Vanessa Bencz e a paixão de poder impactar a vida de jovens e crianças

Após sofrer bullying na infância, a autora joinvilense faz a diferença através da escrita e da realização de palestras

Por Mariana Ue Toy

 

Menina Distraída é o primeiro livro da escritora com a temática de bullying (foto: arquivo pessoal)

A escritora Vanessa Bencz, formada em Jornalismo, realiza palestras sobre bullying, respeito e empatia. Nasceu em Joinville – SC, mas viaja por todo o Brasil conversando com crianças e adolescentes sobre suas experiências.

Quando criança, possuía dificuldades na escola, o que fazia com que os colegas, e até alguns professores, implicassem e debochassem dela. Depois de interiorizar os sentimentos ruins por muito tempo, ela finalmente contou aos pais sobre a humilhação que sofria. Eles a levaram para conversar com uma psicóloga, que diagnosticou o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Autora de quatro livros, a catarinense está realizando um financiamento coletivo para publicar a história em quadrinhos Por Enquanto. Esta quinta obra autoral abrange a temática do bullying, tratando da automutilação, depressão na adolescência e suicídio. Vanessa já deu mais de 800 palestras pelo país e pretende continuar. Em entrevista ao Jornal Comunicação, afirma que é uma de suas paixões poder transmitir a mensagem de empatia e poder impactar a vida de jovens e crianças.

 

Jornal Comunicação: Como começou a sua relação com a escrita?

Vanessa Bencz: Morei, durante toda a minha infância e adolescência, na casa da minha avó. Lá, ela tinha um espacinho que a gente chamava de biblioteca, que era uma sala com vários livros e estantes recheadas. [Eu] mal sabia ler, mas amava olhar os livros. Tinha um que eu lembro até hoje, da Marina Colasanti, que se chamava Contos de Amor Rasgados. Eu amava ler e tentar entender as histórias desse livro. Então, a minha relação com a escrita começou bem cedo, por conta dessa convivência, mas eu só fui querer ser escritora aos 18 anos de idade.

 

JC: Quando começou a dar palestras em escolas e o que te motivou?

VB: Comecei há cinco anos, em 2012, e foi depois que eu lancei meus dois primeiros livros. O primeiro chama-se Relato do Sol e o segundo Memórias de uma Jornalista Distraída. Depois do segundo, as professoras de Joinville começaram a me chamar para dar palestras nas escolas delas. Os professores sempre chamam escritores locais para falar um pouco da escrita e convencer os alunos a lerem, mas, desde a primeira palestra, eu já não queria falar sobre livros, escrita e literatura; queria falar coisas legais para os estudantes. Porque, quando eu era adolescente, chamavam na escola os escritores mais velhos e com palestras entediantes. Eu não queria ser mais uma dessas. No fim das contas, lembro que minha palestra foi para uma turma de 6ª série. Contei um pouco sobre minha adolescência e infância e sobre já ter sofrido bullying. Falei que tinha problemas de aprendizado, que me colocaram muitos apelidos e que já fui zoada até por professores. E foi assim que eu comecei, aos poucos as turmas iam gostando e os professores também. Até que a coisa cresceu a ponto de eu lançar uma história em quadrinhos contando um pouco da minha vida, para ser uma força a mais nas minhas palestras.

 

JC: Quantas palestras você já realizou?

VB: Até hoje, 811 palestras. Em 5 anos, foram mais de 800 palestras. Nos dois primeiros anos, eu fazia cerca de 50 por ano, mas depois do terceiro ano, eu comecei a viajar o Brasil inteiro fazendo de 4 a 6 palestras por dia.

Vanessa Bencz ministrando uma de suas 800 palestras (foto: arquivo pessoal)

 

JC: Teve algum momento marcante nas palestras?

VB: Depois de cada palestra, eu sempre ouço histórias de adolescentes e crianças. Geralmente são histórias difíceis, de alguém que ainda está passando por alguma violência ou já superou. Nunca vou esquecer de uma que ouvi em São Paulo, em que o menino me contou que, quando criança, era torturado pelo padrasto com um cigarro. O padrasto o queimava com as bitucas, ele até me mostrou as cicatrizes. Isso foi muito chocante pra mim. Ele devia ter uns 16 anos, era um menino incrível e desenhava muito bem.

 

“Isso me marcou, por causa da maldade que um padrasto teve com uma criança”

 

JC: Você realiza palestras em outros lugares além de Joinville?

VB: Sim, no Brasil inteiro. Os últimos lugares foram Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Minas Gerais e Brasília, mas vou onde me chamarem. Às vezes, a escola não tem dinheiro para pagar minha passagem e hospedagem. Também não tenho como pagar e, infelizmente, não tenho como ir. Mas sempre que posso, dou um jeito.

 

JC: Quantos livros você já publicou? Eram todos com a temática de bullying?

VB: Não, estou publicando meu quinto livro e só os três últimos têm essa temática. O terceiro livro, que é A Menina Distraída, o quarto, que é o Leia Quando Chegar em Casa – um livro em prosa que conta minhas experiências nas escolas -, e o quinto livro, uma história em quadrinhos em financiamento no Catarse, chama-se Por Enquanto.

 

JC: O que te fez mudar de contos para histórias em quadrinhos?

VB: Minha mudança de público. Quando entendi que meu público eram os adolescentes e as crianças, eu quis fazer uma mídia bem acessível para eles. Além disso, meu sonho desde a adolescência era ser quadrinista, então pude realizá-lo.

 

JC: Você pensa em continuar dando palestras por um bom tempo?

VB: Pretendo. Sinto que está cada dia mais difícil pra mim, porque eu sou só uma e tem cada vez mais cidades e escolas pedindo palestras – além dos problemas com a minha voz e dificuldades financeiras para conseguir fazer tudo isso. Porém, pretendo continuar até quando conseguir. Sou apaixonada pelo trabalho que faço e espero ficar um bom tempo com isso ainda.

 

“Existe uma ideia de que temos que ser sempre fortes, mas o que é ser forte? (…) Ser forte é ser sensível, empático, altruísta e ter coragem de se conectar com as pessoas ao redor”

 

JC: Qual a mensagem principal que você busca passar com as suas palestras?

VB: Tenho várias mensagens, mas a principal é que as pessoas precisam se respeitar. A empatia é uma ferramenta básica de convivência em sociedade, e as pessoas não estão tendo empatia umas com as outras. Estamos vivendo em uma sociedade doentia, egoísta e iludida. Existe uma ideia de que temos que ser sempre fortes, mas o que é ser forte? Nós achamos que é ser musculoso, grosseiro e que aguenta porrada, mas não é só isso. Ser forte é ser sensível, empático, altruísta e ter coragem de se conectar com as pessoas ao redor. Então, essa é a minha mensagem principal: que nós sejamos empáticos, porque estamos indo por água abaixo. Nossa sociedade está doente e nós precisamos mudar isso urgentemente.

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