale, é a amizade, a união e a parceria que todos desenvolveram ao longo desses anos e que guardam com um carinho especial no coração. Os cumprimentos e dizeres próprios, além dos apelidos e piadas internas, refletem o entrosamento do grupo e demonstram como se sentem a vontade naquele ambiente. Até mesmo a dor da perda dos que partiram é amenizada pela intensidade dessa relação de amizade. Vale a pena conferir, você vai se sentir em casa.

Gregório guarda com orgulho o prêmio recebido pela prefeitura

 

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *