Uma tarde (diferente) no museu

Confira como foi a apresentação da Orquestra Sinfônica do Paraná, que encantou o público com a ópera “Carmen” ao ar livre no MON

Por João Cubas

Aquele sábado estava pouco convidativo para passeios em lugares abertos. Mesmo assim, a chuva fina, que caía na tarde do último dia 21, não desanimou o público que lotou o saguão do Museu Oscar Niemeyer (MON). Os músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná, sob a regência do maestro Stefan Geiger, brindaram a plateia com a obra “Carmen”, de Rodion Schedrin.

Cerca de 30 músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná participaram da apresentação no MON. (Foto: João Cubas)

Ao chegar, percebi que a música clássica tem um público fiel e ao mesmo tempo heterogêneo – com jovens, casais de todas as idades, crianças – que, movido pelo boca-a-boca das redes sociais, resolveu aparecer. Senhoras surgiram com cadeiras de praia e educadamente se colocaram em meio ao pessoal sentado no piso envidraçado que fica ao centro do vão do MON.

As curvas modernas do museu aliadas à tecnologia dos celulares em punhos contrastavam com a pretensa sisudez da orquestra. No entanto, tudo se integrou com a interação vibrante do maestro alemão, que arranhou algumas palavras em português e cativou o público com seu entusiasmo durante a apresentação. Aos poucos, os celulares foram baixando e restou a contemplação. Exceto a deste repórter, que continuava com o bloquinho de anotações, mesmo com o olhar estranho de algumas pessoas. “O que será que ele tanto escreve?”.

Clássico e tecnológico se confundem – muitos querem guardar o momento em seus aparelhos. (Foto: João Cubas)

Esta é uma experiência que deve ser feita ao vivo. A orquestra cresce quando vista e sentida a poucos metros de distância, e aguça outros sentidos além da audição. Sensações como espanto, angústia, e lembranças da infância emergem ao toque do xilofone, dos violinos, de um sininho que surge em meio ao silêncio. Lembrei de alguns episódios do Picapau e do Pernalonga, em que a música clássica nos levava a cenários lúdicos durante a ópera.

O público, cúmplice e talvez mais familiarizado que eu, aplaude apenas quando o maestro sinaliza, mas sem ser pedante. É como uma simbiose, onde todos estão acordados nas regras naturalmente. No começo, os pequenos ainda estavam meio confusos, depois silenciavam, nos aplausos pulavam, e uma garotinha ainda arriscou uns passos de balé. Antes do fim, contudo, duas garotinhas gêmeas que estavam a minha frente soltaram o “vamos mãe?”. É difícil qualquer coisa prender a atenção das crianças por tanto tempo, mas isso não é demérito algum da orquestra, muito pelo contrário. Quando conseguiu, fez com maestria.

Os movimentos de Geiger conduzindo a orquestra revelavam o envolvimento dele com a arte. Era como um ator, com caras e bocas compatíveis com o momento e o som emitido pelos instrumentos. Era carismático e com uma vontade que cativou a muitos. Cativou a mim, em especial, que nunca havia tido a oportunidade de acompanhar uma orquestra ao vivo e não sabia a origem daquela obra. A intenção no olhar dos músicos também era nítida, em meio à concentração e entradas irretocáveis, todas perfeitamente sincronizadas.

A apresentação tinha o cenário ideal. As árvores do Bosque do Papa acalmavam os sobressaltos. Deu até saudade de um tempo que nunca vivi, uma nostalgia, ou a ansiedade do que está por vir em meio ao rufar dos tambores.

As reações eram individuais. Uma senhora, provável habitué de concertos, acompanhava cantando algo que não tinha letra (pelo menos ali). Um jovem ao lado ligou um aplicativo para saber que música era aquela, sem sucesso. Até o Sol, que não tinha dado as caras naquele sábado, resolveu aparecer, solene. Dava boas vindas e luz àquele momento. Solar.

Após a apresentação, o sol, que esteve escondido durante todo o dia, resolveu aparecer. (Foto: João Cubas)

Ao final, o mesmo rapaz do aplicativo solta um “que rápido”. E foi mesmo, a experiência de se abrir ao novo, sem sair da Curitiba arrumadinha de sempre. Um exercício de imaginação e de percepção aguçada que me proporcionou serenidade, antes de me transportar de volta para o mundinho de sempre.

O release da apresentação dizia que o objetivo era “facilitar o acesso da população à arte e a formação de plateia”. Para mim, ela o alcançou, pois agora a Orquestra ganhou mais um espectador.

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